terça-feira, 19 de março de 2013

BDpress #356: BUILDING STORIES, DE CHRIS WARE - ESTE LIVRO NÃO TEM UM MAPA?



BUILDING STORIES

CHRIS WARE


Um livro que não é um livro mas uma caixa gigante com histórias espalhadas por 14 suportes diferentes: Building Stories, de Chris Ware, põe em causa todas as regras da narrativa e devolve-nos ao maravilhamento das primeiras leituras. A propósito, fomos folheá-lo num colégio.

"Isto não tem um mapa?

Público, suplemento Ípsilon, 15 Março, 2013 

António Rodrigues

"Nunca gostei do formato tradicional dos livros de comics e desde muito cedo tentei fazer alguma coisa que fosse diferente (...), como Art Spiegelman e a revista RAW, de Françoise Mouly, [que] alargaram as possibilidades [da BD no passado]" Chris Ware 

Building Stories 
O último livro de Chris Ware foi editado em Outubro do ano passado — pela Pantheon, nos Estados Unidos, e pela Random House, no Reino Unido. Tendo em conta o diminuto mercado português e os altos custos de produção desta caixa-livro, é improvável que venha a conhecer edição portuguesa.

Informação do Kuentro: à venda na www.amazon.co.uk, por 19,20 Libras (cerca de € 22,50)



Quando se entra na vida de alguém não se começa por saber cronologicamente toda a sua existência. Vai-se sabendo aos poucos, des­cobrindo aqui e ali, juntan­do peças de um puzzle, alumiando esta e aquela sombra. Com Building Stories passa-se a mesma coisa. So­mos atraídos para dentro da caixa-livro, para dentro desse prédio em Chicago. Atarantados, sem conhecer ninguém, sem entender nada. E, depois, devagarinho, lá vamos per­cebendo, atando pontas, montando o Lego. Como dizia uma das alunas do St. Julian's, o colégio em Carca­velos onde fomos abrir a pesada caixa de Chris Ware: "Engraçado, é tudo a mesma história, tudo se in­terliga. É um pouco como a nossa vida."

Building Stories é desconcertante. Questiona a ideia do livro como o conhecemos. Sabota a relação habi­tual com o leitor. Deixa de ser ape­nas uma entrega de letras pretas sobre papel branco ou, neste caso, de ilustrações coloridas sobre folhas de boa gramagem destinadas à frui­ção individual de quem lê, para pu­lar a cerca e activamente questionar a relação, as expectativas, as regras habituais da narrativa.


"É um jogo mais do que um livro", afirma uma das professoras. "Não se pode ler no comboio, não se po­de ler no café, não se pode ler na sala, com o cão e os filhos", acres­centa outra. E têm toda a razão. Os 14 distintos livros, panfletos, jornais, revistas e a caixa que os guarda não só formam um conjunto pesado co­mo exigem ser libertados e espalha­dos. Na caixa há sugestões para "co­locar, esquecer ou perder comple­tamente algum do seu conteúdo entre as quatro paredes de uma ca­sa normal bem situada".

Em entrevista à revista New Sta­tesman, o autor confessa o seu gosto pelas experiências: "Nunca gostei do formato tradicional dos livros de comics e desde muito cedo tentei fazer alguma coisa que fosse dife­rente e mais adequada ao material que apresento", abrindo novos ca­minhos para a banda desenhada e as novelas gráficas do futuro "como Art Spiegelman e a revista RAW, de Françoise Mouly, alargaram as pos­sibilidades" no passado.

Uma das alunas do St. Julian's quase cita Chris Ware sem saber: "Isto não deve ser para ler tudo de seguida, deve ser para perder um pouco pela casa." Ao que outra diz "é para espalhar numa mesa", acrescentando a primeira: "ou na casa de banho". E quando se apres­ta para explicar melhor a professo­ra interrompe-a: "Demasiada infor­mação!"




Imaginar o real

Building Stories dá asas à imagina­ção. Faz tudo para justificar a cita­ção de Pablo Picasso usada como epígrafe: "Tudo o que podemos ima­ginar é real." Tem histórias dentro: a da jovem sem uma perna que mo­ra no terceiro andar (é a partir do ponto de vista dela que tudo se conta), a de um casal trintão com peso a mais e amor a menos, a da idosa senhoria solitária e a do pequeno prédio de apartamentos onde todos vivem, edifício que Ware chega a antropomorfizar ao enchê-lo de pensamentos sobre moradores ac­tuais e passados.

Mas se dá asas à imaginação, é parco quanto a indicações de leitu­ra. O autor deixa ao leitor a constru­ção da narrativa com os meios à sua disposição. Embora a tendência se­ja a de partir dos suportes mais pe­quenos para os maiores - é difícil libertar o nosso cérebro de amarras apriorísticas -, não há uma escolha certa: todos os caminhos levam à Roma de Building Stories e nenhum pode ser descrito como a distância mais pequena entre dois pontos.

Daí que "isto tem um mapa?" seja a primeira pergunta de uma outra aluna assim que a caixa se abre à volta de uma mesa da biblioteca do St. Julian's, onde sentados ou em pé os alunos vão distribuindo entre si os diferentes artigos da caixa-livro. "O que eu não percebo é a ordem, não percebo nada disto. Isto é mui­to estranho", confessa um deles, manifestamente desorientado.

Duas das professoras presentes queimam pontes com o estranho objecto antes mesmo de qualquer construção. O livro não as seduz, são leitoras de livros-livros e não nasce­ram com a era digital. "Isto é como o cubo de Rubik, é preciso juntar as cores. Mas dá muito trabalho e não vejo que compense assim tanto", justifica-se uma delas.

Há alunos que fazem o mesmo, embora experimentem primeiro. Torcem o nariz à confusão, à exigên­cia, vão conversando baixinho. Ou­tros dedicam-se a lançar piadas - nem seria uma turma de adolescen­tes sem alguém a tentar introduzir o humor na experiência em grupo. É esse que afirma: "Vou comprar só para poder discutir isto com a minha mãe”, sem disfarçar a ironia de quem nunca sequer ponderou concretizar a declaração.

"Não creio que tenhamos na nos­sa cabeça um 'livro da vida' que fo­lheemos para encontrar os capítulos e as passagens; a nossa memória é mais como uma gema ou como uma flor ou como algo tridimensional que podemos mudar, virar do aves­so, entrar ou sair", explica Ware em declarações ao The Comics Journal.


Atrás dos cortinados

Building Stories não se limita a ex­perimentar no formato, também é dado a experiências no desenho. A narrativa tende a ir para lá da habi­tual esquerda-direita das tiras a que a BD nos habituou: sobe e desce es­cadas, joga com as janelas do pré­dio, vagueia com pensamentos, par­te do centro para a periferia ou vice-versa, transforma-se em letras desenhadas. Os balões de diálogo são substituídos por balões de figu­ras azuladas, os desenhos diminuem de tamanho até fazer doer a vista. Aliás, se há nele uma lógica é a da arquitectura, imposta por esse pré­dio do final do século XIX, princípio do século XX, que é o centro do mun­do deste livro.

Escreve Ware: "Quem nunca ten­tou, ao passar à noite por um prédio ou por uma moradia, espreitar pelos cortinados ou persianas meio-fechados, à espera de apanhar um fogacho da vida privada dos seus moradores. Qualquer coisa... o mais breve vis­lumbre de movimento... talvez uma cabeça assomando-se... um pouco de cabelo... uma sombra misteriosa... o lampejo de um corpo... de qual­quer forma parece mais revelador do que um cumprimento generoso ou uma cordialidade calculada... Mesmo o mexer ténue de um simples cortinado pode sugerir o mais colo­rido bouquet de segredos."

Duplo maravilhamento, o da cai­xa que se abre frente aos nossos olhos para nos mostrar o bouquet de segredos, como quem espreita para lá desse cortinado e observa a vida que se desenrola para lá da sua experiência; e o do livro que nos devolve, mercê da surpresa e do jogo, às primeiras leituras de infância, ao momento em que descobrimos que juntando as letras em carreiras de palavras podíamos viajar inter­minavelmente.

E no St. Julian's, depois das muitas perguntas soltas de quem ainda vai pelos livros de mão dada - e quando o instinto de perguntar primeiro se acalmou para dar lugar à descober­ta -, houve rostos de genuíno enle­vo, mostrando o puro prazer da leitura, chegando ao ponto de se citar Hitchcock: "Parece que são histórias verdadeiras, é como esprei­tar pela janela do vizinho. Eu gosto de ver as pessoas desde a minha ca­sa, como no filme do Hitchcock, o Janela Indiscreta."

Serão estas histórias verdadeiras? Serão estas pessoas verdadeiras? Será este edifício verdadeiro? Viveu o autor neste edifício? Foram as mais incessantes perguntas que ou­vimos. Sinal de um tempo em que o rótulo do "verdadeiro" parece em­prestar a qualquer narrativa um cunho mais autêntico, tão longe da referida citação de Picasso que se lê na caixa.

Todavia, a bem da informação, vale a pena responder que o próprio Ware, na referida entrevista à New Statesman, confessa: "A personagem principal é parecida com a minha mulher e é verdade que temos uma filha". Acrescenta ainda sobre o pré­dio que é uma mistura de dois edi­fícios distintos onde viveu em Chi­cago antes de se mudar para Oak Park, o subúrbio da principal cidade do estado do Illinois (e terceira mais populosa dos Estados Unidos) para onde a sua protagonista igualmente se muda.

As personagens são, no entanto, fictícias, embora os seus traços pos­sam encontrar-se em cada canto das grandes metrópoles, onde a solidão se agudiza com a presença de tanta gente e a tendência para a depressão é maior e mais táctil, e de onde a felicidade parece ter-se ausentado para parte incerta, escondendo-se no sótão das memórias ou vaguean­do inalcançável à mercê de um qual­quer acaso cósmico fora de contro­lo e da serenidade, como na co­média romântica com John Cusack e Kate Beckinsale (Serendipity).

"Sempre que conhecemos alguém ou sabemos alguma coisa sobre al­guém, estamos a criar ficção. Escre­vemos ficção sobre pessoas que co­nhecemos, que pensamos conhecer bem, porque criamos histórias so­bre elas na nossa cabeça e, qualquer que seja a história, o mais provável é que não seja verdade", refere o autor em entrevista à Publishers Weekly. "Não estou a tentar dizer que tudo o que ouvimos é imaginário, mas estou a tentar apreender um sentido dessa verdade e um sentido desse mecanismo" de contar histó­rias, continua.

Ware garante que, acima de tudo, pretende que o leitor "se divirta" com Building Stories. No entanto, a estranha forma que adoptou para o seu livro é, a julgar pela pequena amostra do St. Julian's, um pau de dois bicos: aquilo que atrai uns é o mesmo que afasta outros. Mas, co­mo diz uma das alunas, numa asso­ciação nitidamente sofisticada para uma adolescente de 15/16 anos, o livro "faz sentido, tipo Clarice Lispector". E, como dizia a escritora brasileira, "escrever é procurar en­tender, é procurar reproduzir o irreproduzível", seja em palavras ne­gras sobre papel branco, seja em 14 fragmentos ilustrados da mesma história.




Chris Ware

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