terça-feira, 5 de abril de 2011

BDpress #250: AINDA “QUIM & MANECAS” EDITADO PELA TINTA DA CHINA – João Ramalho Santos no JL e Sara Figueiredo Costa na LER

O livro Quim & Manecas: 1915-1918, de Stuart de Carvalhais, organizado por João Paiva Boléo e editado pela Tinta da China, continua a merecer a atenção dos críticos de BD. Aqui ficam mais dois recortes:


JL, Jornal de Letras, Artes e Ideias, 22 de Mar de 2011

BANDA DESENHADA HISTÓRICA PORTUGUESA – PIONEIRO

João Ramalho Santos

Uma das mais importantes edições recentes foi a de Quim & Manecas de Stuart de Carvalhais pela Tinta da China. Recomenda-se.

Várias iniciativas em torno da Banda Desenhada marcaram as comemorações do Centenário da República, como as excelentes exposições subordinadas ao tema no Festival da Amadora 2010. Particularmente digna de registo foi a edição da parte mais importante de Quim e Manecas: 1915-1918, a obra seminal de Stuart Carvalhais em BD, levada a cabo por João Paulo de Paiva Boléo.

Publicadas no Século Cómico estas pranchas humorísticas de Stuart representam não só um marco a nível nacional, como um das raras ocasiões (Bordallo Pinheiro e Carlos Botelho serão outras) em que a a BD portuguesa esteve na linha da frente da inovação da linguagem, neste caso até pelo uso de balões. Embora influenciado pelos "comics" de jornal norte-americanos, a fluidez do desenho, a ocupação do espaço ou a ligação entre vinhetas em Quim e Manecas são superiores a muitos contemporâneos europeus mais celebrados, e a modernidade do traço leva a constantes descobertas gráficas. Isto presumindo que um leitor está recetivo e se consegue abstrair do óbvio: o facto de Quim e Manecas ter sido feito em permanente improviso pode ter libertado Stuart, mas resultou numa lógica interna flutuante, à mercê de inspirações momentâneas. Por outras palavras: não faz grande sentido em termos de continuidade. E são as primeiras histórias, curtas e com balões (depois abandonados) que sobrevivem melhor. Quando a série embarca numa narrativa complexa com texto em quadras rimadas que tentam "explicar" demais (e que não seriam de Stuart) claramente perde. Perde menos quanto menos a sério leva a "história" e mais a usa como pretexto para peripécias e delírios visuais (daí a diferença entre as narrativas "Olho Vivo" e "Pé Fatal"). Conta sempre com o carisma de Manecas, o talento gráfico repentista de Stuart, a inventividade sobretudo em termos de humor, e ainda com a capacidade para sentir o pulso do tempo nas mais diversas áreas, resultando em inúmeros comentários, citações e referências, que obviamente se destinavam ao público adulto. Mais evidentes serão as de política e cultura nacionais ou referentes à Primeira Grande Guerra, mas não só. Por exemplo, uma das não referidas no glossário é a Cesare Lombroso, antropólogo criminologista italiano que defendia a identificação "preventiva" de criminosos mediante características físicas (uma forma primitiva de "profilling").

Por outras palavras: feito numa altura de total experimentalismo em termos de linguagens gráficas Quim e Manecas é um híbrido na fronteira entre a BD infanto-juvenil de continuidade e o "cartoon" político do momento, e não pode ser avaliado numa única dessas perspectiva, nem lido de seguida. As suas limitações não precisam de ser desculpadas com olhares nostálgicos, uma tentação a que o texto introdutório cede ao início. Um paralelismo possível seria este: já experimentaram ler com atenção argumentos/librettos/letras de óperas clássicas? Como é que algumas delas (sem lógica, ofensivas) podem ser marcos do que quer que seja? Pois é, há a música...

Pena é que não se possa ficar por aqui, e haja alguns reparos a fazer. Certamente terão existido contingências de tempo, meios, dinheiro, e sabemos todos como "isto funciona". Mas, tal como sucede noutras formas de avaliação, em última análise as obras terão de falar por si próprias. Agora como daqui a vinte anos, já que esta edição vai continuar a ser relevante. Um primeiro reparo é estratégico, e ultrapassa de facto o livro, no sentido que merecia ter versões (mesmo que mais modestas) em francês e inglês, de modo a divulgar internacionalmente o pioneirismo de Stuart. Um outro ponto relaciona-se com a qualidade das reproduções, que devia ser muito superior. Ao ler o livro vi-me várias vezes a evocar o nome de Manuel Caldas, cujo trabalho de restauro poderia ter sido precioso. Por último, a contextualização de cada história seria mais eficaz enquanto notas a cada prancha, não tanto com um texto corrido e um glossário no início. Mas tudo isto é forma, o conteúdo de Quim e Manecas está continuamente a abrir portas inesperadas, trunfa quaisquer outras considerações. E este é um livro imperdível a todos os níveis.

Quim e Manecas: 1915-1918 de Stuart Carvalhais; organização, introdução, glossário e notas de João Paulo de Paiva Boléo. Tinta da China. 240 pp., 44 Euros.

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Ler nº 99, Fevereiro 2011

QUIM E MANECAS À CONQUISTA DA MODERNIDADE
Stuart Carvalhais, Quim e Manecas 1915-1918, Tinta da China

Sara Figueiredo Costa

Com os primeiros passos da República portuguesa e o eclodir da I Guerra, as páginas da imprensa periódica transbordaram de caricaturas satíricas e registos irónicos dedicados à agitação política e à incerteza geo-estratégica da época. É nesse contexto, em 1915, que surgem as primeiras aventuras de “Quim e Manecas”, de Stuart Carvalhais, n’O Século Cómico (suplemento do jornal O Século), inicialmente intituladas “Quim, Manecas e o seu cão Piloto”, e se o pouco reconhecimento de que a banda desenhada tem no chamado meio cultural não permite perceber que género de revolução se deu com o surgimento dos dois personagens, a leitura das suas pranchas, agora publicadas pela Tinta da China, com introdução e notas de João Paulo de Paiva Boléo, chegará para resolver o assunto.

Quim e Manecas são herdeiros dos pioneiros da banda desenhada europeia, de Töpffer e Hoffmann aos artistas da mítica revista Punch, bem como dos funniesque a imprensa norte-americana publicava com regularidade. Estão lá as estruturas típicas dos gags, a complementaridade equilibrada entre imagem e verbo e até a influência de Yellow Kid na aparência e no movimento de Manecas, mas está sobretudo a genialidade de Stuart, que empurrou uma linguagem ainda em formação em direcção ao seu futuro e a usou para retratar um país a partir de um olhar tão popular e doméstico como cosmopolita.

A estrutura mais comum nestas curtas narrativas, e aquela que inaugura o estilo de Quim e Manecas, assenta nas partidas que os dois personagens aplicam indiscriminadamente – o gato ou o cão, os guardas republicanos ou os ‘talassos’, a Dona Leocádia ou os boches são algumas das vítimas, sempre com diatribes escolhidas a preceito. Essa estrutura permite um reconhecimento que se torna relevante quando sabemos que as aventuras eram publicadas separadamente, continuando no número seguinte do jornal, tanto como ajuda a caracterizar a personalidade de Quim e Manecas, duas crianças que brincam à solta pelas ruas, escolhendo as brincadeiras com ingenuidade inversamente proporcional ao sadismo das suas partidas e à maturidade das suas ideias e comentários. Apesar da inclusão no suplemento infantil, o humor de Stuart não tem como principal receptor as crianças, que poderiam degustar (ou invejar) as tropelias mas dificilmente perceberiam os comentários de teor político-social, e esses são uma parte considerável do património desta série. Mas Stuart não reduz Quim e Manecas à chalaça das partidas, envolvendo-os nos acontecimentos que marcavam o país e o mundo, quando os faz prisioneiros dos alemães ou combatentes nas trincheiras dos Aliados, quando os coloca no cenário arruaceiro dos confrontos entre facções republicanas ou quando os promove a inspectores da secreta procurando resolver o Crime do Barreiro, e dando-lhes voz para comentar, com o mesmo grau de interesse, os seus dissabores quotidianos de crianças e as grandes questões nacionais através de uma parafernália de recursos verbais que cruzam o calão popular de Lisboa com a suposta erudição do latim macarrómico, o jargão republicano com provérbios e adágios. E depois há as invenções de Manecas, momentos sublimes de delírio tecnológico (a lembrar, como refere Paiva Boléo, as engenhocas de Heat Robinson, que se publicava por cá na Ilustração Portuguesa) em que se cruzam a imaginação sem limites e com o seu quê de diabólico do personagem com as possibilidades narrativas que cada maquineta permite. Veja-se o motor a gato e rato que resolve a crise do carvão e merece condecoração pelo próprio Afonso Costa, o avião transformado em cana de pesca que prende vários alemães pelo nariz ou a lupa gigante que incendeia Berlim.

A leitura de Quim e Manecas confirma que a grande inovação de Stuart remete para a linguagem da banda desenhada e para o modo de utilizar os seus recursos, mesmo que sejam o humor e um certo retrato de época a ficar gravados na memória. Como pode ler-se na introdução de Paiva Boléo, “tendo presente a lição americana (que era necessariamente conhecida), e muito antes da maturidade que a BD europeia só atingiria nos anos 1930, surge uma BD com uma qualidade gráfica, uma leveza e desenvoltura, uma modernidade que se revela no ritmo, no humor e até na utilização de balões que na europa, de forma consistente, nunca se vira nem veria por uma década ainda.” (p.22) De facto, a graciosidade da progressão diegética, o modo como Stuart lida com as contigências do espaço, atribuindo às falas (primeiro em balões, depois em legenda) um papel crucial na composição narrativa, e o contraste entre a ingenuidade infantil dos personagens e a sua atitude impetuosa e desbocada fazem de Quim e Manecas protagonistas de primeira linha da banda desenhada portuguesa e europeia. A essas características junta-se a harmonia na combinação de um traço que retoma a produção de outras escolas de banda desenhada com elementos que avançam com nitidez pelas linhas do Modernismo e das suas primeiras expressões, mesmo que Manecas se divirta a replicar o Futurismo num poema que não só é gozado por Quim como ainda contribui para a derrocada de uma mercearia lisboeta.


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Imagens da responsabilidade do Kuentro
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