quarta-feira, 13 de março de 2013

BDpress #356: O NOVO FILME DE MARJANE SATRAPI NÃO FOI BEM RECEBIDO PELA CRÍTICA



"NÃO ME INTERESSA ATERRAR
SÓ QUERO VOAR" 

La Bande des Jotas, o novo filme de Marjane Satrapi, não teve uma recepção calorosa. "O dia 
em que começar a interrogar-me sobre o que dirão os críticos será o dia da minha morte", responde. 

Público, suplemento Ípsilon, 8 Março 2013 

Margarida Santos Lopes, em Paris 

Se as pinturas da iraniana que, em miúda, aspirava ser profeta imaginando diálogos entre Deus e Marx foram um êxito de vendas, a sua mais recente produção cinematográfica, La Bande des Jotas, mereceu críticas duras. Como esta, de Alain Spira, na revista Paris Match: "Marjane Satrapi deslumbrou-nos, em 2007, com Persépolis e depois, em 2011, deu provas da sua imaginação em Galinha com Ameixas, mas hoje o prato que nos serve é um puré de nabos mal descascados, flutuando num cenário despropositado, com diálogos aflitivos, tudo se resumindo a uma massa narcisista indigesta." Igualmente implacável foi Cyrille Falisse, no site Le Passeur Critique: "O filme só aparece nas salas de cinema porque beneficia da popularidade de Satrapi e não pela sua qualidade intrínseca. É um banal filme de final de ano, sem qualquer objectivo". Em The Playlist, Jéssica Kiang opina: "O filme confirma o talento excêntrico e eclético de Satrapi, e a sua visão perversa do absurdo, mas não aguenta a aterragem."

Com Satrapi no papel principal, La Bande de Jotas foi filmado no Sul de Espanha. O argumento gira em redor de malas trocadas no aeroporto entre dois amadores que vão concorrer a um torneio de badminton e uma "mulher misteriosa", ameaçada e em perseguição de cinco mafiosos, com nomes começados por "J".

No que toca ao que os outros pensam ou digam, "Marji" segue o conselho da avó: "Se te rires, as pessoas dirão que és atrevida; se ficares calada, dirão que és empertigada; por isso faz apenas o que te apetecer para seres feliz". Foi isso que ela nos disse: "Nunca leio as críticas, e o dia em que começar a interrogar-me sobre o que dirão os críticos antes de fazer algo será o dia da minha morte. Mas, cá para nós, também houve críticas positivas."


Por exemplo de Bamchade Pourvali, escritor e crítico iraniano, autor de Chris Marker (2003), Godard neuf zéro (2006) e Wong Kar-wai (2007). Disse ao ípsilon: "La Bande des Jotas nunca foi imaginado como um filme. [Satrapi] só pretendeu continuar a trabalhar e a divertir-se. Ninguém sabia da existência deste filme antes de vermos o trailer, em Setembro. Foi uma surpresa enorme. A ideia terá surgido espontaneamente quando estava com amigos. Foi ela a responsável pela maquilhagem e pelo guarda-roupa, além de ser a protagonista. A edição ficou a cargo de Stéphane Ripa, que desempenha o papel de Didier. E Matthias Ripa, que representa Nils, é o marido dela. Todos contribuíram para a produção. Por fim, Ali Mafakheri, o único iraniano (além de Satrapi), faz todos os papéis da família dos Jotas."

"Os que não gostam de La Bandes des Jotas estarão convencidos de que as pinturas de Marjane têm maior seriedade", adianta Pourvali. "Eu gosto que ela ainda seja capaz de troçar de si própria, e de não se concentrar apenas em coisas de prestígio. Não considero que este filme seja insignificante. Satrapi encontrou forma de manter o vínculo entre a BD e o cinema, evocando, de certo modo, os pequenos filmes que [Jean-Luc] Godard fez nos anos 1960, como Made in USA, a par das suas grandes obras." E continua: "La Bande des Jotas é muito diferente de Galinha com Ameixas porque, pela primeira vez, Marjane Satrapi não fala do Irão -e creio que ela precisava desse ar fresco. Inventiva e surpreendente, ela é parecida com a personagem que incorpora neste último filme. Mesmo que diga disparates continua a ter graça. É generosa e curiosa. Por vezes, também misteriosa. Bem, é uma artista."


O tapete e o rocket

A relutância em falar do Irão, onde se arrisca a ser presa se regressar, ficou evidente na ausência de resposta à nossa questão sobre como avalia a situação actual, em vésperas das eleições presidenciais de Junho. Em 2009, quando Mahmoud Ahmadinejad ganhou um segundo mandato, provocando uma "revolução verde", Marjane Satrapi e o colega cineasta Mohsen Makhmalbalf assuminram-se como porta-vozes da oposição. Ultimamente, porém, o seu silêncio é mais audível do que as suas palavras.

Talvez a vontade de autopreservação se justifique pelo amor que a filha de um engenheiro e uma estilista, nascida em Rasht, junto ao Mar Cáspio, continua a ter à pátria: "Se fosse um homem, o Irão seria a minha mãe e a França a minha mulher. Morrerei pela minha mãe, por muito louca que seja; ela sou eu, e eu sou ela. A minha mulher, posso enganá-la com outra mulher, posso deixá-la, também posso amá-la - posso fazer tudo, mas não é a minha mãe. Serei sempre iraniana. O meu afecto nunca será ocidental. Nunca pertencerei a um Ocidente que não distingue entre um tapete voador e um rocket voador. Eu fui made in Iran, entendem?"

Sobre os críticos de La Bande des Jotas, "Marji" conclui, em sua defesa: "Acho que Jéssica Kiang está certa: sou eclética e adoro o absurdo. Quanto a uma boa aterragem, não se pode fazer um filme em dez dias sem argumento e sem actores. Neste projecto, aterrar não era, para mim, o mais importante. O importante era voar."

O trailer do filme pode ser visto clicando em cima desta imagem.

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