quarta-feira, 10 de março de 2010

BDpress # 116 – E DE NOVO O PÚBLICO E A BANDA DESENHADA, EM COLABORAÇÃO COM A ASA – A VEZ DE ALIX, DE JACQUES MARTIN.

Carlos Pessoa, no Público de hoje anuncia a já esperada reedição dos álbuns de ALIX, de Jacques Martin (falecido em Janeiro passado), a partir da próxima quarta-feira, 17, ao preço de € 6,40 – sendo que os dois primeiros custarão apenas € 4,95 cada…




Público, 10 de Março, 2010

Carlos Pessoa

ALIX, O HERÓI DA ANTIGUIDADE

O galo-romano criado por Jacques Martin é um dos grandes clássicos da banda desenhada europeia, prosseguindo hoje uma saga que o faz percorrer todo o mundo conhecido da Antiguidade. A série é uma soberba reconstituição de época, inigualável na precisão e no rigor dos ambientes e das atmosferas

Estamos no ano 53 a. C. Alix, um jovem escravo dos romanos, fica a saber quais são as suas origens. O amo, o patrício romano Honorus Galla, revela-lhe antes de morrer que os seus pais eram mercenários gauleses de uma tribo que combateu na Assíria ao lado dos romanos. E que, por essa razão, tinha decidido protegê-lo.

Estes são os factos, traduzidos em quadradinhos na primeira aventura da banda desenhada Alix, surgida em 16 de Setembro de 1948 na edição belga da revista Tintin. Porém, antes de ser história e aventura, o herói foi uma ideia, surgida e desenvolvida no espírito de Jacques Martin, o seu criador. Como nasceu? Em 1973, Jacques Glénat e François Riviêre fizeram-lhe essa pergunta, inevitável em qualquer entrevista. Respondeu o autor: "Alix é o fruto do meu amor pela Grécia e pela Antiguidade. Estava em mim... Porque se é verdade que conheci naquela época Hergé, conheci também Flaubert. E Flaubert foi um dos grandes choques da minha vida. Abriu-me as portas de Platão, Sócrates, de toda a Antiguidade, de todo o mundo romano.
Desde o final da Segunda Guerra Mundial que o francês Jacques decidido a trocar uma formação académica em engenharia pelo desenho e pela banda desenhada. Mas é a sua entrada na equipa de Tintin, em 1948, que lhe permite realizar esse sonho. Apesar das críticas ao seu desenho e das reservas iniciais de Hergé, na altura director artístico da revista, Martin não se deixou intirrúdar. Ainda bem que assim foi.

A Colecção Alix, que o PÚBLICO começará a distribuir no próximo dia 17 de Março, é formada por 16 álbuns deJacques Martin há muito ausentes do mercado - ficam apenas de fora três histórias do autor com edição recente. Os leitores poderão, assim, verificar (ou reconfirmar) que esta é, porventura, a mais completa e exigente série de matriz histórica produzida pela BD de expressão franco-belga. Antes de mais, há nas aventuras deste herói galo romano uma incontestável preocupação - pode dizer-se mesmo que isso era uma obsessão em Martin, que possuía na sua biblioteca vários milhares de volumes sobre a Antiguidade – com a documentação histórica, que se exprime tanto nos espaços arquitectónicos como no vestuário, no armamento ou nos ambientes e cenários de cada história.

É neste pano de fundo que se inscrevem as aventuras de Alix e do seu inseparável companheiro Enak, dois ou três anos mais novo. Inicialmente votado a uma efémera aparição, Enak acabaria por se transformar no segundo elemento, na sequência de uma avalanche de cartas dos leitores que obrigaram Martin reintroduzi-lo na série. Veio para ficar, e de uma forma tão estreitamente ligada a Alix, que essa intimidade não afastou a consideração de uma pelo menos insólita ambiguidade nas relações entre os dois personagens.

Para reforçar essa ideia contribui por outro lado, o papel relativamente
pouco relevante das mulheres numa obra onde só a espaços conquistam alguma notoriedade.

Seria demasiado simplista ver nesta obra a expressão típica do género de aventuras históricas. Sem enjeitar para os personagens um papel determinante no desenrolar da acção de cada aventura, Jacques Martin impregna a sua obra de uma dimensão trágica que permanece, para além do evidente classicismo do desenho e da dimensão pedagógica da obra, um elemento maior da narrativa.

As aventuras de Alix são, deste modo, o palco por excelência do choque de interesses, vontades, desejos e percursos individuais que, não raras vezes, se resolve de forma simultaneamente violenta e dramática, quase sempre injusta. Em muitos casos, aliás, chega mesmo a ser hipotecado o efectivo poder do herói como motor da acção e agente das transformações que dele se esperam. Ou seja, Alix apresenta-se, na melhor tradição clássica, como um agente de desígnios que em muito o transcendem, pondo em evidência uma dimensão humana que só muito parcial e limitadamente é senhora do seu próprio destino.

Nada disto retira a Alix a condição de um herói integrado na História, lutando corajosamente e de forma desinteressada, tolerante, generosa e sensível contra todos os que ameaçam a paz romana. São estes atributos que fazem dele um herói claramente positivo e explicam o grande sucesso da série, agora publicada de novo em Portugal numa parceria PÚBLICO/Edições Asa.

ALIX EM PORTUGAL DESDE 1971

Foi com OTúmulo Etrusco, publicado na revista Tintin, que Jacques Martin entrou pela primeira vez na vida dos leitores portugueses de banda desenhada. A história começou a sair no nº 34, 3º ano (16 de Janeiro de 1971), concluindo-se no nº 16, 40 ano. Até 1982, data em que acabou a edição portuguesa daquela publicação, seguiram-se mais oito histórias (Iorix, OGrande, O Príncipe do Nilo, O Filho de Espártaco, O Espectro de Cartago, As Presas do Vulcão, A Criança Grega, Alix. O Intrépido e A Torre de Babel).
O percurso da série em álbum é mais tardio. Ficou a dever-se às Edições 70 a publicação de 19 histórias da série entre 1981 (Alix, o Intrépido) e 1990 (O Imperador da China e O Cavalo de Tróia). Depois disso, saíram apenas cinco álbuns, todos publicados pelas Edições Asa: O Príncipe do Nilo, Ó Alexandria (ambos em 2002), O Filho de Espártaco, O Rio de Jade (ambos em 2004) e O Imperador da China (2006).
A presente colecção, publicada em parceria PÚBLICO-Asa, relança todos os títulos que têm argumento e desenho de Jacques Martin, com exclusão dos três saídos desde 2002 (O Príncipe do Nilo, O Filho de Espártaco e O Imperador da China) com a chancela das Edições Asa.

Jacques Martin, ALIX e o último álbum desenhado por Martin - AS VIAGENS DE ALIX, PERSÉPOLIS...

Em baixo, homenagem de Jacques Martin a Hergé: O encontro anacrónico de Alix e Rastapopoulos. Estas pranchas em forma de homenagem foram publicadas em (A Suivre) “Especial Hergé”, em Abril de 1983 e foram “sacadas” pelo Kuentro do site castelhano “Mis Comics Y Mas”, daí estarem legendadas em castelhano.





Esta última imagem, inserida no blog BD75011, de MANUEL F. PICAUD, num texto intitulado ALIX ET LES GAYS, aborda a sexualidade de Alix e também de Tintin!!! Muito interessante!
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