terça-feira, 18 de dezembro de 2012

JOBAT NO LOULETANO — 9ª ARTE — MEMÓRIAS DA BANDA DESENHADA (LXXVIII e LXXIX) — A. DIAS DE DEUS SOBRE “O DEFUNTO” e EFEMÉRIDE: O PLUTO



NONA ARTE 
MEMÓRIAS DA BANDA DESENHADA 
(LXXVIII – LXXIX)

O Louletano, 2, Novembro, 2005 


Apresentamos, hoje, um texto do Dr. António Dias de Deus, o quinto de uma serie de artigos onde o autor analisa com a perspicácia e o rigor que o caracterizam, as obras de Eça de Queiroz ilustradas por E.T. Coelho, publicadas no jornal "O Mosquito", neste caso, o referente ao conto que actualmente publicamos.

Agradecendo ao autor a gentileza da publicação dos seus textos, os quais estamos certos valorizarão, sobremaneira, esta coluna de análises e memórias da Banda Desenhada, na sequência de outros autores anteriormente publicados. Boa leitura!

"O Defunto" é uma «blague» sobre a justiça e sobre a morte. Mais concretamente, sobre os conceitos de justiça e sobre as limitações da morte. E.T. Coelho exacerbou os contrastes, para que essa fantástica montagem cénica resultasse numa autêntica peça da «Commedia del Arte». Não há gelosias que sejam espessas demais para encla­usurar a mulher do senhor de Lara. Não há «duenãs» mais remelosas, nem lacaios mais abrutalhados do que os que a vigiam e acompanham à igreja.

E a esposa do senhor de Lara, como é? Tem olhos cândidos e belos, perdidos no horizonte ou recatados no regaço. Afora isso, Dona Leonor é uma figura apagada. É apenas um objecto que serve para despertar o cio ao amante e o ciúme ao marido. O artista desenha-a tão apagada como, de facto, ela é.

Quanto ao senhor de Lara, é um pobre des­vairado de barba arre­metida, em jeito de es­porão de ga­lera, que es­preita e es­pia desal­madamente a esposa, passeando com ar sonâmbulo, retorcendo a barba eriçada, receoso de empeçar com a cabeça (e ornamentos) nas cabeceiras das portas.

D. Rui, o galanteador, é diferente. Toma algumas atitudes decisivas, mas, na maioria dos casos, deixa-se arrastar pelos acontecimentos. E acontecimentos dirigidos pelo personagem principal, que deu o título à novela – «O Defunto».

O «Defunto» é um enforcado, que faz lembrar um dos enforcados do Epitáfio de François Villon:

«La pluis nous adebuées et laves/ Et le soleil dessechés et noircis / Pies, corbeaux, nous ont les yeux caves / Et arraché la barbe et les scurcils.» (A chuva descorou-nos e lavou-nos, o sol nos secou e escoreceu: pegas, corvos, escavaram-nos a barba e as sobrancelhas).

É o «Defunto» que decide como a justiça se fará, e por mão de quem. É curioso que a justiça sofra algumas distorções, em relação aos cos­tumes da época: assim, a esposa, adúltera pela letra, acabará adúltera pelo corpo; o esposo, enganado pela presunção, acabará enganado pela solução; D. Rui, frustado no «rendez-vous», será consolado no «happy-end», que lhe entregará nas mãos a bela D. Leonor.

Quanto ao segredo, aquele segredo que faz enlouquecer o senhor de Lara, e esgravatar demente o renque de goivos, por baixo da varanda, até que a morte o venha livrar das tenazes do ciúme e da dúvida, esse segredo ficará cuidadosamente guardado por D. Rui, pois o seu comparsa, o «Defunto», cumprida que foi a sua missão neste mundo, recompensada que foi, a devoção à «virgem del Pilar», con­tinuará balançando nas trevas da força, num subúrbio de Segóvia, motivo de pasmo e assombração para as gentes em derredor, pelo punhal que ostenta cravado no peito.

É esse punhal, cravado por D. Afonso de Lara, pensando atingir o peito do rival, que, no fundo, constitui a chave do segredo dessa monstruosa «blague», armada à justiça e à morte, por um actor tão lesto e genial como o «Defunto», secundado por Eça de Queiroz e Eduardo Teixeira Coelho.

NOTA – «O Defun­to» foi publica­do em 1950, no jornal infantil «O Mosquito». Al­guns anos mais tarde, foi editado, em álbum, no Brasil e, tempos depois, voltou a ser reimpresso numa revista brasileira de terror.

Revista "Spektro" #13 (1979), onde foi publicado O Defunto

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JA AGORA, UM POUCO DE PUBLICIDADE

Capa da edição brasileira de O Defunto, da Editora La Selva, 1954 e a da edição de 1983 das Edições Vega, de Contos de Eça de Queiroz

O conto O Defunto, de Eça de Queiroz adaptado para banda desenhada por Eduardo Teixeira Coelho, faz parte da trilogia – com O Tesouro e O Suave Milagre – editada (Lisboa, 1983, 1ª edição) no livro Contos de Eça de Queiroz – E.T.Coelho, pelas Edições Vega – em edição pirata, segundo Leonardo De Sá, mas que o editor nega como tal. Contos estes recolhidos, ao que parece das edições brasileiras da colecção Aventuras Heróicas, 1954, da Editora La Selva, de S. Paulo, com capas e frontespícios de Jayme Cortez, com novo texto e legendação (Leonardo De Sá e António Dias de Deus, em ETCoelho, A Arte e a Vida, Cadernos NonArte, Edições Época de Ouro, 1998). 

A 3ª edição deste livro Contos de Eça de Queiroz, edições Vega (capa aqui em baixo), encontra-se à venda na livraria Pedranocharco online - VER AQUI


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O Louletano, 8, Novembro, 2005 


Há cinquenta anos, neste preciso mês de Novembro, no início da sua quarta semana, dia 21, Roussado Pinto iniciava com apenas 19 anos a sua lide, longa, de editor e director de revistas de Histórias aos Quadradinhos, publicando "O Pluto". A admiração que nutria pelo "Mosquito" levou-o a aventurar-se naquilo que ele próprio classi­ficaria, mais tarde, como "a minha odisseia", pelas dificuldades encontradas na área da ilustração em concretizar o seu sonho: editar uma publicação o mais idêntica possível, com a revista mais querida da miudagem portuguesa, "O Mosquito", de saudosa memória.

"Inicialmente, antes de pensar no Vitor Peon para desenhar "O Pluto", pensei no António Barata, que assinava e assina ainda (felizmente!) A.Barata. Por essa altura o Peon trabalhava para "O Mosquito", e o Barata que ti­nha desenhado uns guiões de Varatojo e Or­lando Mar­ques para o "Faísca", esta­va como que «liberto». Pro­curei-o na casa onde morava – ali para a Rua do Salitre – e falei com ele. Claro que disse que sim. O Ba­rata raramente diz que não a um trabalho. O pior é o resto... O resto... quer dizer... ele fazer! Bem, co­meçou aquilo a que chamei a minha odisseia.

A partir daí quase fiquei dia e noite em sua casa, para que desenhasse a capa e algumas ilustrações. Ao fim de três semanas de trabalho, de facto, apenas íamos ainda na capa e nas três ilustrações. Não que demorasse muito tempo a criar. Nada disso. Pelo contrário: O Barata realiza com extrema facilidade. O pior, bem, o pior é ele agarrar na caneta ou no pincel.

Precisamos estar junto dele, quase em «cima» dele, quase a empurrar-lhe o braço, quase a obrigar a mão a desenhar. O que ele gosta, verdadeiramente, é de fazer toda a espécie de modelos, seja de aviões, seja do que for. Isso sim. Desenhar... bem, desenhar (repetimos, é uma espécie de «trabalhos forçados» para ele!

Com a capa na mão e as três ilustrações, tive de mudar de «ares».
Voltei-me então para o Vítor Peon, que acei­tou a tarefa. (1)

Foi de facto este ilustrador que, dando inicio a uma dupla que se repetiria ao longo de décadas – "Mundo de Aventuras" / APR; Titã / Fo­mento de Publica­ções; Parilex, etc, etc, – se encarregaria de desenhar praticamente to­das as histórias.

O texto de toda a publica­ção, excepto algu­mas novelas de Orlando Marques (JOMAR) e poucos mais, era prosa de Roussado Pinto, imitan­do o estilo amistoso de Raul Correia, n' "O Mosquito". Porém, todo o empenho de Roussado e Peon não impediram que a revista sossobrasse no seu n° 25, em 24 de Maio de 1946.

"O Pluto" não contém obras-primas.
Roussado Pinto não possuia ainda a verve que posteriormente demonstraria; Peon deixou pratica­mente todas as histórias incompletas, e nenhuma delas, fosse de cowboys, de "Tarzanismo" ou de Ficção Cientifica, parecia ser melhor do que as que já tinha desenhado para "O Mosquito". O valor de "O Pluto" é antes de ordem moral: desde os primei­ros números do ABC-zinho (1921) e O Papagaio (1935) não tinha havido outra tentativa para lançar uma revista infantil com a prata da casa..."(2)

“O Pluto” contou, na maquetagem e no retoque de ilustrações, com a colaboração de José Garcês, também ele em inicio dc carreira como ilustrador. A exemplo de "O Mosquito", “O Pluto” teve também os suplementos "Colaboração do Leitores", "Pági­na Desportiva" e "Amigas Íntimas", mais tarde "Cinderela", insertos no corpo da revista, mas por vezes destacáveis.

A aparição de “O Pluto” mereceu da parte de Raul Correia, uma irónica nota publicada n' "O Mosqui­to", a qual não obstou que ele próprio o convidasse, após o fracasso da edição a colaborar no jornal que admirava e tentara imitar. "O Pluto", é publicação rara nos alfarrabistas e preciosidade para os coleccionadores.

(1) – Roussado Pinto – Jornal do Cuto 115 (15/10/75)
(2) – A. Dias de Deus – Os Comics em Portugal – Pág. 218.


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5 e 6

Baseado no conto de Eça de Queiroz 
Desenhos de Eduardo Teixeira Coelho


 

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