domingo, 31 de março de 2013

GAZETA DA BANDA DESENHADA (1) - NA GAZETA DAS CALDAS - À VOLTA DA PICARESCA VIAGEM DE RAPHAEL BORDALLO PINHEIRO


GAZETA DA BANDA DESENHADA (1)
NA GAZETA DAS CALDAS

Gazeta das Caldas, 29 de Março de 2013

Iniciamos esta nova rubrica da "Gazeta das Caldas" com um tema que nos remete para os primórdios da BD portuguesa e a Raphael Bordallo Pinheiro.

O texto que se reproduz abaixo é da autoria conjunta do Dr. António Dias de Deus e do Arq. Leonardo De Sá, publicado originalmente por ocasião da exposição que comissariaram, "Raphael Bordallo Pinheiro: Aos Quadradinhos", comemorando os 150 anos do nascimento do autor, apresentada entre Dezembro de 1996 e Março de 1997 na Bedeteca de Lisboa, tendo vindo parte dela a ser também mostrada no Museu de José Malhoa, em Caldas da Rainha, em Abril e Maio de 1997.

A razão da escolha deste texto deve-se ao facto de nele se explicarem as razões que levaram a considerar Apontamentos Sobre a Picaresca Viagem do Imperador de Rasilb pela Europa como sendo a primeira banda desenhada portuguesa. Foi publicado na reedição fac-similada das três edições do álbum de 1872.

A republicação deste texto deve-se também ao facto de ter sido Raphael Bordallo Pinheiro, não só um prolifero autor gráfico, mas igualmente um criador originalíssimo na área da cerâmica, adoptando Caldas da Rainha como sua “base operativa” a partir de determinada altura da sua não muito longa vida – tendo-se tornado a sua memória numa presença constante e relevante na vida desta cidade.

No entanto, a produção de Bordallo Pinheiro na banda desenhada – ou histórias aos quadradinhos, como se designava este meio da cultura popular em Portugal, antes da adopção daquela expressão, de origem francesa – não ficaria por aqui. Um outro texto dos mesmos autores, Uma Obra Esquartejada, incluído no catálogo dessa mesma exposição, será sequência lógica nesta rubrica – a apresentar aqui oportunamente – onde os leitores poderão perceber como foi também profícuo nesta área o trabalho de Bordallo.

Jorge Machado-Dias - Director do BDjornal
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À Volta d'A Picaresca Viagem 
de Raphael Bordallo Pinheiro 

António Dias de Deus e Leonardo De Sá 

Quando considerámos Apontamentos Sobre a Picaresca Viagem do Imperador de Rasilb Pela Europa, de Raphael Bordallo Pinheiro, como a primeira história aos quadradinhos portuguesa, vários factores nos levaram a tomar tal decisão.

É certo que a sequência narrativa já tinha entrado em Portugal, com as “Aventuras Sentimentais e Dramáticas do Senhor Simplício Baptista” publicadas em páginas mais ou menos contínuas da “Revista Popular”, em 1850. Porém, temos hoje a certeza que eram apenas cópias (e más cópias) de originais franceses, estando os desenhos assinados por Flora — exclusivamente gravador da versão simplificada e amputada. Em relação a Nogueira da Silva, que publicou quatro ou cinco exemplos de ilustrações sequenciais em 1856 n’”O Asmodeu” e em 1857 no “Jornal Para Rir”, o texto sobrecarregava sempre a imagem, que raramente era explícita. Manuel de Macedo tem alguns exemplos de histórias desenhadas no jornal “As Notícias” de 1866. Porém, as melhores foram pilhadas a autores estrangeiros. A única incidência nacional que lhe descobrimos não é mais do que um cartoon desdobrado em duas vinhetas.

Falta-nos falar do próprio Raphael. Admitindo que no nº 3 de “O Binóculo” (1870) haja repetição de figurantes teatrais, acontece que a relação entre os quadros não é suficientemente nítida para contar de maneira inteiramente compreensível uma história. Nas duas primeiras e na última prancha das sete folhas de “A Berlinda”, de 1870-71, admitimos que se possa encontrar alguma sequência narrativa. Todavia falta-lhe o herói, a trama consequente e até o princípio, meio e fim do acontecimento. Ainda por cima, o trabalho está meticulosamente executado, o que dificulta a articulação entre as vinhetas. Quando o crítico José-Augusto França valorizou a 7ª folha de “A Berlinda” e desvalorizou o esquematismo gráfico d'A Picaresca Viagem nós chegámos à conclusão exactamente oposta, porque uma história aos quadradinhos implica mais continuidade do que minúcia no traço.

Deste modo, decidimos a aceitar A Picaresca Viagem como o exemplo real da primeira BD portuguesa, até porque a intenção era visivelmente de contar uma história inteira, o que determinou a edição num álbum de 16 páginas. Esta história é um todo homogéneo. Raphael Bordallo Pinheiro tinha achado a forma, a fórmula e o feitio.

A importância desta história como génese da banda desenhada portuguesa é bem explícita na explosão criativa posterior — quer em Raphael, quer nos seus seguidores e imitadores.
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Por duas vezes D. Pedro II, último Imperador do Brasil, visitou a Europa. Da primeira vez, em 1871 (registada n'A Picaresca Viagem, pois Rasilb é evidentemente um anagrama), deslocou-se a Vale de Lobos para cumprimentar o “azeiteiro” Alexandre Herculano. Prosseguiria depois pelo resto do continente, ao encontro dos Imperadores que ainda havia e das sociedades científicas (era um fraquinho que tinha...). Quando veio outra vez à Europa, Alexandre Herculano, comovido pela visita anterior, deslocou-se expressamente a Lisboa. A estadia do historiador na capital saiu-lhe mal: arranjou uma pneumonia que o levou desta para melhor...

No álbum, Portugal dá pelo nome de Vale de Andorra Júnior (“país onde a democracia e as laranjas são originárias da China”) e o Imperador-democrata quase sempre anda com chinelos, xaile e joalheiras rotas — apesar de ser rico na vida real. Os que ficam mais ridicularizados são as academias filarmónicas, ministérios, etc.; farto deste país, safa-se para meio dos alemães, onde despreza a França, e depois vai conviver com os franceses, onde menospreza a Alemanha (a guerra entre as duas potências acabara há pouco). Aprende a dançar o “French cancan”. Salta para Inglaterra, onde vai à ópera do Covent Garden, mas não tem trajos de pompa e circunstância, pelo que é posto na rua a pontapés. Visita de bicicleta rapidamente a Itália, a Grécia, o Egipto, a Palestina, a Ásia Maior, a Menor e as outras.

De volta ao Vale de Andorra Júnior, após uma passagem pela cavalheira Espanha, a sabujice dos habitantes faz substituir por um papagaio — símbolo da sapiência imperial — a estátua de D. José, e a de Gil Vicente no Teatro Nacional D. Maria II é trocada pela figura do próprio Imperador de Rasilb, vestida folcloricamente de cacique índio (com todos os preparativos contados dentro dum grande parêntesis). A recepção pública foi imponente: as iluminações festivas eram deslumbrantes — representadas como uma grande mancha preta com umas pintinhas de branco! E continuaram do mesmo jeito por várias noitadas...

O Imperador vai ainda a Tróia de Vale de Andorra Júnior (Porto, a rival da cidade fundada por Ulisses), onde consome uma grande quantidade de tripas à moda da terra. De novo na capital, lava-se no chafariz de Fora, come iscas, peixe frito (na zona das Hortas), e recebe as últimas láureas. Regressado às suas terras, escreve e ilustra o seu diário. E ao mundo de relembrar e admirar os maiores homens da história: as térmitas prussianas, o Imperador da Alemanha e o chanceler Bismarck metamorfoseado em caracol e, enfim, o próprio soberano de Rasilb...
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Em suma, esta narrativa lê-se em continuidade, porque Raphael — então apenas com 26 anos — ainda só estava a afiar o gume da sua veia satírica, e não há cartoons destacados no meio desta autêntica história aos quadradinhos. O álbum teve uma “segunda edicção” quase inteiramente redesenhada — exceptuando as páginas 14 e 15, idênticas à 1ª edição — e com a composição ligeiramente alterada. Raphael teria talvez pretendido melhorar a versão inicial, visto o seu evidente sucesso; ou, de forma mais simples, as chapas litográficas originais estariam possivelmente inutilizáveis. Houve ainda uma “terceira edicção” definitiva, apenas com algumas correcções no texto tipográfico (mantendo a menção “2ª edicção” no cabeçalho da página 2). Todas as versões datam do mesmo ano de 1872.

De notar que D. Pedro II nunca se ofendeu com Raphael Bordallo Pinheiro, decorrendo parte da carreira deste no Brasil, a partir de 1875. Tudo acabou em bem, porque todos eram boas pessoas.



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No próximo texto da Gazeta da BD, abordaremos a Tertúlia da Banda Desenhada de Lisboa, organizada por Geraldes Lino e que vai fazer 28 anos em Junho próximo. A TBDL regista 344 Encontros desde Junho de 1985 a Fevereiro de 2013, sempre com um Encontro mensal – na primeira terça-feira de cada mês –, contando invariavelmente com cerca de 35 a 40 participantes.

É a história deste Encontro mensal dos bedéfilos portugueses – autores, pesquisadores, historiadores da BD, jornalistas, editores, ou simplesmente leitores deste meio da cultura popular – que iremos debitar aqui.

Alguns dos participantes que vão à Tertúlia actualmente, ainda não eram nascidos quando ela se iniciou, o que mostra a grande capacidade de renovação de gerações que a Banda Desenhada proporciona.

Geraldes Lino edita regularmente um fanzine para estes Encontros, o “Tertúlia BDzine” – que vai no nº 175, em 5 de Fevereiro de 2013 – oferecido a todos os tertulianos. Aqui fica a imagem da capa do “TBDzine” nº 93, de Junho de 2005, no 20º aniversário da TBDL, com uma BD de Andreia Rechena.


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