quarta-feira, 5 de dezembro de 2012

MORREU JOAQUIM BENITE – O TEATRO PORTUGUÊS ESTÁ DE LUTO



MORREU JOAQUIM BENITE
O TEATRO PORTUGUÊS ESTÁ DE LUTO

Joaquim Benite esteve, de modo ligeiro, mas muito interessado, ligado à fundação da Pedranocharco Publicações. Não sendo um homem da banda desenhada, mas visceralmente do teatro como todos sabemos, sentia alguma empatia com a BD. Aceitou o meu pedido para apresentar o primeiro e segundo livros da Pedranocharco, As Aventuras de Paio Peres (O Espião e Missão em Al-Mahadan), onde ele é retratado na pele de um judeu que habitava a Al-Mahadan (Almada) moura, nos tempos da conquista de Lisboa por Afonso Henriques. Dei o nome de Yoachim Ben-Hytte à personagem, o que o divertiu imenso. Na apresentação dos livros falou longamente sobre o entrosamento de todas as culturas mediterrânicas (árabe-judaica-latina-grega) – tema que lhe era muito caro. Da última vez em que nos vimos, em 31 de Dezembro de 2010, ainda falámos de Paio Peres e de Yoachim Ben-Hytte...

Aqui fica o texto da Lusa divulgado hoje, que retrata bem Joaquim Benite. Mais abaixo ficam as páginas de As Aventuras de Paio Peres - Missão em Al-Mahadan, em que aparece a personagem Yoachim Ben-Hytte e de seguida as fotos da apresentação dos livros, na Oficina da Cultura de Almada em Outubro de 1995.
___________________________________________________

O encenador Joaquim Benite morreu nesta quarta-feira aos 69 anos. 

Ficará para a história como o fundador de uma das maiores companhias teatrais do país e de um dos mais importantes festivais de teatro da Europa.

Nascido em 1943, filho de um empresário do teatro, Joaquim Benite foi actor quando tinha 17 anos, antes de perceber que “não tinha jeito nenhum”, e depois jornalista e crítico de teatro, com passagem pelas redações de vários diários, antes de fundar, em 1970, o Grupo de Campolide.

Abandonou a crítica - porque “não tinha muito sentido escrever sobre o teatro dos outros. Se uma pessoa gosta, é fazê-lo”, defendeu, numa entrevista ao jornal i, em Julho deste ano. E foi isso mesmo que fez: estreou-se na encenação com a peça O Avançado-Centro Morreu ao Amanhecer, de Agustin Cuzzani. Sete anos depois, em 1977, o Grupo de Campolide profissionalizou-se e instalou-se no Teatro da Trindade.

No ano seguinte, saiu de Lisboa e mudou-se para Almada. Achou que “era bom ir para a periferia” por “uma razão estética e uma cívica”. Começou a fazer teatro com a utópica esperança de ver os trabalhadores da Lisnave a subirem a Avenida 25 de Abril, de marmitas vazias, para se virem alimentar ao velho, e hoje antigo, Teatro de Almada, explicou ao Ípsilon em 2010. Mas cedo percebeu que essa defesa de um teatro capaz de mobilizar as massas era pouco condizente com as condições em que as pessoas viviam.

Em Almada estreou-se com Aventuras de Till Eulenspiegel, de Charles de Coster e Virgílio Martinho. A designação de Companhia de Teatro de Almada (CTA) viria mais tarde.

Em 1987, inaugurou, com a peça de García Lorca Dona Rosinha, a Solteira, o Teatro Municipal de Almada (desde 2005 instalado no Teatro Azul, edifício da autoria dos arquitectos Manuel Graça Dias, Egas José Vieira e Gonçalo Afonso Dias).

Ao longo de 40 anos de carreira, Benite encenou textos de Molière, Brecht, Lorca, Pushkin, Beckett, Shakespeare, Gogol, Eugene O’Neill, Mikhail Bulgakov, Camus, Edward Albee, Thomas Bernard, Pablo Neruda, Peter Shaffer, Nick Dear, Victor Haim, Sanchis Sinisterra, Marguerite Duras e Antonio Skármeta, entre outros.

Deu igualmente a conhecer, em estreia, autores portugueses como José Saramago, Virgílio Martinho, Fonseca e Lobo e, mais recentemente, Rodrigo Francisco, além de ter também encenado textos de outros autores nacionais, como António José da Silva e Almeida Garrett.

É autor de diversos textos para teatro, bem como de conferências e ensaios e leccionou muitos cursos de teatro. Dirigiu, até morrer, a revista de teatro Cadernos e a coleção de “Textos d’Almada”.

Criou, em 1984, e dirigiu sempre o Festival de Almada, um certame de teatro internacional que se tornou o maior acontecimento teatral realizado em Portugal, pela qualidade e quantidade de espetáculos de teatro de companhias nacionais e estrangeiras que todos os anos nele se apresentam.

Várias encenações suas receberam prémios da crítica e outros e ele próprio foi distinguido com a Medalha de Ouro de Mérito Cultural do Concelho de Almada e a Medalha de Mérito Cultural do Ministério da Cultura, além de ter sido condecorado pelo Governo francês com o grau de Cavaleiro da Ordem das Artes e das Letras e pelo rei de Espanha com a comenda da Ordem de Mérito Civil.

Quando lhe perguntaram se achava que ficaria na história, respondeu assim: “Os encenadores nunca ficam na história. Só os escritores, como o Shakespeare. Sabe, acho que vale a pena viver para nos divertirmos. Lutar por coisas, para cumprir missões, não. O teatro é um sinal de civilização que está na origem da sociedade. Até nos animais. Quando chego a casa, o meu cão faz uma dança que parece egípcia, pá. São rituais de representação. Mas o teatro não tem missão nenhuma. É uma coisa que as pessoas fazem porque gostam e as outras vêem porque lhes dá prazer”.
_____________________________________________________________






Para ler os textos clicar em cima da ilustração e depois desta aberta clicar de novo, com o botão direito do rato e depois em "abrir a imagem num novo separador" onde poderá usar a lupa.

Romeu Correia, Jorge Machado-Dias, Joaquim Benite, Louro Artur, Simões Raposo e Victor Borges.

Romeu Correia, Joaquim Benite, Maria Emília de Sousa (Presidente da Câmara Municipal de Almada), Jorge Machado-Dias, Louro Artur, Simões Raposo e Victor Borges.

______________________________________________________________




 
Locations of visitors to this page