terça-feira, 12 de março de 2013

BDpress # 353 - MARJANE SATRAPI EXPÕE PINTURA EM PARIS




MARIANE SATRAPI
EM BUSCA DO TEMPO PERDIDO 

Público, suplemento Ípsilon, 8 Março 2013 

Pela primeira vez desde que começou a pintar, aos seis anos, a autora de Persépolis exibe os seus quadros. A exposição em Paris coincidiu com a estreia nos cinemas de La Bande des Jotas, o seu novo filme. Em entrevista ao ípsilon, a iraniana que desenha mulheres com cores de Matisse defende-se de críticas inclementes. 

Margarida Santos Lopes, em Paris 

A Galeria Jérôme de Noirmont situa-se na Avenida Matignon, no 8º bairro de Paris, área onde reside uma par­te da alta burguesia france­sa. Só poderia ser este o lugar da primeira exposição pública (até dia 23) das pinturas de Marjane Satrapi, bisneta do imperador persa Nasser al-Din Shah (que reinou de 1848 a 1896 e teve 100 mulheres - dando "sangue azul" a muitos iranianos) e neta de um príncipe da dinastia Qajar.



Ainda que Iggy Pop se mantenha o seu ídolo, longe vão os tempos em que, na Áustria, a adolescente Satrapi era uma anarquista punk tão inadaptada que tentou suicidar-se no regresso ao Irão, onde ainda vivem os pais, marxistas-leninistas que conduziam um Cadillac e marcha­vam contra o xá Pahlavi, ansiando pela revolução islâmica até sentirem na pele a repressão dos mullahs. Após um divórcio e o exílio em França, onde vive desde os 24 anos, a au­tora do multipremiado Persépolis assume-se agora, aos 43, "uma lady" insubmissa. Casou-se com um sueco, sobre quem não diz mais do que a nacionalidade. Recusa ter filhos e quer morrer com o "corpo apodre­cido" pelos cigarros Winston que fuma, um após outro, para que "os vermes de uma sociedade doente e obstinada em obrigar as pessoas a ser saudáveis" não devorem a sua "carne fresca". Como costuma ironi­zar: "Podiam chamar-me 'nazi', no­me dado a muitas raparigas no Irão, mas o significado da palavra, em farsi, é 'graça'."

Satrapi não está em Paris - irá escrever-nos de Berlim, onde está a rodar o que designou, sem mais detalhes, por "um filme americano" - quando entramos na galeria que já vendeu 17 dos seus 21 quadros, dez dos quais no dia da inauguração. A visita a Marjane Satrapi - Peintures é guiada pela amiga e curadora Emmanuelle de Noirmont, que a con­venceu a desvelar as obras que, até 30 de Janeiro, Satrapi resguardava no seu atelier, na Place des Vosges, onde desenhou Persépolis, e um pos­ter com a inscrição "Fuck You" aco­lhia os convidados.


O preto-e-branco, marca registada da iraniana (com excepção dos seus livros para crianças, como Ajdar ou Le Soupir), foi substituído por uma paleta de tintas variadas. A simpli­cidade do traço que caracteriza cada uma das suas tiras de banda de­senhada não deixa, porém, dúvidas de que este é o universo de "Marji".

Enquanto Emmanuelle de Noirmont, porte altivo, descodifica as fontes de inspiração da artista ("o encantamento com as cenas de in­terior e a composição elaborada das obras de Balthus; a admiração pelas construções geométricas de Mondrian, e as cores sensuais de Matisse"), nós revisitamos Broderies ("Bordados"). Neste livro de BD, nove mulheres bebem chá, numa tarde dedicada a "ventilar o coração", ou seja, a "falar nas costas dos outros" - sobre sexo, "naturalmente". Uma das figuras mais marcantes - do en­redo e da vida de Marjane Satrapi - é a trisavô, pintora, poeta, mulher "escandalosa".

No catálogo da exposição, Satrapi entrelaça o afecto: "Há 80 anos, no Irão, ela casou-se com um general do exército, meio século mais velho. Na noite do casamento, antes do acto sexual, fingiu ter uma súbita vontade de ir à casa de banho (no exterior), saltou o muro e fugiu pa­ra casa de uma tia (...). A minha tri­savô não voltou a casar-se e dizia que era 100 vezes mais interessante ser amante de um homem casado do que engomar as camisas de um marido. Foi estudar pintura para a Suíça [onde se tornou amante de um ministro]. Eu era filha única e gos­tava mais de estar com adultos do que com crianças. Por isso, passava todos os fins-de-semana com ela. Não só ela me deixava 'pintar' em todas as superfícies possíveis, in­cluindo paredes, como contava his­tórias - sobre amor e amores, pai­xão e vingança, Europa e Irão. Eu desenhava e sonhava durante o dia. Esses encontros, aos fins-de-sema­na, são a base de várias histórias que tenho vindo a contar."



Três meses depois de um cancro lhe ter batido à porta, a trisavó man­dou chamar Marjane ao hospital. "Eu tinha seis anos", relembra. "Ela olhou-me e disse-me: 'Pela forma da tua testa, serás pintora, escritora ou as duas coisas.' Tínhamos testas iguais. Poucos dias depois ela mor­reu. Desde então, tenho vivido com ela no meu espírito (...) e, tal como numa tragédia grega, o meu destino ficou selado: estava condenada a pintar, a escrever ou a fazer ambas as coisas." Explica: "Escrevo muito. Fazer banda desenhada é escrever, embora os desenhos não ilustrem as palavras, apenas sejam comple­mentares", realça Satrapi, cujo bi­savô materno, Nasser al-Din Shah, também era pintor e poeta. "Escre­vo igualmente para cinema. Gosto de contar histórias aos actores, dos disparos da câmara, da música, do ritmo, do filme. E pinto. Nunca an­tes tinha exposto. Talvez não me sentisse preparada. Além disso, nas­ci numa altura em que começaram a dizer que a pintura estava morta. Eu não queria fazer arte morta."

Para desgosto das feministas, Mar­jane Satrapi sublinha que não par­tilha a causa - "longe disso!". "Re­parem no que Margaret Thatcher fez ao Reino Unido", exemplifica como símbolo de "mal feminino". Pinta mulheres "como um poeta embriagado, pelas mesmas razões que Modigliani e Gauguin": "Pinto a minha trisavô, eu própria, a minha avó, as suas primas e outras das quais tenho memórias vagas. São as pessoas que me fizeram. São a mi­nha busca por um tempo perdido. Excepto nos retratos familiares [ex­postos em Paris], as mulheres nun­ca olham na nossa direcção. Estão atentas ao que se passa no exterior da tela: o fora-de-campo."


Exuberância e introspecção

Nas personagens da galeria da Ave­nida Matignon, nuas de risos e lágri­mas, de gestos grandiosos ou grotescos, olhamos para o vermelho intenso dos lábios e o negro dos ca­belos espessos, para a indumentária e as poses, e é como se reconhecês­semos as protagonistas de Broderies - incluindo Satrapi. "É natural que o ambiente familiar e a infância de Marjane influenciassem o seu tra­balho, ainda que estas faces, de grande expressividade, sejam anó­nimas", explica Emmanuelle. "As bocas estão fechadas, pintadas de forma a reflectir a subtileza das emo­ções. Em contraste, os corpos e o ambiente que os rodeia têm cores vivas para colocar as personagens numa melhor perspectiva."


Os quadros de Satrapi serpen­teiam de um primeiro andar até ao rés-do-chão do amplo espaço que desde 6 de Outubro de 1994 promo­ve arte contemporânea, francesa (como a de Pierre et Gilles, Fabrice Hyber e Valérie Belin) e estrangeira (como a dos iranianos Shirin Neshat e Shoja Azari, do alemão A.R. Penck, ou do norte-americano Jeff Koons). De Marjane Satrapi, ali estão agora 12 retratos de uma só mulher, "em reflexão profunda, sempre a mirar o exterior; o pensamento a vaguear ou uma atitude de determinação", destaca a galerista. Há outros seis, cada um com duas mulheres, onde "o campo externo desaparece e a tensão sobe, porque há uma que detém o monopólio sobre a outra"; e mais três onde estão quatro mu­lheres "posando como uma família, porque em conjunto fazemos con­cessões e deixamos de ser exacta­mente o que somos". Os preços os­cilam entre os 15 mil e os 25 mil eu­ros.

Para Emmanuelle de Noirmont, Marjane Satrapi - Peintures "reúne os paradoxos da personalidade" da sua amiga: "Um carácter simultane­amente exuberante, altamente in­fluenciado pelo exterior e surpre­endentemente introspectivo; a ra­zão e a lógica interligam-se aqui com sentimentos e emoções resul­tantes de experiências pessoais que misturam valores orientais da sua cultura iraniana e valores ocidentais da sua vivência em França."

Criada numa casa sem brinquedos mas com muitos livros, Satrapi co­nheceu uma única BD na infância, Tintin, que não apreciava "porque não tinha mulheres". Foi em Estras­burgo (França), numa academia de artes decorativas, que a sua "voca­ção" foi desperta por Christophe Blain (autor da série Isaac O Pirata), Emmanuel Guibert (A Filha do Pro­fessor), Joann Sfar e David B. (Urani - A Cidade dos Maus Sonhos). A sua identidade como artista seria, assu­midamente, moldada em 1995, quando recebeu, de presente de aniversário, Maus, a banda desenha­da com que o cartoonista norte-americano Art Spiegelman ganhou um Prémio Pulitzer em 1992 ("espe­cial", porque o júri não conseguia distinguir entre ficção e biografia), sobre a relação entre o autor e o seu pai, um judeu polaco sobrevivente do Holocausto. Em 1999, quanto ti­nha 29 anos, Satrapi começou a de­senhar Persépolis. Em 2000, foi publicado o primeiro volume do livro, que se tornaria filme em 2007. Hoje, a BD está traduzida em mais de 25 línguas, incluindo o português (Contraponto).


"Marjane não é apenas uma cele­bridade", conclui a curadora Em­manuelle Noirmont. "Ela tornou-se num ícone pop, forte e poético, a sua mensagem é universal porque toca todas as sensibilidades."

A partir da Alemanha, na curta entrevista que nos deu por e-mail ("O meu tempo não é precioso - eu não tenho tempo!"), Marjane Satra­pi diz: "Pinto desde sempre e agora senti que estava preparada para ex­por pela primeira vez - acredito que não será a única. É extremamente difícil falar sobre os meus quadros. Não há muita coisa a dizer. Quero que quem vê o meu trabalho imagi­ne a história que mais lhe apetece ler. Não interessa qual a história que eu contei a mim própria enquanto pintava." No catálogo de Peintures, ela cita Diderot, filósofo, escritor e crítico do Iluminismo francês: "Quando escrevemos, temos de es­crever tudo? Quando pintamos, te­mos de pintar tudo? Por favor, dei­xemos algo para a imaginação."


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Amanhã: sobre LA BANDE DES JOTAS, o novo filme de Satrapi

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