terça-feira, 25 de abril de 2017

O MEU 25 DE ABRIL – Tal como o descrevo no livro Últimos no Leste de Angola – Na Retirada do Exército Português em 1975

O MEU 25 DE ABRIL

Tal como o descrevo no livro 
Últimos no Leste de Angola 
Na Retirada do Exército Português em 1975

“(...) Nessa noite de dia 24, por volta das três e tal da manhã, começámos a ouvir um barulho persistente e em crescendo, vindo da rua que contornava o Destacamento. Fomos percebendo que eram sons de motores de carros pesados, ruídos metálicos e algumas vozes, que se tornavam mais identificáveis à medida em que se iam aproximando do nosso quartel. Um dos instruendos da caserna conseguiu trepar até uma das janelas – que se abriam no topo das paredes – e relatou para todos nós o que via: “C’um caraças, pá (não foi bem “caraças” que ele disse), é uma porrada de carros de combate daqueles com canhão à frente e camiões (Berliet) cheios de malta armada pela rua fora. Parece que vão para a estrada de Lisboa...” Pensámos que seria um qualquer exercício nocturno da EPC (Escola Prática de Cavalaria) e aconchegámo-nos de novo nos beliches.

Contudo, minutos depois, o sargento de dia entrou na caserna e berrou: “Está toda a gente a vestir-se à civil e a dirigir-se à secretaria para tratar dos passaportes e ir para casa! Estamos em guerra!”

Ficámos perplexos, associando aquele “estamos em guerra” com a descrição dos carros de combate e homens armados em direcção a Lisboa. Mas vestimo-nos num ápice, passámos pela secretaria para recolher o passaporte (até segunda-feira, dia 29) e, quando chegávamos à Porta de Armas, o cabo miliciano que lá estava dava-nos ordem para “corrermos em ziquezague atá à estação”! Claro que ninguém se preocupou com o “ziguezague” e descemos todos em cavalgada épica até à estação de caminhos de ferro de Santarém.

Achei estranho que no comboio estivesse toda a gente a ouvir marchas militares em rádios transistores que, todos ao mesmo tempo e no mesmo posto, me permitam ouvir o que transmitiam. Mas não consegui perceber muito do que se passava. Mentalmente só congeminava naquela oportunidade inopinada de poder “ir namorar”, mais nada. Cheguei já dia claro aos “cacilheiros” para Almada, no Terreiro do Paço, sem me dar conta sequer da multidão que estava naquela praça – só mais tarde veria na televisão o que se tinha passado, ali a dois passos de mim...

Em Cacilhas apanhei o autocarro, saí na Praça S. João Baptista e dirigi-me para casa, a pé. Ao atravessar uma rua cruzei-me inesperadamente com... o meu pai. Ele vinha de carro pela rua fora e quando eu ia atravessar essa rua, parou o carro. Abriu a janela do lado do passageiro e perguntou-me: “Eh pá! Desertaste?” Respondi: “Não! Mandaram-nos para casa! Porquê? O que é que se passa?”. “Eh pá! Houve um golpe de estado, pá! Não sabes?” Fiquei abismado! E depois de uma troca de banalidades sem importância, fui imediatamente, não para minha casa, mas para casa do Carlos Guerreiro, o tal amigo com quem estava no Grupo Coral da Incrível Almadense e que morava mesmo ao meu lado. Estivemos a ver os acontecimentos na televisão e a ouvir os comunicados do “Movimento das Forças Armadas”, a trocar comentários, até que resolvi ir a casa tomar um duche, seguindo depois para o Monte de Caparica, para casa da Mena.

Passámos o tempo todo a ver as coisas pela TV, já quando as tropas do capitão Salgueiro Maia (que veio de Santarém com as tropas que ouvíramos na caserna) estavam a cercar o quartel da GNR do Carmo, onde se encontrava Marcello Caetano refugiado. Aquilo durou a tarde quase toda, com a minha futura sogra a comer azeitonas atrás umas das outras e a choramingar de vez em quando, “Ai meu Deus! Mas o que é que vão fazer ao homem?” Enquanto o meu futuro sogro passeava pelo corredor, a fumar os “mata-ratos” de enrolar habituais, a rir-se silenciosamente, com o ar mais feliz da vida, como nunca lhe vira antes. Ainda sugeriu que fossemos para Lisboa, participar na “Festa”. Mas eu respondi que não gostava de me misturar em multidões e, sobretudo, porque no meio daquela trapalhada toda, nunca saberia o que se estava a passar. Só na televisão podia ter uma visão dos acontecimentos em todos os lados, uma vez que estavam a transmitir várias informações e imagens filmadas, não só em Lisboa, como do resto no País.

Em suma, acabei por não namorar quase nada, e nesses dias de “licença” estive absolutamente concentrado no Golpe de Estado que deitou abaixo aquele Regime com quase cinquenta anos de poder absoluto. A sessão de reportagens televisivas, com os “comunicados do MFA” pelo meio das imagens em directo, sobretudo do Largo do Carmo apinhado de gente, durou até por volta das oito da noite quando Marcello Caetano e outros membros do Regime apeados do poder foram transportados numa “Chaimite” para o posto de Comando do MFA na Pontinha. Comemos então umas coisas improvisadas e voltámos para a frente da pantalha televisiva, esperando que a anunciada Junta de Salvação Nacional se apresentasse a público, o que só aconteceu quase às duas da manhã. Ficámos naquilo quase toda a noite, com a minha futura sogra sempre a lamentar o destino do Marcello e... a comer desalmadamente azeitonas, desta vez acompanhadas com rodelas de chouriço. Acabei por dormir algumas horas no sofá da sala – sozinho, claro (...)”




Na recruta, no Destacamento da Escola Prática de Cavalaria, Santarém...

Capa e contracapa do livro, a sair no final de Maio

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