quinta-feira, 6 de abril de 2017

Gazeta da BD #71 – Heróis da BD Portuguesa – 5 – O Espião Acácio – de Fernando Relvas

Gazeta da BD #71, 31 de Março de 2017

Heróis da BD Portuguesa – 5
O Espião Acácio – de Fernando Relvas


Com O Espião Acácio, de Fernando Relvas, as nossas escolhas de Heróis da BD Portuguesa entram na fase do humor. Este artigo pretende também ser uma pequena homenagem ao autor.

A publicação de histórias em BD de Fernando Relvas (Lisboa, 1954) iniciou-se em 1975 nas páginas dos fanzines O Estripador e O Gorgulho, e depois no jornal Gazeta da Semana. Mas o grande "salto" na sua carreira deu-se com a publicação das 110 páginas de O Espião Acácio na versão portuguesa da revista Tintin, entre 1978 e 1980. A inclusão desta e de outras histórias na revista só foi possível quando os directores, Dinis Machado e Vasco Granja, decidiram incluir um caderno a preto e branco, onde foram publicadas também Corto Maltese, de Hugo Pratt, The Spirit, de Will Eisner ou A Sombra do Corvo, de Didier Comés, por exemplo.

O Espião Acácio é uma espécie de crónica humorística sobre a Primeira Guerra Mundial e que, infelizmente ainda nenhum editor se lembrou de publicar em livro. Na revista Tintin, Relvas iria ainda publicar, até 1982, Rosa Delta Sem Saída, Cevadilha Speed, L123, Slow Motion e Kriz 3. No meio disto ainda publicou n’O Mundo de Aventuras, as onze pranchas de O Controlador Louco (que foi capa da revista) e a prancha O Povo de Ferro.


Em 1982, passou a colaborar no semanário Se7e, para o qual escreveu e desenhou Concerto para Oito Infantes e Um Bastardo, Nunca Beijes a Sombra do Teu Destino, Este Chavalo Seria Tão Barilo Se..., Sangue Violeta e, sobretudo, inventou Karlos Starkiller, genial mistura de James Bond e Zé Povinho. Publicaria ainda mais catorze histórias no Se7e até 1988. Segue-se em 1989 parte de O Rei dos Búzios na revista Sábado e, em 1990 ganha o 1º prémio do Concurso “Navegadores Portugueses”, do Centro Nacional de Cultura, com a história Em Desgraça, publicada mais tarde em álbum pelas edições Asa.

Fernando Relvas foi um dos autores portugueses na exposição colectiva, comissariada por João Paulo Cotrim, Carlos Pessoa e Júlio Moreira, Perdidos no Oceano – 17 Autores Portugueses no 25º Festival International de la Bande Dessinée D'Angoulême, de 1998.

No meio disto tudo correram sempre notícias, no “diz-que-disse” lisboeta, do género “o Relvas parece que mora num moinho em Almoçageme...”, ou “o tipo agora vive num batelão ancorado num cais e vai à noite para o Bairro Alto, fazer caricaturas, para pagar o jantar...” etc...

Para além das suas múltiplas deambulações na BD, em género (história, humor, ficção científica, triller urbano...) e em grafismo, Relvas realizou também outros trabalhos, como de publicidade, de que pode recordar um anúncio da Lee em 1983, onde aparece uma personagem de BD que criara, ou as ilustrações para manuais escolares da Areal Editores. Em 2001 trabalhou na Livraria Dr. Kartoon, de Coimbra, tendo publicado alguns cartoons do Marreco, um delirante chefe de mesa de pequena estatura, no boletim da livraria, que antes tinham surgido em outras publicações.

Em 2002 conhece a artista plástica croata Nina Govedarica e partem os dois, em Dezembro de 2003, para Málaga, de onde seguem para a Croácia. A partir dessa altura, Relvas aproveitou a internet, criou uma série de blogues para ir mostrando e publicando o seu trabalho, iniciando também a publicação online de alguns livros, vendidos no sistema print-on-demand. Data também dessa aventura na Croácia a passagem do autor para o desenho em ambiente digital, da qual resultou como corolário, o livro Nau Negra, The Last Black Ship, editado em pela Pepdelrey em 2015.

O seu projecto de curta-metragem animada Fado na Noite, foi seleccionado para o apoio à produção, no concurso de curtas-metragens de animação de 2010 do Instituto do Cinema e do Audiovisual. Para se entregar à realização deste projecto, regressa a Portugal em Setembro desse ano.


O Espião Acácio é constituido por 55 episódios de duas páginas, sem grande continuidade entre eles. Iniciando-se com a história do pequeno Acácio de Mello, desde cedo muito dado à bisbilhotice, passando depois, como espião, para cenários da Primeira Guerra Mundial, com o “cabo Adolfo” a disparar um canhão sobre Paris, encontros com o barão Von Richthofen, o coronel inglês Robert Arbuthnot, Lawrence da Arábia, com russos, sérvios, turcos... e até com Darth Vader, derivando a certa altura para ambientes surrealistas, sempre no meio das maiores trapalhadas e acabando por já não ter nada a ver com a Primeira Grande Guerra.

O episódio do Cabo Adolfo, páginas 24 e 25 (contabilidade minha) d’O Espião Acácio, publicado na revista Tintin #30, ano 11:




Para quem estiver interessado pode ler: 
FERNANDO RELVAS – PARA UMA BIOBIBLIOGRAFIA – publicada no BDjornal #27 (Maio de 2011)http://kuentro.blogspot.pt/2014/05/fernando-relvas-para-uma.html
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