sexta-feira, 15 de janeiro de 2010

RECORTES DE IMPRENSA #104 – A MORTE DE TIBET (POR CARLOS PESSOA) E OS OITENTA ANOS DE MICKEY MOUSE (POR PEDRO CLETO).

Textos de Carlos Pessoa, no Público de dia 9 – TIBET (1913-2010) UM CLÁSSICO NA SOMBRA DOS MESTRES e de Pedro Cleto no Jornal de Notícias de dia 13 - MICKEY MOUSE, 80 ANOS AOS QUADRADINHOS.

As imagens são da responsabilidade do Kuentro.



PÚBLICO - 9 de Janeiro 2010-01-14

TIBET (1931-2010)
UM CLÁSSICO NA SOMBRA DOS MESTRES


Carlos Pessoa

A história da banda desenhada não lhe concede o mesmo lugar destacado que ocupam Hergé, Jacobs ou Franquin. Mas foi um dos pilares da revista Tintin e um autor muito popular.
Setenta e seis aventuras mais tarde, o jornalista-detective Ric Hochet enfrenta o seu maior desafio: sobreviver a Tibet, o homem que concebeu o herói em 1955 e o desenhou até à morte, no dia 3 de Janeiro, 30 minutos depois da meia-noite. Tinha 78 anos.

Tibet, nascido em Marselha, é o nome artístico de Gilbert Gascard, "dado" por um irmão mais velho que pronunciava mais facilmente Ti-bet do que Gilbert... Deixa atrás de si uma longa carreira na BD, que começou nos Estúdios Disney de Bruxelas, no final dos anos 1940 - é aí que conhece o argumentista Duchâteau, com quem irá manter uma longa parceria.

Não é um nome de primeira grandeza - pelo menos com a projecção de Hergé, Jacobs, Morris, Franquin e outros monstros sagrados da BD europeia de filiação franco-belga. Mas está longe de ser um mero figurante. A sua extensa biografia assim o demonstra.
Em 1951 entra para o quadro da revista Tintin como maquetista e ilustrador. Em 1953, surgem na revista Ons Volkske e na equivalente francófona Chez Nous Júnior as aventuras de Chick Bill, com desenho e argumento de Tibet, depois transferidas para o Tintin.

Dois anos mais tarde lança com Duchâteau a série policial Ric Hochet. Nos anos seguintes, está envolvido no desenvolvimento de Globul le Martien, Alphonse (ambos em 1956, este último com Goscinny) e Mouminet (1957, com Greg). Entre 1962 e 1967, desenha a série 3 A (argumento de Michel Vasseur, aliás Duchâteau).
Antes, durante e depois, haverá uma presença constante das aventuras das suas duas séries mais conhecidas - Chick Bill (60 álbuns) e Ric Hochet (76 álbuns e o último, ainda desenhado por Tibet, com saída marcada para Março). São dois sucessos de público com milhões de álbuns vendidos.

Um senhor encantador

O reconhecimento é justíssimo: Chick Bill é "uma comédia à maneira de Laurel & Hardy aplicada ao western", comenta para o P2 Didier Pasamonik, editor do site francês Actua-BD. A segunda é, diz, "o arquétipo do Whodunit na BD, esse género policial denominado light suspense de que fazem parte Agatha Christie ou John Dickson Carr na literatura".

Benoît Peeters, também autor de BD e estudioso dos quadradinhos, confessou ao P2 que "conhecia mal a obra", mas recorda o homem como "um senhor encantador". Tibet foi, além disso, um cultor aplicado da famosa linha clara, "absolutamente pessoal, menos académica do que a do criador de Tintin", sublinha Patrick Gaumer, autor de uma monografia sobre o artista e do Dictionnaire Mondial de la BD.

Considera "essencial" a contribuição de Tibet para a história da BD clássica franco-belga. "Durante toda a sua vida bater-se-á pelo reconhecimento do estatuto de autor", disse ao P2.

Tanto Laurent Mélikian, jornalista especializado em banda desenhada, como Gilles Ratier, secretário-geral da Associação dos Críticos e Jornalistas de BD (França), coincidem na dimensão "popular" da obra de Tibet. "Contribuiu para manter o estilo linha clara", responde Mélikian. "O seu traço permitiu popularizar a BD made in revista Tintin", acrescenta Ratier. Pasamonik, por seu lado, considera "Tibet um dos esteios da BD franco-belga": "A sua série Ric Hochet foi durante muito tempo uma das preferidas da revista Tintin. Numa das últimas sondagens, continua a registar uma notoriedade de 80 por cento entre os belgas."

A opinião de Geraldes Lino, divulgador de BD e editor de fanzines, vai no mesmo sentido: "Ele fez mais coisas mas, para mim, Tibet é Ric Hochet, uma série em registo policial que não é vulgar na BD europeia." Amplamente divulgada pela edição portuguesa da revista Tintin, esta série "era muito cativante para os leitores de 16-18 anos da época", dando a conhecer um criador "com um trabalho correcto, eficiente e agradável de ler".

É tudo isto que leva a maioria dos críticos ouvidos pelo P2 a rejeitarem a visão de Tibet como um autor de segunda linha. "É a segunda geração de autores clássicos", defende Didier Pasamonik. "É um dos grandes da BD franco-belga, mesmo se o seu contributo (e o seu talento) estavam nitidamente abaixo da envergadura de Hergé, Jacobs, Morris ou Cuvelier", diz Gilles Ratier. Patrick Gaumer também não concorda com a menorização de Tibet: "Seduziu um público muito amplo e deixa uma marca indelével no coração de muitos leitores."



Jornal de Notícias, de 13 de Janeiro de 2010

MICKEY MOUSE, 80 ANOS AOS QUADRADINHOS

F. Cleto e Pina

Há 80 anos, fazia a sua estreia na banda desenhada, em tiras diárias de carácter humorístico publicadas nos jornais, aquele que possivelmente é o rato mais famoso e conhecido de todos os tempos, Mickey Mouse.

Tudo começara cerca de um ano antes, com o filme animado “Steamboat Willie”, estreado a 28 de Novembro de 1928. Desde então, Mickey já protagonizara uma quinzena de desenhos animados, cujo sucesso comercial levaram a King Features Syndicate a sondar Walt Disney quanto à possibilidade de o transpor para tiras diárias.

Uma vez o acordo alcançado, Ub Iwerks, que participara na criação gráfica do rato e animara a curta-metragem inicial, foi encarregado de desenhar os quadradinhos, passados a tinta por Win Smith, a partir de argumentos do próprio Walt Disney. A primeira tira, publicada a 13 de Janeiro de 1930, intitulada “He’s going to learn to fly like Lindy.”, mostrava Mickey deitado num monte de feno a sonhar com viagens de avião, numa alusão a Charles Lindbergh, que fizera o primeiro voo transatlântico sem escalas três anos antes. Era a primeira de uma série de tiras que adaptavam livremente “Plane Crazy”, um filme da “pré-história” de Mickey.

De início auto-conclusivas, embora com sequência, e de carácter puramente humorístico, as histórias aos quadradinhos bebiam na animação muito do seu dinamismo e do seu espírito.

Mas poucas semanas decorridas, Iwerks, não sentindo reconhecimento por uma colaboração com mais de uma década, abandonaria os estúdios Disney. Floyd Gottfredson assumiria a BD em Abril desse ano e ficaria na história como “o desenhador” de Mickey por excelência, após desenhar mais de 15 mil tiras e pranchas dominicais, até se reformar, em 1975. Nelas, dotou Mickey com um espírito mais decidido, empreendedor e aventureiro e introduziu muitos dos heróis secundários que com ele geralmente contracenam , criando outros como Morty e Ferdie (Chiquinho e Francisquinho) ou Phantom Blot (Mancha Negra).

Mantendo algum paralelo em relação à animação, em que manteve o tom mais divertido, na BD Mickey evoluiu graficamente aproximando-se mais da figura humana, cresceu e desenvolveu-se, em histórias policiais, de mistério, aventura e ficção-científica, participou no esforço de guerra contra os nazis, encarnou personagens clássicas e históricas, reviveu filmes célebres, experimentou um sem-número de profissões, prolongando o sucesso dos anos 1930, considerados a sua idade de ouro nos comics. Para isso contribuiriam, entre muitos outros, grandes artistas como Al Taliaferro, Ted Osborne, Paul Murry, Romano Scarpa ou Giorgio Cavazzano.

Hoje, 80 anos depois, a banda desenhada Disney, cancelada em diversos países, há muito que deixou os seus tempos áureos, surgindo como raras excepções a Itália ou os países nórdicos (Finlândia, Dinamarca, Suécia). Talvez por isso, em Dezembro de 2008, a companhia anunciou a sua entrada na BD digital, com meia centena de histórias produzidas em Itália, para iPhone, iPod e PSP. Possivelmente a melhor forma de transmitir o humor, a aventura e a magia que Mickey levou a tantos leitores, a uma nova geração com hábitos diferentes mas a mesma necessidade de sonhar.


(Caixa)

Histórias Memoráveis

Entre as quase 30 mil histórias de Mickey escritas e desenhadas ao longo de oito décadas, em especial nos EUA, Itália, Dinamarca e França (mas também no Brasil), muitas há que ficaram na memória dos que as leram. Eis três exemplos provenientes das tiras diárias, da revista mensal e da escola italiana.

Mickey Mouse in the Death Valley
Floyd Gottfredson, Walt Disney, Win Smith
1930
A primeira BD com a marca de Gottfredson, marcada pela entrada de Clarabelle Cow (Clarabela), Horace Horsecollar (Horácio), Black Pete (João Bafo-de-Onça) e o pérfido advogado Sylvester Shyster (Zé Ratão) e pela temática aventurosa que leva Mickey até ao deserto em busca de um tesouro.

The Mystery of the Double-Cross Ranch
Paul Murry
1951
Mickey e Pateta fazem uma visita ao rancho de Uncle Mortimer, um tio da Minnie, para investigarem quem anda a roubar-lhe as vacas, numa aventura ritmada, que combina um registo western e policial, com humor e drama.

Topolino e la collana Chirikawa
Romano Scarpa, Rodolfo Cimino
1960
A procura de um valioso colar indígena, com estranhos poderes, é o mote de uma das primeiras e mais famosas histórias escritas e desenhadas pelo mestre italiano Romano Scarpa, servida pelo seu traço moderno e dinâmico.

Curiosidades
Em 2008, a tira de 29 de Janeiro, autografada por Walt Disney, foi leiloada por quase 55 mil dólares (38 000 €).

Outros nomes de Mickey

Esteve para se chamar Mortimer, mas por sugestão da mulher de Disney seria baptizado como Mickey Mouse. Mas se este é o nome porque é conhecido na maior parte dos países, outras há que o conhecem de forma diferente:
Topolino (Itália)
Miki Maus (Croácia)
Miki-Hiir (Finlândia, Estónia)
Micky Maus (Alemanha)
Miki Tikus (Indonésia)
Peliukas Mikis (Lituânia)
Myszka Miki (Polónia)
Miki (Espanha, Sérvia, Eslovénia)
Musse Pigg (Turquia)
Miki Fare (Ucrânia)
Chuôt Mickey (Vietname)

 
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