domingo, 6 de fevereiro de 2011

BDpress #225: João Ramalho Santos no JL - SOBRE PAULO MONTEIRO E HERMANN


JL – Jornal de Letras, Artes e Ideias, Sexta feira, 4 de Fev de 2011

DIVISÓRIA

João Ramalho Santos

O livro mais interessante apresentado no último AmadoraBD foi uma estréia de todo inesperada nesse formato. O amor infinito que te tenho e outras histórias reúne dez curtas narrativas/reflexões pessoais/poemas realizadas por Paulo Monteiro nos últimos cinco anos. Histórias sobre amor, fragilidade, dúvidas, identidade, morte. O tom confessional e a candura do diário do autor no final do livro (embora não diga exatamente respeito a todo o conteúdo), revela-se fundamental, e ajuda a perceber as espetativas de um percurso na banda desenhada. Uma bela surpresa em edição cuidada e muito acessível da Polvo.

A solução simples para abordar um livro, qualquer livro, é escolher um lado. Porque, por mais que se pregue neutralidade e rigor, há sempre lados. Por exemplo, é de toda a justiça elogiar o contínuo trabalho da VitaminaBD em manter acesa a chama da BD-espetáculo e de entretenimento com as últimas obras de Hermann, O gatinho morreu (da série Jeremiah) e Ameaça sobre o rio (da regressada série Bernard Prince, agora com argumento de Yves H. substituindo o falecido Greg). Esse é um lado. O outro implica olhar para os livros sem considerar o contexto, e ainda aí há duas opções. A mais radical negaria todo este género de BD, considerando-o um sub-produto juvenil. A outra (que é a minha) seria capaz de elogiar o desenho e descortinar eficácia e interesse (embora abaixo dos melhores da série) no último Jeremiah, olhando para Ameaça sobre o rio como um acrescento inútil e necrófilo (não nostálgico), com um argumento no limiar da competência.

Dir-se-à que é preciso muito descaramento para incluir Hermann e Paulo Monteiro num mesmo texto. Talvez seja, mas não porque as filiações, estilos e objetivos sejam distintos, a arte da BD tem muitas faces e estas duas são sempre precisas, precisamente porque opostas. A questão é que, se ambos enriquecem a edição em Portugal, só um poderá ler isto. Esse é (sempre!) outro problema quando se fala em autores, editores e organizadores nacionais. E Paulo Monteiro, por via do seu excelente trabalho como director da Bedeteca e Festival de BD de Beja, é as três coisas em simultâneo. Apesar de, aqui, dever ser só uma. E ao avaliar a linguagem poética e o traço fluído e mutável de O amor infinito que te tenho estamos (estou) sempre a meio de uma divisória, tentando decidir um lado. Caso se considere apenas o desenho há muitas referências reconhecíveis no trabalho de Paulo Monteiro; acrescentando o modo como o tom e o texto nele se enovelam, Lorenzo Mattotti, Max, David B. e Susa Monteiro são as mais claras. Mas o autor varia de traço para tentar encontrar a melhor solução gráfica para cada história, ou porque há uma permeabilidade excessiva a influências sem o coalescer de um estilo próprio? Ao contrário do que sucede com Luís Henriques ou Osvaldo Medina, por exemplo, a resposta não é óbvia. Como não o é a outros níveis. As histórias sublimam poesia, ou destilam lamechice? A abordagem autobiográfica é honesta ou fabricada? O fortíssimo retrato do pai é terno ou cruel (e será por isso que Porque é este o meu ofício levou tanto tempo a concluir)? A brevidade é essencial ao que o autor quer transmitir, ou inevitável porque outra complexidade narrativa lhe está vedada? Seja como for, as histórias mais recentes (Para lá dos montes e Este sou eu) revelam um Autor, pedem mais páginas, numa obra de maior fôlego. Também para ser mais fácil escolher um lado. Mas, sobretudo, para se lerem.

Nota do Kuentro: Este texto também pode ser lido no blogue de João Ramalho Santos As Sequências Rebeldes.






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