domingo, 8 de junho de 2014

GAZETA DA BD (26) – NA GAZETA DAS CALDAS – REPORTAGEM X FESTIVAL DE BD DE BEJA + os #5 e #6 do BDjornaleco LANÇADOS EM BEJA

GAZETA DA BD – 26

Gazeta das Caldas, 6 de Junho de 2014

No Primeiro Fim-de Semana 
do X Festival de BD de Beja
Jorge Machado-Dias

No princípio dos anos 1990, quando se deu início ao Festival de BD da Amadora, os bedéfilos portugueses passaram a ter a sua Festa da BD, que durou sobretudo durante os nove anos em que o FIBDA esteve instalado na mítica Fábrica da Cultura. Depois, quando aquelas antigas instalações da Cometna começaram a cair de velhice, o festival mudou de poiso, aburguesou-se, institucionalizou-se e... deixou de haver Festa. Foi preciso esperar pelo ano de 2005 para, com o início dos Festivais de BD em Beja, voltassemos a ter uma Festa da BD – desta vez na acolhedora planície alentejana.

Há qualquer coisa que nos leva todos os anos a fazer esta peregrinação a Beja – herdada talvez (brinco eu), dos nossos antepassados mouros, com as suas peregrinações a Meca. Este ano o número de visitantes no primeiro fim-de-semana subiu claramente (não há ainda estatísticas) para um convívio muito especial, que nos permitiu reencontrar gente ligada à Banda Desenhada de todo o país, e não só, conversar informalmente com os autores estrangeiros convidados que deambularam por ali, numa esplanada informal, de mesa em mesa num espírito de cavaqueira permanente, onde até as sessões de autógrafos se integram.

E o espírito de entrosamento e disponibilidade dos vários agentes da BD deste país, notou-se muito particualrmente quando em 2012, devido à falta de verbas da Câmara Municipal, o Festival esteve em risco de não se realizar. Foi graças à perseverança de Paulo Monteiro e às contribuições de muitos de nós – cedendo materiais para as exposições – que, mesmo sem visitantes estrangeiros, a oitava edição foi concretizada.

A par das deambulações de cada um pelas exposições (este ano estão patentes 25), dispersas por todo o núcleo Histórico da cidade ou pela própria Casa da Cultura, o director “chefe de orquestra” Paulo Monteiro, consegue um preciso rigor nos horários predeterminados, para as apresentações de livros, repartidos com os já célebres “dois dedos de conversa” com os diversos autores convidados – sejam estrangeiros ou portugueses.

Este ano o destaque foi para os brasileiros – cinco autores em exposição: José Aguiar, André Diniz, Laudo Ferreira Jr., Laerte Coutinho e Klévisson Viana, acompanhados “no terreno” – e sem exposição este ano – por Sama (que vive actualmente no Porto). Isto com o acompanhamento internacional do francês Étienne Davodeau, do finlandês Tommi Musturi e do mexicano Tony Sandoval. Claro que o nome mais importante apresentado nesta 10ª edição do FIBDB foi o grande mestre italiano Guido Crepax (falecido em 2003), representado pelos seus filhos Caterina e Antonio Crepax.

Há uns anos atrás, os convidados do Festival (autores, jornalistas, críticos, editores, etc...) eram presenteados, na noite de sábado, do primeiro fim-de-semana, com um jantar volante no claustro do antigo convento de Nossa Senhora da Conceição, hoje Museu Rainha D. Leonor e no domingo por um almoço com os autores estrangeiros presentes, num dos restaurantes da cidade. Contudo, deixou de se servir o jantar e passou a haver um “quiosque”, designado por “tasquinha da BD”, que serve almoços e jantares a preços módicos, mesmo ao lado do pórtico exterior da Casa da Cultura. Este ano fomos brindados por um soberbo “cozido de grão” à alentejana (a que, infelizmente, faltaram coentros), que até nos fez esquecer completamente do almoço de domingo com os autores...

Destaco aqui dois ou três factos que marcaram a minha memória desta 10ª edição do FIBDB: para além do privilégio de ter podido apreciar “ao vivo” cerca de uma dezena de originais de Guido Crepax, fui conquistado pela extrema simpatia dos irmãos Crepax (Caterina fala correctamente português por ter vivido no Brasil), depois, eu que até conheço muitos autores brasileiros por via da internet, não pude deixar de me sentir cativado pela formação cultural exibida pelos autores brasileiros presentes em Beja e o seu conhecimento e amor pelos escritores portugueses – eles falam de Pessoa, Camões, Gil Vicente, Eça, etc... como parte intrinseca do seu património, com muito maior conhecimento e estima do que nós próprios, portugueses. E depois, ainda, Laerte Coutinho! Este autor – um dos maiores nomes dos quadrinhos – que foi casado três vezes e com vários filhos, decidiu, quase aos sessenta anos, assumir a homossexualidade que sempre sentiu latente e tornar-se mulher de facto!!! Para mim foi um choque meio incrédulo – porque o conheci como homem – no Festival da Amadora em 2001. Mas a surpresa tornou-se fascínio, por perceber que ele (ela) libertou, não só a sua sexualidade, como a própria criatividade – foi um grande prazer vê-lo(a) desenhar o autógrafo que me ofereceu. E foi muitíssimo interessante ter assistido aos seus “dois dedos de conversa” na Bedeteca de Beja, que me mudaram radicalmente o paradigma (e aceitação) do que é a transexualidade. 

Obrigado Laerte!

Podem ler no blogue igay.ig.com.br, aqui: http://igay.ig.com.br/2014-03-11/laerte-gostaria-de-nao-ter-renegado-minha-homossexualidade-por-40-anos.html a entrevista de Laerte Coutinho sobre a sua mudança de sexo.

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Nota: Segundo informação de Manuel Espírito Santo, a exposição de originais de Guido Crepax no X FIBDB teve a colaboração e apoio da Invicta Indie Arts, que ajudou o Festival a ter em exposição 18 originais de Crepax (e não uns 10 como dizemos no texto), assim como os tributos feitos à Valentina de Crepax por autores nacionais e estrangeiros.
Pode ser visto aqui: http://invictaindiearts.blogspot.pt/2014/06/exhibition-of-iconic-comics-character.html o post do blogue da Invicta Indie Arts dedicado à exposição e fotos dos filhos de Crepax em Beja.

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O autógrafo de David Lloyd - o resultado em baixo:


"Dois dedos de conversa" com Laerte Coutinho...


Manuel Espírito Santo, Caterina Crepax, Antonio Crepax e Sama em "Dois dedos de Conversa"

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LANÇADOS EM BEJA OS BDjornalecos #5 e #6 
MAIS A EDIÇÃO ESPECIAL 
DE "O REGRESSO DE VALENTINA" 

A história de 4 páginas de O Regresso de Valentina, de Machado - Um Tributo a Guido Crepax, foi publicada no fanzine Eros #10, de Geraldes Lino, em 2007

Caterina Crepax e Antonio Crepax com os BDjornalecos e a edição de "O Regresso de Valentina"...

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