sexta-feira, 13 de julho de 2012

MATT MARRIOTT – A ARTE ÍMPAR DE TONY WEARE – POR JOSÉ PIRES


Imagem no blogue The Crib Sheet, de Domingos Isabelinho

A ARTE ÍMPAR DE TONY WEARE 

Um autor inglês, de génio, que merece ser observado e compreendido por quem gosta de BD 

Por José Pires 

Quando mostrámos este projecto a um grupo de amigos nossos, houve alguém entre eles que opinou: "eu prefiro a tira original". Nada temos contra. Até eu preferia o formato original, a tira, pois esta série foi projectada e realizada para ser publicada num vespertino britâ­nico, o Evening News, e nos jornais, já se sabe, ou se publicam tiras diárias ou páginas dominicais. E no caso de Matt Marriott era a tira. Mas isso traria para nós um problema de resolução impossível. É que para publicarmos as tiras no seu for­mato original, a nossa publicação teria de aparecer em formato A3, e isso estragáva­-nos toda a nossa estratégia de publica­ção, que é o formato A4! Podíamos apre­sentar a coisa neste formato, claro, mas assim os esplêndidos desenhos de Tony Weare iriam aparecer muito mais reduzi­dos, diminuindo na mesma proporção a capacidade dos nossos leitores para ürarem todo o proveito da maestria deste génio da BD.

No entanto, para todos aqueles que prefe­rem Matt Marriott no esplendor das tiras originais, recomendo a edição italiana da Ed C. Conti*, que respeita a série, tal como ela apareceu no vespertino inglês. O problema é que, para além de aparecerem com textos em italiano, o formato é o A3 (só podia!), o que torna números algo incómodos para se arrumarem numa estante. Lá terá de haver uma prate­leira especial.

Mas para pu­ristas, como aquele nosso amigo, não conheço nada melhor. A Ed. C Conti tem uma colecção de Matt Marriott muito completa e bem cuidada, que fará as delícias dos apreciadores do western de qualidade. É que as his­tórias de Matt Marriott, por terem sido publicadas em jomal, também possuíam, por isso mesmo, conteúdos mais adultos, diferentes em quase tudo das histórias de álbuns, cujo público consumidor é maioritariamente o juvenil. Esta série foi publicada em Portugal, na sua esmaga­dora maioria, no Mundo de Aventuras, formato A5! Ora aqui, para que os paginado­res conseguissem encai­xar as vinhetas de Tony Weare num formato tão re­duzido, desenhos havia que eram pura e simplesmente obliterados. E na sua quase totalidade surgiam ou ampoutados ou acrescentados de forma atroz, para preencherem páginas minúsculas, para as quais não haviam sido dimensionadas, roubando assim toda a magia dos maravilhosos enquadramentos que o seu autor usava para explanar as histórias de Matt Marriott! Era o exemplo mais acabado do velho ditado, “meter o Rossio na rua da Betesgal” Mas não obstante, a série obteve um sucesso notável, arregimentando uma verdadeira legião de admiradores, entre os quais eu próprio!

Só quando Jorge Magalhães tomou conta da coordenação das publicações da Agência Portuguesa de Revistas, é que Matt Marriott surgiu no seu formato original, a tira, mas mesmo assim, em tamanho A4. Sempre era melhor do que a solução anterior, mas tinha um senão: os desenhos apareciam em forma­to bem mais reduzido do que os da versão original!

Eis porque não nos restou outra solução que desmontar a tira e publicar os de­senhos num formato maior do que a ver­são do Evening News. Se é certo que se perde o detalhe da técnica narrativa da tira diária (que é diferente da publica­ção em álbum), ganha-se na superior observação que se oferece dos desenhos de Tony Weare. Quem perca um pouco de tempo a observar a maneira como ele resolvia os mais pequenos problemas de realização, vai aperceber-se da extraor­dinária genialidade do seu autor. E ga­ranto-vos que isso será um verdadeiro prazer para quem for um autêntico apre­ciador de BD. Da boa, claro, como é o caso deste western de eleição, para mim o melhor que até hoje se fez no género. Já mostrei numa intervenção anterior que Tony Weare se servia de referências foto­gráficas, inevitavelmente de fotogramas de cinema. É que aqueles enquadramentos, aquele espantoso jogo de sombras, aquelas atmosferas quase hiper-realistas são quase impossíveis de se conceberem de memória E Tony Weare tinha de esgalhar nada menos de três, diariamente, sába­dos e domingos incluí­dos! E durante mais de um quarto de século! Mas para melhor enten­derem aquilo que digo, reparem na vinheta ao lado. Os contornos do ca­valeiro em primeiro plano não existem, sendo a figura recortada pelos segundos planos, aqui, na sua maioria, o próprio céu. O mais espantoso é que, não obstante a atmosfera estar coberta de traços a toda a lar­gura, a imagem surge-nos impregnada de uma luminosidade quase ofuscante! Agora repa­rem bem na figura do cowboy em segundo pla­no: a chapada de luz que lhe bate nas costas é recortada pelas sombras intensas do lado não iluminado. Reparem na cabeça do respectivo cavalo Também ali não há linha de contorno, sendo este fornecido pelo contraste luz/sombra. Ora para obter efeitos como estes, tornava-se necessário um sério estudo prévio do que se pretendia fazer. E fazer isto com a regularidade com que Tony Weare fazia, é uma coisa de estarrecer! Não acham? Observem atenta­mente, então, os desenhos do resto da história.








Não quisemos deixar de publicar aqui o texto de José Pires que apareceu num dos Fandaventuras dedicado a Matt Marriott ainda em formato A4 (A Pista de Chisolm), de Junho de 2008, assim como duas pranchas do mesmo. Todo este material (a transcrição do texto é nossa), assim como o do nº 6 – Série Especial – com o episódio As Culpas dos Pais, de Outubro de 2009, já em formato italiano, foi “pescado” no blogue de Geraldes Lino “Fanzines de Banda Desenhada”.

Original de Tony Weare, da colecção de Domingos Isabelinho, em exposição no VIII Festival Internacional de BD de Beja'2012.

O mesmo desenho no blogue The Crib Sheet, de Domingos Isabelinho


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BIOGRAFIA DE TONY WEARE

Tony Weare (1912 - 1994)

David Ashford Tony Weare nasceu em Wincanton, Somerset, em 1 de Janeiro de 1912. Weare recordou mais tarde, que esteve sempre “entre o desejo de uma vida de acção e a cedência à sua dedicação artística”.

Fez um curso de Arte durante três anos e trabalhou, de seguida, na indústria do tabaco. Antes da guerra, publicou trabalhos nos magazines Britania, John Bull, Nash's, Pearson's, Strand and Windsor. Durante a II Grande Guerra serviu no exército como operador comunicações e depois de ter sido desmobilizado, Waere focou-se na criação de comics vomeçando a trabalhar para a Mickey Mouse Weekly, em séries como Pride of the Circus, Savage Splendour, Robin Alone e, a notável Billy Brave. Ao mesmo tempo aparece nas publicações Comet, Cow Boy Comics, The Daily Mirror e no Daily Express.

Em meados da década de 1950 foi contactado pela Agência Associated Newspaper, para iniciar uma série de western, com o argumentista Jim Edgar. O resultado foi a série Matt Marriott, publicada em tiras diárias no jornal London Evening News e que terminaria em 1977 quando Tony Weare teve de ser hospitalizado.

Tony Weare criou também comics com as biografias de Billy The Kid, Jesse James e Jack The Ripper para a Tornado, assim como realizou a adaptação de um conto de Rockwood para a Look & Learn, chegando a desenhar algumas sequências para V for Vendetta, de Alan Moore e David Lloyd, convidado por este último, por ser um grande admirador do seu trabalho.

Weare retirou-se nos anos 1980 e dedicou-se à pintura, mas incapaz de enfrentar a imobilidade crescente, suicidou-se, saltando de um cais em Porthleven, Cornwall, em 2 de Dezembro de 1994, um mês antes de completar 83 anos. Deixou um cartoon de despedida, mostrando os seus pès a aparecerem fora da água...




Originais de Tony Weare

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