terça-feira, 19 de janeiro de 2010

RECORTES DE IMPRENSA #105 – COSPLAY, COSPLAY, COSPLAY… NO P2 DO PÚBLICO!

O P2 do jornal Público visita o mundo do cosplay, pela mão de Pedro Rios (texto) e Fernando Veludo/nFactos (fotos). Um factor importante quando vemos o mercado da banda desenhada a definhar neste país, para podermos reflectir um pouco sobre as apetências do público mais jovem (ou não tão jovem como isso)…



Público – caderno P2 – Quinta-feira, 14 de Janeiro 2010

VAMPIRO EXORCISTA OU GUERREIRA COM QUATRO MÃOS?

Tudo é possível no cosplay: Em Portugal, tem cada vez mais praticantes. O que leva jovens a encarnarem os seus ídolos de anime e mangá, a aprenderem a costurar e a perderem horas à procura de tecidos? “As pessoas fazem isto por amor á personagem” é uma resposta. É a única forma de lhes poderem tocar: Por Pedro Rios (texto) e Fernando Veludo/nFactos (fotos).

As traseiras do Hotel Dom Henrique, no Porto, acolhem uma daquelas galerias comerciais, com muitas lojas desocupadas, que parecem condenadas ao esquecimento na lufa-lufa das cidades. Mas no último sábado à tarde os seus corredores tornaram-se num quebra-cabeças para quem passava por ali. Quem seriam aqueles jovens, com cabelos pintados, olhos com lentes de contacto coloridas, fatos estranhos e falsas armas de madeira? "Que Carnaval fora de época é este?", terão pensado.

O fenómeno chama-se cosplay (designação que junta costume e play - pode ser traduzido por "jogo de disfarces") e tem crescido nos últimos três anos em Portugal. Produtos como Star Wars e Harry Potter também são alvo dos cosplayers, mas o termo tem designado sobretudo a arte de imitar persol1agens da banda desenhada (manga), desenhos, animados (anime) e videojogos japoneses. Nos seus encontros, os cosplayers encarnam, da forma mais fiel possível, estas personagens, vestindo-se, maquilhando-se, penteando-se e comportando-se como elas.
Em países como o Brasil, os Estados Unidos e, claro, o Japão, há convenções com milhares de cosplayers. A Portugal chegou timidamente (em 1997, por ocasião do Festival Internacional de Banda Desenhada da Amadora) e só nos últimos tempos ganhou alguma dimensão. Hoje, é uma aposta da embaixada japonesa em Portugal na promoção da cultura nipónica: no próximo domingo, na FIL, integrado na Bolsa de Turismo de Lisboa, haverá um concurso de cosplay, organizado pela embaixada do Japão e pela futura Associação Nacional de Cosplay, que deve ser formalizada ainda este mês.
A revista on-line Waribashi, publicação portuguesa especializada no Japão, estima que haja cerca de 400 praticantes em Portugal. A maioria são jovens com menos de 20 anos; mas há também um número significativo de cosplayers portugueses com mais idade. Juntam-se em encontros ou concursos, como o do último sábado, promovidos por organizações informais dedicadas à cultura japonesa, cosplayers ou livrarias que vendem a fonte de inspiração de muitas personagens, os livros manga.

Um sério deprimido

A escadaria da galeria comercial do hotel do Porto está transformada numa passerelle improvisada. Ruidosas claques sub-20 berram a cada gesto dos cosplayers, concentrados em replicar os gestos e a atitude das personagens. "Sempre gostei de teatro. Aqui, estou a encarnar uma personagem", diz Ricardo Dias, de 20 anos, de Vila do Conde. Venceu o concurso com a sua transformação em Arystar Krory, um "vampiro exorcista" da manga e anime D.Gray-man. Não se riu uma única vez ao descer a escadaria: "A minha personagem é um sério deprimido".

Bruno Nunes, de Vila do Conde, com 29 anos (é o mais velho dos participantes) ficou fascinado com a possibilidade de "conhecer pessoas com os mesmos interesses". Está vestido de Seijuro Hiko, do manga e anime SamuraiX- esconde uma catana, verdadeira, por trás das vestes de guerreiro. Paulo Santos, de 19 anos, do Porto, escolheu L, personagem de Death Note, por ser "parecido" com ele. "É a segunda vez que faço este. Gosto de arranjar as roupas, o cabelo. E de ver a reacção das pessoas na rua", afirma Paulo, cosplayer há cerca de dois anos.
Daniela Pata, de 15 anos, de Aveiro, transformou-se em Lucy, protagonista de Elfen Lied. "Gosto muito da personagem", conta. Porquê? "Tem quatro mãos invisíveis que matam pessoas." "Só comprei a peruca e as lentes de contacto [tudo cor-de-rosa]", conta, enfiada nos seus calções verdes minúsculos. "As pessoas mais velhinhas acham muito giro. O jovens-é que mandam bocas - 'Já estamos no carnaval?'. Mas eu não ligo."
O cosplay é um "escape à realidade", como diz Daniela Oliveira, de 23 anos, de Lagos? Sim, mas não só, aponta Lars Konzack, professor na Universidade de Aalborg, na Dinamarca, especialista no estudo de videojogos. "Os cosplayers querem mais do que um escape. Querem fantasia", diz ao P2, por e-mail. Konzack associa os cosplayers à geração Internet. "Querem atingir urna nova forma de pensar. O cosplay exige muita energia e esforço. O que recebem em . troca são novas perspectivas sobre como se podem relacionar com o mundo e a Internet." Invasão japonesa

Os cosplayers portugueses convergem ao ligar a popularidade crescente da prática ao aumento do número de séries de animação japonesa na televisão. ASIC Radical tem apostado nos anime e, em 2008, surgiu um canal no cabo, o Animax, inteiramente dedicado a eles. Para livrarias de banda desenhada, como as portuenses Central Comics e a Mundo Fantasma, as histórias manga representam uma importante fatia das vendas.
O sucesso da cultura popular japonesa no Ocidente deve-se à capacidade do Japão de absorver elementos de culturas estrangeiras sem as adoptar por completo, acredita Roland Kelts, autor de japanamenca: Howjapanese Pop Culture Has Invaded the US (2006).
Produtos como os anime "saúdam o Ocidente do século XXI com uma identidade peculiar e distinta - suficientemente japonesa para ser fresca e atractiva, mas ocidental quanto baste para não parecer extraterrestre e muito estranha", explica, por e-mail. E o cosplay é um "exemplo perfeito" dessa contaminação, já que nasceu, segundo Kelts, depois de japoneses verem em revistas norte americanas dos anos 1970 imagens das convenções de trekkies (Ias do universo Star Trek). "Fizeram o mesmo, com fatos mais estranhos e coloridos, adequados às suas histórias de animação."
O cosplay encontrou no Japão um caminho fértil para o seu desenvolvimento. "O Japão produziu mais opções para o escape, em parte porque é uma nação incrivelmente rígida na sua ética de trabalho e na vida diária desde a Segunda Guerra Mundial", justifica Kelts.

Regresso à costura

Patrick W. Galbraith, autor de The Otaku Encyclopedia: An Insider's Cuide to the Subculture ofCoo/japan, lançado no final de 2009, também ele um cosplayer, diz que "as pessoas fazem isto para mostrar o seu amor à personagem". "Isto é pessoal e comunal, ao mesmo tempo. Estás mais próximo da personagem, como se ela estivesse na tua pele. Esta é a única forma que nós, Ias, podemos tocar nestes ídolos bidimensionais que adoramos. A um nível comunal, quando fazemos cosplay, mostramos aos outros as personagens que adoramos e quanto as adoramos.
Pode ser uma forma de começar uma conversa ou uma amizade", afirma, por e-mail. No mesmo sentido, Konzack vê o cosplay como um dos territórios de manifestação da cultura geek (termo que define pessoas com um interesse forte numa área, sobretudo em temas mais obscuros ou específicos), que abriu uma terceira via diferente da vida comunitária dos hippies e do individualismo dos yuppies. Uma cultura dominada por mulheres, ao contrário da maioria das manifestações ditas geek, e que é fortemente criativa, defende.
Daniela Oliveira, de Lagos, licenciada em Multimédia sem emprego, tem 23 anos e é cosplayer desde 2002 - uma "eternidade" no universo cosplay português.

Há lojas na Internet que vendem fatos e acessórios, mas a comunidade valoriza mais quem se lança ao trabalho de fazê-los.

A paixão pelas personagens dos anime, mas também de videojogos (as de Final Fantasy já deram origem a vários dos seus fatos), aliada ao interesse pelo design editorial, levou-a a lançar a Cosplayer, revista digital trimestral. O projecto, com 11 colaboradores, não tem fins lucrativos.
O cosplay é também responsável por Daniela ter aprendido a costurar, com a ajuda da mãe e da tia. "Comprei a minha máquina de costura. Agora consigo fazer os meus fatos sozinha", diz, satisfeita. "Fazer um fato exige trabalho e muita paciência. Depois de escolher a personagem, procuro imagens de referência, de vários ângulos. Caso não existam muitas imagens, procuro fotos de outros cosplayers para ver como resolveram o problema. Depois, é a caça ao tecido."
Há lojas na Internet que vendem fatos e acessórios, mas a comunidade valoriza mais quem se lança ao trabalho. "Comprei uma máquina de costurar", conta também Ema Paiva, de 18 anos, do Porto, para quem o cosplay é também um "tributo" às personagens. Ema recorre a tutoriais e vídeos do YouTube, que ensinam a coser e outras técnicas.
A futura Associação Nacional de Cosplay quer promover workshops sobre como trabalhar com tecidos, madeira, ferro (usado na feitura de armas, por exemplo) e outros materiais para elevar a qualidade do cosplay português, diz André Filipe, um dos mentores da associação.
Os jovens cosplayers são criativos e rejeitam ser meros receptores de entretenimento, atesta Lars Konzack.
"Querem participar", "querem acção e interacção", diz. "A geração Net quer ser parte da diversão, das narrativas e dos mundos ficcionais." E "como esta nova geração está familiarizada com o conceito Net dos avatares, interessa-lhes ter um alter-ego", prossegue. Porém, é importante distinguir "identidade" e "papel". "O cosplay ajuda-os nesse processo" - só se é personagem nos dias de cosplay.

Ficam aqui algumas imagens do Dia do Cosplay no 20º FIBDA-AmadoraBD 2009:




 
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