quinta-feira, 27 de outubro de 2016

«O Mosquito» e «Chicos» - AS PUBLICAÇÕES INFANTO-JUVENIS QUE ABALARAM A PENÍNSULA IBÉRICA (5) – por José Ruy





AS PUBLICAÇÕES 
INFANTO-JUVENIS
QUE ABALARAM A PENÍNSULA IBÉRICA

«O Mosquito»
e
«Chicos»
(05)

Por José Ruy

UMA HISTÓRIA ILUSTRADA DE E T COELHO PARA «CHICOS»
QUE NÃO FOI TERMINADA E FICOU INÉDITA

Em 1945, ETCoelho, além de ilustrar novelas para «O Mosquito» e «Chicos», tinha já publicado em Espanha as histórias em quadrinhos «El Elchicero de los Matabeles» e Un Jinete del Oeste» e tinha em preparação uma outra, «Os Guerreiros do Lago Verde». Curiosamente esta foi a sua primeira história em quadrinhos publicada n´«O Mosquito», que produziu um grande impacto nos leitores em Portugal, que desconheciam essa nova faceta da sua Arte.


ETCoelho iniciou uma história para «Chicos» com o título de «ElDios de la Montaña», com argumento seu, como normalmente acontecia.


Mas esta história ficou na «gaveta», incompleta e desistiu de a continuar (não apurei o motivo na altura e agora é tarde) deixando prontas quatro páginas já a tinta-da-china, de um total de seis, as duas últimas só esboçadas e com o apontamento de cor. 

Observemos de novo este engenhoso processo, que evitava fotografar os originais: sobre o papel ao tamanho da publicação, era feito o desenho a lápis, e depois sobrepondo uma folha de papel vegetal, o traço era então aí coberto a tinta-da-china, como mostrei no artigo anterior. Todos os autores espanhois seguiam esta regra.


Na página 6, a história foi interrompida e ETCoelho não a completou nem chegou a ser publicada. Veja-se como ETCoelho se adaptou perfeitamente ao processo, e os desenhos feitos logo ao tamanho não fazem diferença dos que fazia ao dobro do formato, para serem reduzidos fotograficamente, e assim ficarem mais perfeitos.

Mas as dificuldades em Espanha não paravam e o fabrico do próprio papel vegetal de qualidade para receber a tinta-da-china, começou a escassear e não podia ser importado.

Então a Consuelo Gil sabendo que em Portugal não tínhamos restrição desse material, combinou com o Tiotónio que mandasse pelo correio quantidades dessas folhas juntamente com as provas das ilustrações do Coelho.

O pagamento dos direitos e deste material aos autores era feito por permuta.

Consuelo pagava em Pesetas os direitos a Blasco, Freixas, Moreno e aos outros, do que era publicado em Portugal, e o Tiotónio pagava em Escudos ao Coelho a colaboração que fazia para «Chicos». Desse modo não havia necessidade de cambaiar moeda e todos ficavam satisfeitos.

«CHICOS» NACIONALIZAVA TAMBÉM OS HERÓIS DAS SUAS HISTÓRIAS

O lema de «Chicos» era que os heróis publicados fossem nacionais, tal como os seus autores, exceção para a colaboração do nosso ETCoelho, que era o único estrangeiro.

Em 1937, em Espanha, havia uma história editada em livro de um original de Walt Disney.




Observem-se estas figuras de «Gusanito Peter» dos Estúdios Walt Disney e a história que conta uma «declaração de guerra das moscas aos outros insectos».


Comparemos a publicação de autoria de Cabrero Arnal que tanto êxito conseguiu na Península ibérica.

Há uma inegável proximidade entre estes desenhos de Disney e os de Arnal em «Guerra no País dos Insectos», não só na estilização das figuras, como no tema de grande atualidade nessa época.

A Editorial Molino de Barcelona, adquirira os direitos «em exclusivo» a Walt Disney para esta versão em castelhano.


Na história de Cabrero Arnal, os maus são as aranhas, que declaram guerra a todos os insetos. É um espelho do confronto armado entre as fações em território espanhol e não tenho dúvidas ter sido isso que motivou o êxito.

Mas a semelhança dos desenhos é flagrante. Repare-se na cena do herói que navega numa casca de noz.

Em Portugal As Edições «O Mosquito» editaram esta história completa em livro, independente de «O Mosquito» como viria a fazer com outras de origem espanhola e uma mesmo de autoria do Tiotónio, As Aventuras de Zé Pacóvio e Grilinho.


Foi o único álbum que o Tiotónio desenhou com as suas célebres personagens 
«Zé Pacóvio e Grilinho». 

Se em Espanha a técnica era desenhar sobre papel vegetal, o Tiotónio desenhava para «O Mosquito» sobre «Papel Cromo», um material transparente, como papel de seda gomado de um lado, com uma goma seca. Sobre essa face desenhava com tinta litográfica (a que era utilizada diretamente no zinco) e depois o original era estampado na chapa que ia a imprimir na máquina Offset, sem precisar também dea intervenção fotográfica. Mas esses originais eram desfeitos aquando da acidulação das chapas de zinco. Por isso não existem originais dos desenhos do Tiotónio.

No próximo artigo: 

A importância do texto nas histórias desenhadas, em «O Mosquito» e «Chicos»

José Ruy

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