quarta-feira, 13 de abril de 2011

BDpress #253: VIAGENS AOS QUADRADINHOS (II) - JORNAL PÚBLICO, SUPLEMENTO FUGAS, Carlos Pessoa

VIAGENS - DE CORTO A JONATHAN

BANDA DESENHADA - VOLTA AO MUNDO COM SETE GRANDES VIAJANTES

Carlos Pessoa

(2ª parte)


BLAKE E MORTIMER - UMA DUPLA CONTRA OLRIK

Os mais britânicos heróis da banda desenhada europeia foram criados por um belga. Chamam-se Francis Blake e Philip Mortimer, respectivamente oficial dos serviços secretos e cientista. São velhos e incondicionais amigos, criados em 1946 por Edgar Pierre Jacobs, um criador solitário que fez teatro e foi cantor lírico (barítono) até ao início da ocupação da Bélgica pelos alemães no início da Segunda Guerra Mundial.

Os tempos, difíceis como o são sempre em período de guerra, não eram muito favoráveis à expressão artística e Jacobs viu-se forçado a ganhar a vida de outro modo.

Começou a colaborar, em 1940, na revista Bravo, onde continuou uma versão europeia das aventuras de Flash Gordon, do americano Alex Raymond, que deixaram de chegar à Europa por força do conflito. A experiência foi curta, porque os alemães proibiram a série logo a seguir. O passo seguinte foi a história de fi cção científica O Raio U, onde se vislumbra o espírito daquele clássico norte-americano.

Por esta altura, Jacobs conhece Hergé e passa a apoiá-lo na produção e na cor das aventuras de Tintin.

A queda do nazismo e a libertação soltam todas as energias aprisionadas na Europa ocidental. A banda desenhada comunga desse espírito, contribuindo com o projecto da revista Tintin (edição belga). Jacobs está entre o núcleo fundador, assinando o argumento e o desenho da série Blake e Mortimer. O primeiro episódio, O Segredo do Espadão (1946), leva os heróis até ao Médio Oriente e ao Tibete, lutando contra a nova ameaça totalitária que sopra de leste – o então mítico e temido “perigo amarelo”. Como banda desenhada típica de acção e aventura, os dois amigos não tardam a focalizar-se naquele que será o combate central da série – a oposição total ao inteligente e pérfi do coronel Olrik, um mercenário-cavalheiro que vende os seus talentos a quem mais pagar por eles. Todos os episódios seguintes se organizarão em torno deste antagonismo, sempre repetido e nunca defi nitivamente ganho. A aventura estará onde estão os heróis – o Egipto ou o Japão, o Tibete ou o Médio Oriente, os Açores, Paris ou Londres –, num périplo que os continuadores da série, após a morte de Jacobs, levam a muitas outras paragens, de África à Antárctida, passando por Bruxelas.

A invenção de Blake e Mortimer é um pouco determinada pelas circunstâncias. Até aí, o artista ganhara alguma experiência em registos históricos, mas como apenas uma das aventuras previstas no arranque da revista Tintin se situava na actualidade (O Templo do Sol, de Hergé), e as restantes remetiam para “o histórico e o feérico”, foi “amavelmente instado a criar uma história contemporânea”. Jacobs escolheu “a ficção científi ca como mal menor”.

Durante um ano ainda continua a assistir Hergé enquanto desenvolve a sua obra própria, mas em 31 de Janeiro de 1947 cessa oficialmente a colaboração com o criador de Tintin. As quatro décadas seguintes caracterizam-se por um aturado (mas não muito produtivo) trabalho criativo, pois Jacobs é um perfeccionista que insistirá em trabalhar sempre sozinho até à sua morte, em Fevereiro de 1987.

A consequência é uma mão-cheia de aventuras sólidas, envolventes e com enredo emocionante. A série Blake e Mortimer é, definitivamente, um grande clássico da banda desenhada europeia.

O QUE LER

Todas as aventuras da série, com destaque para as oito primeiras realizadas pelo seu criador, Edgar Pierre Jacobs. Não está disponível nenhuma edição completa em língua portuguesa.

1. O Segredo do Espadão
2. O Mistério da Grande Pirâmide
3. A Marca Amarela
4. O Enigma da Atlântida
5. S.O.S. Meteoros
6. A Armadilha Diabólica
7. O Caso do Colar
8. As 3 Fórmulas do Professor Sato
9. O Caso Francis Blake
10. A Conspiração Voronov
11. O Estranho Encontro
12. Os Sarcófagos do 6º Continente
13. O Santuário de Gondwana
14. A Maldição dos Trinta Denários
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JOHNNY HAZARD AGENTE DA GUERRA FRIA

Carlos Pessoa

Os heróis não morrem mas podem ser mortos. É o que acontece a Johnny Hazard, criado em 1944 e extinto em 1977 pelo seu criador, o americano Frank Robbins. Piloto aviador de profissão, é mais uma das muitas personagens de comics que decidem "cooperar" no esforço de guerra norte-americano, decretando uma luta sem quartel a todos os inimigos, quer eles sejam nazis alemães ou japoneses. As suas aventuras começam nas tiras diárias dos jornais americanos a 5 de junho de 1944, um dia antes de começar a invasão da Normandia pelas tropas aliadas. Os leitores ficam a saber que nesse dia o herói, prisioneiro de guerra dos nazis, prepara-se para fugir de uma base aérea inimiga.

As pranchas dominicais, com um enredo independente, têm início a 2 de julho do mesmo ano.

O fim da Segunda Guerra Mundial surge pouco depois e, com ele, vem a inevitável reconversão da série. Johnny Hazard volta à vida civil e regressa ao seu país. Agora, são outros os caminhos da aventura, longe dos palcos de combate; a série é preenchida com aventuras agitadas e emocionantes, por vezes pouco crediveis, nas quais participam personagens muito bem caracterizadas.

Invariavelmente, o herói de Frank Robbins vai estar envolvido ou apoia incondicionalmente todas as operações pró-ocidentais da "guerra fria", onde quer que a sua ajuda seja útil ou necessária.

Apesar da influência gráfica do desenhador Milton Caniff, o universo criado por Robbins possui
um dinamismo próprio, para o qual contribuem tanto o uso enérgico do pincel , como o recurso a uma cuidadosa planificação e montagem de franca inspiração cinematográfica.

A série conta com uma importante galeria de figuras femininas. O destaque vai para Brandy, a estrela da primeira fase da série, que aparece em Itália como repórter fotográfica de guerra, durante um bombardeamento – a situação é uma excelente metáfora para sublinhar o temperamento "vulcânico" da personagem. Está ao lado de Johnny Hazard em inúmeras peripécias, desaparece em 1948 e regressa três anos mais tarde. Mas não está sozinha, pois conta com duas adversárias de peso: Liz Maruúng, directora de uma companhia aérea, e a baronesa Flame, com quem o herói inicia um amplo ciclo de aventuras exóticas pelo Extremo Oriente.

A agudização da guerra fria entre os blocos capitalista e comunista nos anos 1950 encontra eco claro na série, tanto nas tiras diárias como nas pranchas dominicais, traduzindo-se em situações alusivas ao combate surdo entre o Ocidente e os países de orientação ideológica marxista.

Na segunda metade da mesma década, Hazard começa a trabalhar directamente com o Departamento de Estado, institucionalizando-se como "herói de Estado". Passa a ser um agente americano directamente empenhado na luta anticomunista, integrando a partir de 1966 uma organização supranacional de contornos pouco definidos, a "World lntelligence Network Guardian", no âmbito da qual realiza espinhosas missões de espionagem. Os últimos anos de existência da série são pouco interessantes, com Johnny Hazard a acompanhar uma clara decadência dos géneros narrativos clássicos da banda desenhada americana.

Na última tira, o herói encontra-se com Flame: "Imagine que chegou o dia em que o homem másculo acaba!". E Robbins faz o seu herói acrescentar: "Assim passa uma era..."

O QUE LER

A obra de Frank Robbins, abundantemente publicada em Portugal no século XX, é muito difícil de encontrar. Algumas histórias publicadas pela Editorial Futura. Mundo de Aventuras e Jornal do Curo:

1. Johnny Hazard
2. O Canto da Sereia
3. Socorros Contestados e Mal Recebidos
4. Aventura nos Balcãs
5. Luta no Espaço
6. O Campeão de Macau
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