domingo, 20 de fevereiro de 2011

BDpress #230: REGRESSO AO ARMAZÉM CENTRAL, João Miguel Lameiras em Diário “As Beiras” + 4 LIVROS PORTUGUESES NO SITE DE PAUL GRAVETT, Pedro Moura em LerBD + EXPOSIÇÃO BD DE CARLOS PÁSCOA EM BEJA


Diário “As Beiras”, 20 Fevereiro 2011

REGRESSO AO ARMAZÉM CENTRAL

João Miguel Lameiras

Aos poucos, as edições Asa começam a retomar a publicação de algumas séries que pareciam ter ficado pelo caminho. A última a ter essa sorte, foi “Armazém Central”, de Loisel e Tripp, de que acaba de sair o terceiro volume. A série, que Loisel, numa entrevista, define como “uma comédia à Frank Cappra (…) com um ambiente próximo das pinturas de Norman Rockwell”, passa-se emNotre-Dame-des-Lacs, uma aldeia perdida no Quebeque dos anos 20 do século XX, cujo dia-a-dia vai ser alterado quando a jovem viúva Marie Ducharme decide tomar conta sozinha do Armazém Central que era do seu falecido marido.

Curiosamente, a série acabou por ser mais notícia em França pelo facto de Loisel e Tripp trabalharem o desenho a meias, com Loisel a encarregar-se do desenho a lápis e Tripp a passar a tinta. Algo perfeitamente vulgar nos comics das grandes editoras americanas, onde o mais habitual é haver uma clara separação de tarefas, com um argumentista, um desenhador para o lápis e outro para a arte-final (passagem a tinta), um colorista e um responsável pela legendagem, muitas vezes com cada um numa cidade diferente, cabendo ao editor coordenar toda essa gente, mas que para a BD franco-belga é suficientemente exótico para justificar o destaque que a editora dá ao facto, incluindo duas páginas no início do álbum em que se explica o peculiar (para os franceses) método de trabalho.

Na origem desta colaboração em moldes poucos habituais para a BD franco-belga, está o facto dos dois autores partilharem o mesmo Atelier em Montreal, no Canadá, o que lhes permitiu descobrir que eram complementares, ou nas palavras de Tripp, que “um desenhador virtual, que fosse uma mistura dos dois, desenharia com muito mais prazer, sem esforço”. Com efeito, Loisel adora o desenho a lápis e aborrece-se mortalmente na fase de passar a tinta, enquanto que Tripp é exactamente ao contrário e, ao conseguirem que cada um faça apenas aquilo que mais gosta, conseguem produzir a um ritmo nada habitual no mercado francês, de tal modo que em pouco mais de três anos já são cinco os álbuns publicados nesta série, inicialmente pensada como uma trilogia e que, até ver, irá ter pelo menos seis álbuns…

Se em termos de ambiente a coisa funciona muito bem, com os autores a traçarem um conseguido retrato nostálgico da vida no campo nessa época, a verdade é que o ritmo narrativo é contemplativo e bastante lento, apesar das coisas aquecerem um pouco neste 3º volume, com os homens a regressarem à aldeia e a reagirem mal à presença de Serge Brouilet, um estrangeiro vindo de Montreal que abriu um restaurante nas traseiras do Armazém Central. E se a tensão que este novo elemento introduz na relação de Marie com o resto da aldeia, está muito bem explorada, sequências como a do aniversário de Gaetan, o típico tolo da aldeia, em nada contribuem para o avançar da história, nem funcionam tão bem como as brincadeiras entre um cachorro, um gatito e um pato que decorrem em segundo plano, em paralelo à acção principal.

(“Armazém Central 3: Os Homens, de Loisel e Tripp, Edições Asa, pags, 15,50 €)

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LerBD, 20 de Fevereiro de 2011

Pedro Moura

4 LIVROS PORTUGUESES NO SITE DE PAUL GRAVETT

A convite do jornalista, divulgador, crítico de banda desenhada e director do festival Comica, no Reino Unido, Paul Gravett, escrevemos umas breves notas sobre quatro livros portugueses, que poderão ser vistos (sem detrimento de outros muitos trabalhos possíveis de discutir) como alguns dos melhores trabalhos feitos em banda desenhada em Portugal no ano de 2010. For all that it's worth, aqui fica o link directo.


Portugal
Selected by Pedro Moura
Pedro Moura (Lisbon, 1973) teaches, studies and writes about comics, along with other unhealthy habits.



O Amor Infinito que Te Tenho
[The Infinite Love I Have for You]
by Paulo Monteiro
Polvo
A collection of many short stories, both published and unpublished, with genres spanning the fantastic and the autobiographical, and with a black and white work that goes from gentle graphite line drawings to stark chiaroscuros, the main characteristic of Monteiro’s work is the powerful emotions it is able to ellicit and express. Love for family members, his lover and humanity in general are the object of these small pieces, but it’s not as touchy-feely as you might expect. In some respects, one could call these stories love letters addressed to real people that surround Paulo Monteiro’s life, and as we peer into them we also come to engage with what makes us humans: flawed, fragile things who should take joy out of every blissful moment we have in our lives, no matter how small.


O Pénis Assassino
[The Killer Penis]
by Janus
MMMNNNRRRG

Janus is a Porto-based brute force of comics and animation-making. Working alone for no glory, mostly in photocopied fanzines, it was only due to an independent and maniac publisher that his work would be compiled and published in book form. He is mostly known for a previous project, somewhat autobiographical, in which all the characters were depicted as ugly monkeys. This is a book that he did years ago but only now found an opportunity to have published. It is the portrait of a young man who discovers that every time he ejaculates, he kills the women he’s with. He tries to avoid it and is consumed by guilt, but strange twists and turns, under the influence of what one could call a witch, lead him always to terrifying deeds. In many aspects, as in his previous work, there is quite probably a very strong yet disguised autobiographical penchant. Catholic upbringing, sexual experiences and too many comics bring into formation this weird tale (Binky Brown meets The Killer Condom, perhaps).


Hans: O Cavalo Inteligente
[Hans, The Intelligent Horse]
by Miguel Rocha
Polvo

Based on a play by contemporary stage director Francisco Campos, based in turn on the real-life case known as ‘Der kluge Hans’ or ‘Clever Hans’, a horse owned and presented by phrenologist W. von Osten, this books brings up questions of wishful thinking, the boundaries and similarities between humans and animals, the limitations of intelligence and emotionality, at the same time as presenting an incredible complex family saga. Miguel Rocha is one of Portugal’s most accomplished artists in the comics medium, and a rare case of being able to put out at least one graphic novel a year (sometimes more). His works are always very distinct from each other, searching for specific ways of being tuned in to its specific purpose and ambience, changing tools and forms in order for the best expression possible. Rocha works mainly with digital means today, and this book is made up of black and white, somewhat static images presenting its characters in full-length shots, as if pretending to be as close as possible to both early 20th century group photography and theatre. This does not mean that Rocha’s customary experimental page compositions, free explorations and many exercises in tressage or braiding (mostly using symbols, abstract marks, graphic details that are used over and over), are absent, but Hans does indeed aim for a subdued atmosphere, the better to explore the unspoken yet intense feelings thundering inside the protagonist’s soul.


A Fórmula da Felicidade 2
[The Formula for Happiness Vol 2]
by Nuno Duarte & Osvaldo Medina
Kingpin Books

This is perhaps the most commercial project in this list, although it issues from a smaller platform with limited runs. Written by a professional scriptwriter and drawn by a respected animator, this is something that attempts to mimic professional, international modes of comics creation, and it attains the same level of quality, without forgetting local lore and culture. Using anthropomorphised animals as characters, and a strange mix of casual yet legible line work and suave colouring, this is the story of Victor, a school teacher prone to failed relationships, who comes up with a mathematical formula, which, when read, brings about an ineffable feeling of happiness to those who hear it. This will bring him the status of a guru, providing him with a momentary, artificial sense of accomplishment and happiness too, but it’s all too fleeting when he faces a deeper, truer part of his being. Ascension, fall, redemption. All the ingredients for a universal tale, disguised in furry forms.
Posted: February 13, 2011

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Para terminar aqui fica o cartaz da Exposição "Banda Desenhada e Ilustração - Carlos Páscoa" que inaugurou ontem na Bedeteca de Beja - Casa da Cultura.

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