quinta-feira, 21 de janeiro de 2010

RECORTES DE IMPRENSA #106 – VINHOS: RÓTULOS NAS GARRAFAS DESENHADOS POR CARTOONISTAS… CONTRA A CRISE.

Falemos hoje um pouco de vinhos!!! É que, para além de nos descrever saídas imaginativas para a crise, mostra-nos também como a banda desenhada (ou, neste caso o cartoon) se dá muito bem com o néctar das uvas. Repare-se que o rótulo é para ser lido de cima para baixo (em tiras verticais, digamos assim), para evitar que o utilizador comece logo por ficar com a cabeça à roda, se tivesse que ler a coisa como tradicionalmente costuma ser feita – em tiras horizontais…

Contudo a ideia dos rótulos desenhados por cartoonistas, é uma reincidência desta marca vinícola… espero que o Leonardo De Sá tenha pachorra para escrever aqui um comentário a preceito sobre a ideia original, que remonta, se não estou em erro a 2005.



Público – Suplemento Fugas – sábado, 16 de Janeiro 2010

Vinhos

"Diálogo" para combater a crise


Com a crise nascem também as grandes oportunidades e as grandes empreitadas da vida, numa renovação que se deseja e se adivinha. O"Diálogo" é uma das melhores e mais doutas propostas nacionais para uma renovação no sector dos vinhos.

Rui Falcão

A crise, essa malfadada palavra patente no léxico do dia-a-dia, insiste em perdurar no quotidiano, insinuando-se em todas as conversas, entranhando-se nas preocupações e anseios mais íntimos de cada português.

Uma crise que nos tolhe o ânimo, que instiga medos e preocupações, embarga projectos e investimentos, protela decisões, provocando comportamentos irracionais de prostração e insegurança. A consciência da presença de uma crise estrutural e duradoura continua a gerar sentimentos profundamente derrotistas, perigosos para a sanidade e indispensabilidade da tomada de decisões. Sim, a crise é tremenda, incómoda e perigosa! Porém, muitos persistem em querer desprezar dos ensinamentos da história, desconhecendo que as épocas de crise são também estações de oportunidade, quadras apropriadas para a tomada de risco, fases esperançosas para o investimento, pretextos excelentes para a renovação e crescimento.

Com a crise, com a imposição forçada desta crise, abrem-se novas conjunturas, novos mercados, novos horizontes, novos paradigmas que merecem ser explorados. A crise, apesar de toda a angústia a ela associada, consegue acenar com propostas verdadeiramente inovadoras.

Uma das tendências originadas pela crise, numa das orientações internacionais mais marcantes da actualidade, particularmente visível nos corredores da restauração, é o conceito de low cost superior, materializado na oferta de produtos cuidados e superiores, atraentes e bem embrulhados, transaccionados a preços mais do que justos, maximizando ao extremo a relação qualidade/ preço. Em Portugal, a tendência ganhou relevo especial na restauração, traduzindo-se na proliferação de restaurantes de autor com refeições servidas a preços sensatos e agradáveis, corporizados em nomes como o 100 Maneiras, de Ljubomir Stanisic, Alma, de Henrique Sá Pessoa, Spot Lx e S. Luís, de Fausto Airoldi, Tasca da Esquina, de Vítor Sobral, De Castro Elias, de Miguel Castro e Silva, ou Club, de Henrique Mouro. Todos eles chefes que anteriormente se ocupavam de cozinhas muito mais requintadas e caras... mas de rentabilização difícil ou mesmo impossível. Num simples piscar de olhos, os novos espaços converteram-se em gigantescos sucessos comerciais, de visita impossível sem marcação prévia, confirmando a existência de uma apetência natural pelos prazeres mais eruditos.

Porém, e estranhamente, no vinho tal revolução continua por fazer. Ao invés da grande tendência europeia, os melhores e mais reputados produtores e enólogos portugueses continuam autistas face a este segmento dó mercado, desbaratando a oportunidade de oferecer grandes vinhos, com apresentação primorosa, vendidos a preços adequados. Em Espanha, muitos dos produtores mais consagrados, vinhos de enólogos de prestígio inquestionável como Álvaro Palacios, Benjamín Romeo ou Peter Sisseck, entraram no jogo de cabeça erguida e decidida. Álvaro Palacios, um dos mitos vivos de Espanha, criador de alguns dos vinhos mais cobiçados do Priorato, com vinhos cujos preços en primeur rondam os 450€, acaba de lançar no mercado vizinho o Camins dei Priorat, um tinto muito bem vestido, sedutor e... vendido ao público a apenas 12€! Benjamin Romeo, o eterno senhor 100 pontos Parker, com vinhos mágicos transaccionados a preços estratosféricos, projectou o Predicador... negociado a pouco menos de 20€. Por sua vez, Peter Sisseck, o compositor do vinho mais caro de Espanha, o Pingus, rateado a mais de 600€ por garrafa, oferece agora o Psi, valorado em cerca de 30€, aproximadamente 5% do valor do
Pingus!

E em Portugal, qual dos produtores de prestígio conseguiu descortinar e aproveitar esta oportunidade? A resposta evidente e directa condensa-se no nome Niepoort, através de uma das criações mais talentosas e perspicazes da história recente do vinho português, o tinto Diálogo.

Diálogo, ou melhor, Fabelhaft, Gestolen Fiets, Fabelaktig, Sarvet, Fantasi, Öö Ja Päev, Twisted, Drink Me, Allez Santé, Alonso Quijano, Sásta ou Eto, títulos que o vinho duriense Diálogo vai assumindo conforme os mercados a que se destina, respectivamente Portugal, Alemanha e Áustria, Holanda, Noruega, Finlândia, Dinamarca, Estónia, Estados Unidos da América, Inglaterra, Bélgica, Espanha, Irlanda e Japão.

A ideia essencial de Dirk Niepoort reveste-se de uma simplicidade atroz e uma intuição feroz, assente num pressuposto que poucos assumem de forma realista, o chauvinismo vinico.

Porque é muito mais confortável comprar um vinho que nos seja próximo, que esteja rotulado na nossa língua, que conte uma história que nos seja familiar, proporcionando o conforto da proximidade cultural. Por isso, Dirk Niepoort insistiu em escolher um nome distinto para cada mercado e, sobretudo, em desenhar um rótulo original para cada país, recorrendo a um carroonista local para ilustrar uma história adequada aos valores e sensibilidade de cada país.

Na versão portuguesa, o Diálogo beneficiou com a contribuição de Luís Afonso, autor das famosas tiras do Bartoon, publicadas diariamente neste jornal há mais de dezasseis anos! A brincar, a brincar, são já 650.000 garrafas de Diálogo a sair do Douro, nas suas múltiplas declinações, vendidas a cerca de 10€, 90 por cento das quais exportadas para doze grandes mercados internacionais. O conceito torna-se ainda mais interessante quando se deduz que a Niepoort conseguiu antecipar com acuidade as grandes tendências internacionais, visto que a primeira edição do Diálogo, na versão alemã Fabelhaft, foi editada ainda em 2004, três anos antes dos primeiros sinais inequívocos da crise!

Será possível fazer algo semelhante com o Vinho do Porto?




NOTA: o rótulo que se apresenta nesta última imagem - dupla, é o tal, que remonta a 2005 e, também a 2006. Aliás, o rótulo datado de 2007, relacionado com a "crise" (e reproduzido no artigo do Fugas) diz-nos que esta "crise" já vem de longe, né?
 
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