sábado, 16 de abril de 2011

BDpress #254: VIAGENS AOS QUADRADINHOS (III) E ANÚNCIO DE NOVA COLECÇÃO - JORNAL PÚBLICO, SUPLEMENTO FUGAS, Carlos Pessoa



MAX FRIDMAN ESPIÃO EM TEMPO DE BRASA

A suprema ambição de Max Fridtnan parece ser cuidar das flores no seu jardim suíço, longe da turbulência do mundo. Como essa condição seria a negação absoluta do seu estatuto de herói, e a história acabaria antes mesmo de começar, o protagonista resigna-se a abandonar de vez•em quando o seu pequeno éden para se aventurar nos caminhos perigosos do mundo.

O homem da série criada pelo italiano Vittorio Giardino é um espião. Mas bastará ler algumas pranchas para se perceber que o é mais por obrigação do que por convicção. Para garantir a segurança e o bem-estar da filha cede à chantagem dos serviços secretos franceses e desloca-se em missão a Budapeste.

Depois desta bem-sucedida operação concede a si mesmoumas férias em Istambul, mas os problemas começam logo que desembarca, pois a presença de Fridman não escapa à atenção dos conspiradores e espiões internacionais de todas as nações que se digladiam nesta fronteira da Europa. Mas também é por razões nobres que Max Fridman age ao trocar a segurança da sua casa suíça pelos ventos quentes e abrasadores da Península Ibérica, onde a guerra. civil espanhola atingiu o paroxismo - procura um velho amigo. perdido na voragem que opõe falangistas e republicanos, mas também socialistas, comunistas, trotsquistas e libertários.

Como todos os espiões, Fridman é um herói solitário, ensinado a contar apenas com as suas próprias forças e recursos. Isso tem como consequência travar combates desiguais com forças demasiado poderosas e tentaculares, tentando, apesar de tudo, manter uma razoável capacidade de iniciativa mesmo em contextos desfavoráveis. Sabe que nunca está inteiramente só, pois conta com antigas amizades e cumplicidades, garantindo ainda pontualmente apoios preciosos, entre os quais os de mulheres belas e inteligentes.

Parte significativa da sua energia é gasta a manter um equilfbrio, sempre precário, entre as "razões de Estado" da sua profissão e os ditames do seu particular código de honra, para conseguircumprir integralmente os seus objectivos: cumprir as missões que lhe foram confiadas e continuar vivo. O "realismo" que rege a política internacional condiciona fortemente os resultados do seu trabalho mas, como todo o herói que se preza, consegue levar as missões até ao fim, o que não é de somenos importância no contexto altamente problemático em que se movimenta.

Giardino escolheu o tempo histórico que antecede a Segunda Guerra Mundial para localizar a acção da série e tem aí uma matéria-prima quase inesgotável. "Só situei as minhas narrativas no período antes da guerra para melhor falar do mundo contemporâneo", afirmou o autor em 1986. A agudização dos antagonismos ideológicos e civilizacionais que caracterizavam o estado do planeta à data destas declarações deu lugar a acontecimentos que mudaram o rosto do mundo e das nações nestes últimos 25 anos. No entanto, bem vistas as coisas, pode dizer-se que pouco ou nada mudou no que há de mais essencial na condição humana: é por isso que Max Fridman consagra todas as energias a viver num mundo regido pela violência, e onde a morte, tão temida e exorcizada, continua a ser moeda corrente nas relações entre poderes e interesses quase sempre antagónicos.

O QUE LER

Os cinco álbuns da série estão inéditos em português – o primeiro será editado na coIecção do Público Os Incontornáveis da BD –, mas podem ser lidos numa excelente edição francesa das Éditions Glénat.

1. Rhapsodie Hongroise
2. La Porte d'Orient
3. No Pasarán
4. Rio de Sangre
5. Sin ilusión
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CUTO – AVENTUREIRO CONTRA O FRANQUISMO

Raramente a vida dos criadores está à altura das aventuras dos seus heróis. Mas há casos em que a realidade ultrapassa de longe a capacidade efabulatória da ficção, desafiando os limites da imaginação. É o que acontece com Jesús Blasco. Nascido em Barcelona no ano de 1919, tinha apenas 16 anos quando ganhou o primeiro prémio de desenho num concurso promovido pela revista Mickey. Começou em 1935 a trabalhar profissionalmente nas principais publicações de "historietas" da época. Entre elas estava Pocholo y Boliche, onde surgiu pela primeira vez Cuto, formando parte dos protagonistas da série Cuto, Gurripato y Camarilla.
O começo da guerra civil espanhola (Julho de 1936) interrompeu abruptamente esta trajectória, pois Jesús Blasco foi chamado às fileiras e integrou a "Quinta dei Biberón", um contingente militar do exercito republicano para adolescentes. No final da guerra, em 1939, foi um dos muitos milhares de republicanos que fugiram para França.

Sobreviveu às duríssimas condições de vida nos campos de refugiados, desenhando para os guardas franceses a troco de comida. Em 1940, o pai conseguiu tirá-lo do campo de refugiados e regressou a Barcelona, onde viveu quase toda a sua vida (morreu em 1995).

Nas terríveis condições do pós guerra civil - Blasco nunca mais o esqueceu e em 1983, numa entrevista que nos deu em Lisboa, falava sombriamente da fome e muita miséria experimentadas pela população – arranjou trabalho como director artístico na Editorial Plaza, realizando também capas para as publicações das editoras Molino e Clíper. A convite de Consuelo Gil, começou a colaborar no semanário Chicos, onde surgiriam as suas criações mais importantes. Foi para essa publicação que recuperou Cuto nos anos 1940, transformando-o num jovem aventureiro, corajoso e generoso, que rapidamente conquistaria um lugar único na história da banda desenhada espanhola.

É nas duas narrativas de maior fôlego - Tragédia no Oriente e Cuto no Domínio dos Sioux, ambas a cores, embora tenham sido comummente publicadas a preto e branco - que o talento e virtuosismo de Blasco atingem um ponto culminante. O protagonista é um rapaz que lembra fisicamente o actor americano Mickey Rooney, mas com uma maturidade que desmente o ar juvenil. É menor deidade, mas um ser livre, que tem de aprender a viver num mundo de adultos, passando por aventuras em paragens muito distantes do ambiente claustrofóbico imposto pelo franquismo. Talvez por isso, as histórias de Cuto são acolhidas pelos leitores espanhóis da época com grande entusiasmo.

Há uma evidente inverosimilhança no perfil do herói, que vive situações improváveis e, em muitos casos, impossíveis. É um produto da época, desejosa de evasão, entretenimento, acção e aventura que fizessem esquecer a "ressaca" da guerra civil. Mas há uma profunda maturidade gráfica etemática nas histórias de Cuto. Oremate onírico de Cuto no Domínio dos Sioux - a "inspiração" de Salvador Dali traduz-se em pranchas de uma modernidade que ainda hoje surpreende - faz esquecer o esquematismo maniqueísta na representação dos índios. E a exploração redutora do "perigo amarelo" em Tragédia no Oriente - uma moda dominante na época que viria a ser mais tarde o tema de O Segredo do Espadão, primeira aventura da série belga Blake e Mortimer -, cede o passo à brilhante metáfora sobre a violência e o poder totalitários, ironicamente publicada na Espanha falangista dos anos 40 do século XX.

O QUE LER

As aventuras de Cuto, quase todas publicadas em Portugal nos anos 1970-80, são muito difíceisde encontrar. Estas três são indispenstlveis:

1. Tragédia do Gnente
2. Crime Mundial Inc.
3. Cuto no Dominio dos Sioux
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JONATHAN O FALSO CONTEMPLATIVO

Catorze aventuras e 31 anos separam o momento em que o herói sai do labirinto da sua própria memória resgatada à amnésia no Tibete, em 1977, e a incursão birmanesa de 2008 em defesa dos presos políticos da ditadura militar.

Durante este periodo, jonathan nunca perdeu de vista o objectivo maior da sua existência individual: a viagem aparentemente errante pela geografia do planeta em busca do sentido derradeiro da vida e dos elos significativos que ligam entre si de forma inextricável todas as criaturas. Ou dito de outra forma: as viagens de jonathan tanto se inscrevem nas coordenadas significativas da geografia universal como na procura incessante dos seres humanos livres.

Seja qual for o ângulo pelo qual se vejam as histórias do herói de Cosey, o que parece animar Jonathan é, essencialmente, o prazer da descoberta do que está para além do acidental e do efémero, numa demanda que lhe afina a percepção do que é relevante e, por essa via e nesse momento, o transporta para uma outra dimensão de consciência.

Para uma obra tão singular no, panorama da criação europeia em banda desenhada, Cosey desenvolveu um grafismo único e inconfundivel, quente e afectivo, onde a cor assume uma importância crucial.

No contexto desta série, os Himalaias e a cultura tibetana destacam-se claramente. Cosey evidencia um franco prazer em partiIhar com os leitores atmosferas e ambientes que tanto são dos personagens como dos vastos espaços, entre os quais a imensidão das montanhas mais altas do mundo. Há também, como, é realçado frequentemente, algo.de autobiográfico nesta criação, como se Jonathan fosse uma espécie de "alter-ego" do inquieto artista suíço (identificação que, diga-se de passagem, vai muito para além da mera semelhança fisica entre criador e criatura).

Do interesse do artista pelo Tibete - "talvez em virtude do meu gosto pela montanha", afirmou Cosey uma vez - nasceu em boa parte a ideia de uma personagem que vive as suas aventuras tão longe. A"originalidade" do budismo tibetano (a expressão é do próprio desenhador) e as visíveis influências da exploradora Alexandra David-Neel, da filosofia vedanta, de Jung e Sri Aurobindo fazem o resto, lançando o herói numa saga que está longe de ter atingido o seu fim.

No caminho empreendido, ele vai encontrando os marcos fundamentais (fisicos e humanos) do seu próprio percurso - Drolma, a rebelde criança tibetana, a guerrilheira Shangarila, o oficial britânico reformado Starnford Westmacott, o psiquiatra autodidacta casimir Forel, Neal e o seu amigo invisível Sylvester, a coronel Jung Lan do exército chinês, a resistente birmanesa Sabei.

Depois existe Kate, uma bela jovem americana encontrada em Srinagar e reencontrada mais tarde nos Estados Unidos. "É o meu fantasma sentimental. Um jungiano diria que é a minha 'anima'", refere Cosey com humor. Frágil e doente, a jovem aspira a escapar às limitações da sua própria biologia para se entregar com energia total à busca de uma utopia que, afinal, não está fora mas dentro de cada um de nós. Envolve nessa vertigem Jonathan, que se apaixona por ela, tecendo ambos uma das mais belas histórias de amor que é possível encontrar na banda desenhada.

O QUE LER

Todos as histórias da série. Só as duas últimas foram publicadas em Portugal (colecção "Clássicos da Revista Tintin", edição Público-Asa).

1. Souviens-toi, Jonathan…
2. Et la Montagne Chantera pour toi
1 Pieds Nus sous les Rhododendrons
2. Le Berceau du Bodhisattva
3. L'Espace Bleu entre les Nuages
4. Douniacha, il y a Longtemps
5. Kate
6. Le Privilège du Serpent
7. Neal et Sylvester
8. Oncle Howard est de Retour
9. Greyshore Island
10. Celui que Mène les Fleuves à la Mer
11 La Saveur du Songrong
12. Elle ou Dix Mille Lucioles
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NOVA COLECÇÃO PÚBLICO - ASA

ROTAS E PERCURSOS DA BD, UMA COLECÇÃO PARA DESCOBRIR SETE CIDADES

Conhecer as grandes cidades mundiais na companhia dos seus heróis é o sonho de muitos fãs de banda desenhada. A partir de Junho, esse desejo pode ser concretizado através da colecção Rotas e Percursos da BD, uma iniciativa conjunta do Público e das Edições Asa (na imagem, capa da ediçao original francesa de um dos livros).

São sete guias de itinerários urbanos cuja caracteristica principal é serem ilustradas por autores de BD de renome mundial. Desenhos originais, planos das cidades vistos à lupa informação sobre os bairros históricos, dicas sobre lugares pouco conhecidos, curiosidades e histórias da cidade são alguns dos conteúdos destes livros onde as fotografias foram integralmente substituídas por ilustraões e imagens de banda desenhada.

O primeiro é dedicado a Veneza e tem a assinatura de Hugo Pratt (criador de Corto Maltese), Guido Fuga e Lele Vianello. O segundo, com sugestões de percursos em Roma. tem como autores Jacques Martin (autor de Alix), Thérese de Chérisey, Gilles Chaillet e Enrico Sallustio.

Os itinerários propostos seguem de perto as deambulações e aventuras dos dois heróis da BD nas cidades a que têm os seus nomes associados.

Os titulos seguintes já não contam com esta "boleia", mas propõem uma abordagem nova e diferente dos habituais "clichés" turisticos das cidades de Nova Iorque (Miles Hyman e Vincent Real, Florença (Nicolas de Crécy e Élodie Lepage), Marraquexe (Jacques Ferrandez e Olivier Cirendini) e Praga (Guillaume Sorel). O último titulo, da responsabilidade de François Schuiten e Chrístine Coste, é consagrado a Bruxelas a quem o primeiro dedicou uma história de BD no âmbito do ciclo Cidades Obscuras, desenvolvido com Benoit Peeters.

Carlos Pessoa
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Imagens da responsabilidade do Kuentro
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