segunda-feira, 28 de fevereiro de 2011

BDpress #233: O REGRESSO DE ETERNUS 9 (2) – VICTOR MESQUITA ESTARÁ AMANHÃ NA TERTÚLIA BD DE LISBOA PARA FALAR SOBRE ETERNUS 9 E O QUE JOÃO RAMALHO SANTOS ESCREVEU SOBRE ESTE LIVRO NO JL

Amanhã, dia 1 de Março, realiza-se mais um encontro da Tertúlia BD de Lisboa (ao qual infelizmente não vou poder ir), onde o convidado para debitar palestra é Victor Mesquita, que falará sobre Eternus 9, ficam aqui dois textos, o de Geraldes Lino, publicado hoje no seu blogue Divulgando Banda Desenhada, a anunciar o 320º Encontro da TBD e o de João Ramalho Santos no JL, sobre Eternus 9: A Cidade dos Espelhos.


in Divulgando Banda Desenhada, 28 Fevereiro 2011

PALESTRA DE VICTOR MESQUITA SOBRE ETERNUS 9

Geraldes Lino

Victor Mesquita, nome de referência da moderna banda desenhada portuguesa, estará dia 1 de Março na Tertúlia BD de Lisboa a fazer uma palestra sobre a sua obra Eternus 9, englobando o conjunto dos dois andamentos: O Filho do Cosmos e A Cidade dos Espelhos.

De sua autoria, reproduz-se aqui um texto acerca dessas duas partes que compõem aquela importante BD, escrito propositadamente para o blogue Divulgando Banda Desenhada:

"Eternus 9, Um Filho do Cosmos: este título nasceu da necessidade de criar uma personagem que transcendesse as limitações da capacidade humana, a de nascer sempre sujeita às leis da gravidade terrestre.
Eternus nasceu num ponto do Universo onde essas leis não se fazem sentir. O coraçao de um nascituro ao nascer em tal ponto do espaço, necessariamente não sofre o esforço de bombagem do sangue, da compressão que se dá ao nascer sob atracção da lei da gravidade. Igualmente o cérebro não está submetido a tal violência. As circunstâncias em que Eternus nasceu, seguramente provê-lo-iam de faculdades extraordinárias.
Tal experiência há-de dar-se um dia, não de todo longínquo, e então ficaremos a saber quais serão os resultados - se ainda cá estivermos.
.
O título A Cidade dos Espelhos, além de simbolizar a Feira de Vaidades da sociedade de hoje, reflecte nas histórias a intenção mágico/metafórica de criar um portal de passagem entre o autor e o seu alter-ego, se quisermos. Um pretexto para tornar o autor avatar da sua própria criação, um desdobramento distanciado do espelho que a criação reflecte de si mesmo e assim se libertar para um distanciamento que lhe permite ver-se de fora do acto de criar. De ser leitor e criador que se recria integrando-se na aventura deste desdobramento.
Foi o modo que encontrei para justificar trinta e cinco anos de ausência entre mim e a personagem, entre o autor e a recriação de si mesmo. Circunstanciando a realidade do autor (há elementos da minha própria vida no interior da narrativa), o ser intemporal queEternus representa. Como símbolo da eterna renovação da vida, é não mais que o acto de me transcender a mim próprio, reatando a sequela de Eternus aos 72 anos de idade do autor, metade do meu tempo de vida, note-se. Assim, neste instante reinicio o ciclo da minha própria renovação."

Victor Mesquita


Pranchas de Eternus 9 - A Cidade dos Espelhos (clicar nas pranchas para as ver em tamanho real)


Victor Mesquita em Sessão de autógrafos no 21º Festival Internacional de Banda Desenhada da Amadora 2010
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As imagens das pranchas e das fotos acima, são da responsabilidade do Kuentro.
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JL-Jornal de Letras, Artes e Ideias, Quinta feira, 17 de Fev de 2011

ESPELHOS

João Ramalho Santos

Com a certeza que dão os rescaldos, pode hoje dizer-se que no último Festival AmadoraBD se destacaram três autores nacionais, que dificilmente podiam ser mais distintos. Fernando Bento, pela revisitação de um obra notável. Paulo Monteiro por uma estréia auspiciosa. E Victor Mesquita...

Victor Mesquita é uma figura marcante da banda desenhada nacional desde a altura em que, no período pós-revolucionário de 1975-76, participou na excelente e pioneira revista (de BD...) Visão, da qual viria aliás a ser afastado. Mas a sua fama vem sobretudo do álbum (iniciado na Visão) “Eternus 9: Um filho do Cosmos”, que sintetizava várias influências da BD francófona da época num misto de ficção científica e misticismo, com padrões de qualidade formal (planificação, traço, rigor anatómico, cor) muito elevados para a época, e transcendendo por completo a realidade nacional. Um filho do Cosmos foi um livro prometedor e, em simultâneo, é uma obra crucial na história da BD portuguesa, pela construção e projecção.

Estas duas coisas não são equivalentes: apesar das suas qualidades o livro tinha o potencial de lançar uma carreira para outros patamares, algo que acabou por não suceder. Daí ser lícito encarar o novíssimo “Eternus 9: A cidade dos espelhos” (Gradiva) com um misto de interesse e desconfiança.

Não é útil olhar para este livro como aquilo que não é. A personagem Eternus 9 não regressa, não há de resto qualquer herói, nenhuma história no sentido clássico. O que é tanto mais fascinante quanto essa parece ser, à primeira vista (formato, estilo gráfico, ritmo narrativo) a filiação clara do livro. O que há então? Há a angústia extrema de um autor com talento, ego e nome. Um autor cujo verdadeiro regresso (após vários projectos curtos) deixou de ser aguardado, porque aguardado há demasiado tempo. Um autor que cultivou espetativas e assinou contratos. Um autor perdido no seu universo. Um autor com muitas ideias, demasiadas pistas. Um autor que não sabe bem o que há-de fazer.

Se em termos de referências bedéfilas o misticismo cósmico de Jodorowsky e Moebius substitui a influência de Druillet no livro anterior, é o Fellini de 8 1/2 que espreita. Um criador a preencher páginas com fragmentos inacabados à espera que surja uma síntese, uma inspiração, qualquer coisa. A (leve) ficcionização em termos de identidades, ou o facto de estarmos num mundo de ficção científica, não esconde o óbvio. Não estamos nada, como o próprio título sugere estamos na cabeça de Victor Mesquita, assistimos na primeira fila enquanto luta com demónios pessoais e criativos. Apesar de um disfarce operático, o tom faz uma ponte surpreendente com talentosos autores de BD mais confessional e autobiográfica, por vezes com os mais frágeis (John Porcellino, Madison Clell), por vezes com os mais confiantes (Fabrice Néaud, Joe Matt, Chester Brown), sendo essa a essência do conceito de EmovisionBD proposto pelo autor. A vulnerabilidade permite contextualizar textos grandiloquentes e referências pseudo-científicas forçadas (curiosamente numa editora que trabalha essa vertente), dá ao leitor um escape para não levar tudo a sério, a não ser no sentido em que reflecte uma viagem interior, e mostra porque Mesquita não foi o autor que “Um filho do Cosmos” antevia. O livro caminha miraculosamente no fio da navalha do "camp" sem cair.

A junção do estilo grandioso com a fragilidade do autor torna pois “A cidade dos espelhos” uma das obras mais surpreendentes de que há memória. Desconfia-se que o livro resulte de uma colagem/revisitação de material com diversas origens, interesses e épocas, retocado com um bom trabalho digital, coalescido. Dada a genealogia da obra, o percurso do autor e a vontade do editor, desmontar esta génese improvável parece quase uma obrigação do próximo AmadoraBD. Por outro lado, anuncia-se novo volume de Eternus 9. Só se espera que não constitua aquilo que se temia que este fosse e não foi: um regresso marcado pela auto-satisfação, feito de certezas. Mas Victor Mesquita já assinou duas obras marcantes para a BD nacional, uma lançando pistas e apontando caminhos em potência, outra explicando porque não foram seguidos. Nada deve a ninguém.

Eternus 9: A cidade dos espelhos. Texto e desenhos de Victor Mesquita. Gradiva, 140 pp., 25 Euros.

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