segunda-feira, 23 de julho de 2012

JOBAT NO LOULETANO – 9ª ARTE – MEMÓRIAS DA BANDA DESENHADA (LVIII e LIX) –JOSÉ PIRES, DESDE MUITO NOVO, O INTERESSE PELA BD (2 e 3), por Jobat




9ª ARTE
MEMÓRIAS DA BANDA DESENHADA
(LVIII - LIX)


O Louletano, 10 a 16 de Maio 2005 

José Pires: 
DESDE MUITO NOVO 
O INTERESSE PELA BD – 2

Em meados dos anos 80, José Pires que andava já há anos a desenhar o seu Will Shannon um projecto estudado à luz do que aprendera na sua actividade publicitária - resolveu enviar fotocópi­as de várias pranchas para dez editoras francesas e belgas a fim de prospectar as hipóteses de mercado. Cinco nem sequer responde­ram. Quatro rejeitaram-no com um «o nosso quadro de colaboradores está completo» ou «o seu trabalho não se ajusta à nossa linha editorial». Mas uma, a Lombard, propôs-lhe trabalhar com um ar­gumentista belga em princípio de carreira para ver se ele se ajeitava ao estilo do Jean Dufaux. José Pires ficou encantado e aceitou e, em 6 de Agosto de 1985 via publicado o seu primeiro trabalho no lendário Tintin, a ribalta por onde passaram os mais prestigiados autores do mundo, no nº 32 - 40 année! Era um episódio completo de 16 páginas, ao qual se seguiram mais seis episódios com a mesma extensão, que formam dois álbuns! Porém Jean Dufaux, o argumentista, aborreci­do por a Lombard não pro­jectar o seu personagem, Irigo (que já merecera hon­ras de capa no Tintin por duas vezes) para pu­blicação em álbum (coisas que os leitores já vinham soli­citando havia algum tempo), bateu com a porta e tratou de arranjar tra­balho noutras editoras fran­cesas.

Apanhado sem argumentistas José Pires tratou de adaptar o conto de Ale­xandre Herculano A Morte do Lida­dor criando uma história de 10 páginas que agradaram imenso a Jean Luc Vernal, chefe de redacção do Tintin, e este, convencido pelo seu à-vontade nos ce­nários da Idade Média, tratou de lhe ar­ranjar um "scénariste", Benoit Despas, com o qual encetou uma nova carreira.

Quando da sua última entrevista, em 1992, em Bruxelas, no 5º andar do edifício Lombard, encimado com as figuras de Tintin e Milou, Vernal en­comendou-lhe nada menos de três álbuns, o que representava um esforço enorme, pois isso significava desenhar cerca de noventa e seis pranchas... e, cada prancha requeria cerca de quarenta ho­ras de trabalho! Para alguém que traba­lhava oito horas por dia numa agência de publicidade, isto traduzia-se por um ano inteirinho a trabalhar que nem um doi­do, sem fins-de-semana e nem cheirinho a férias, dormindo apenas umas escassas meia dúzia de horas por dia... mas, José Pires aceitou o incrível desafio. Infeliz­mente meses depois Vernal abandonava a Lombard, e os novos patrões, perante um mercado em recessão, rescindiam o contrato, ficando apenas a encomenda por um álbum e mais dois ou três curtos episódios sobre os Apaches.



 Irigo, argumentos de Jean Dufaux, desenhos de José Pires
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O Louletano, 17 a 23 de Maio 2005 

José Pires: 
DESDE MUITO NOVO 
O INTERESSE PELA BD – 3

No nº 13, de 30 de Março de 1993, da revista Hello Bédé que substituiu o título Tintin (proibido pela viúva de Hergé), José Pires via publicado La Danse de la Haine, o seu último trabalho no estrangeiro para o qual trabalhou sem nunca sair de Portugal (chegou a ser considerado emigrado!) enviando sempre os seus originais por via postal. A revista Hello Bédé acabou pouco depois, e, sem pré-publicação, as condições do mercado franco-belga de BD são bem menos atractivas: apenas se publicam álbuns. Mas a publicação de um álbum repre­senta um in­vesti­mento de muitos mi­lhões de francos, o que toma as editoras muito caute­losas. Por outro lado, mesmo que o autor con­siga vender um álbum, os seus pro­ventos vão estar dependentes da ti­ragem: dez por cento das vendas são para os autores. Como as tiragens normais andam entre doze e quinze mil exemplares, a verba que toca aos autores não é suficientemente atractiva para estimular um trabalho que requer muitas horas de labor.

José Pires não possui quaisquer graus académicos, nem sequer tem o primeiro ciclo do curso liceal completo porém, a sua curiosi­dade infantil sempre o estimulou a aprender mais e mais. E um autodidacta em constante renovação, aprendeu francês e inglês so­zinho e isso permitiu-lhe mesmo a tradução de meia dúzia de westerns para a editora Europa América. Possui vasta biblioteca, que não cessa de aumentar, e tornou-se um fanático por computadores gráficos, com os quais se dá maravilhosamente, fazendo com eles ilustrações para a agência Publicis, onde trabalha actualmente.

Adora cinema - do qual possui uma grande colecção de filmes em vídeo (todos os westerns de Gary Cooper, de John Wayne e de Clint Eastwood); na música, gosta de Cole Porter, Gershwin e Frank Sinatra e não aderiu à onda Rap nem ao Heavy Metal.

Na BD é fan de Rich Corben, Milo Manara, Jean Giraud (Moebius) e Michel Blank Dumont, sem perder o respeito por gigantes como Eduardo Teixeira Coelho, Fernando Bento, Vítor Peon, Tony Weare e José Luis Salinas. Dos novos autores gosta muito de Augusto Trigo e Zé Paulo Simões (o melhor cartoonista português, na sua opinião) sem nenhum desprimor para os restantes, encorajando sempre, se lhe dão ensejo para isso, os mais jovens pelos quais sente imenso carinho, respeito e devoção (tendo uma boa memória, recorda sempre as incompreensões que sofreu, quando jovem aspirante e autor).


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 Jorge Magalhães, Geraldes Lino, José Pires e Nuno Simões Nunes - no Salão de Moura 2000

Exposição "José Pires, 50 anos de BD" no Festival Internacional de BD da Amadora, 2011. 
Fotos do site de João Amaral, ver AQUI a reportagem:




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PERRO NEGRO
Benoit Despas (arg), José Pires (des)





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