sexta-feira, 13 de junho de 2014

X FESTIVAL INTERNACIONAL DE BD DE BEJA 2014 (10) – AS EXPOSIÇÕES (9): COMIX4= + ANA BISCAIA



MUSEU JORGE VIEIRA - CASA DAS ARTES
 | ANA BISCAIA | Portugal


ANA BISCAIA
André Azevedo

O trabalho gráfico de Ana Biscaia para A Cadeira Que Queria Ser Sofá (Lápis de Memória, 2012), livro com textos do brasileiro Clóvis Levi, professor e crítico de teatro infantil, foi premiado em 2013 na 17ª edição do Prémio Nacional de Ilustração porque, segundo o júri, a autora conseguiu transgredir nos "alinhamentos habitualmente impostos pela composição e paginação gráfica c tipográfica". É por isso, mas não só, justa merecedora de uma exposição individual neste X Festival Internacional de Banda Desenhada de Beja.

Ana Biscaia (Figueira da Foz, 1978) formou-se em Design de Comunicação pela Universidade de Aveiro e fez um mestrado em Ilustração na Konstfack University College of Arts, Crafts and Design, em Estocolmo, e é precisamente este percurso que dotou a autora da atitude analítica e critica que se espera do acto de comunicar graficamente e com um determinado objectivo, neste caso adaptar visualmente três textos que perpetuam o legado dos clássicos contos morais infantis (Charles Perrault, Jacob e Wilhelm Grimm, Aesop, Lewis Carroll ou mesmo James Janeway com o seu A tokenfor children: being an exact account ofthe conversión, holy and exemplary lives andjoyful deaths, of several young children), e isto com um objectivo bem específico: através da personificação de objectos ou seres irracionais, o Sol, um bombom, uma cadeira, Clóvis Levi tenta desmistificar a estranheza e a incredulidade que o carácter permanente da morte provoca nas crianças.

Um Espanto Feliz, o conto preferido de Ana Biscaia pela analogia com a situação actual no nosso país, "O Sol, vendo um reino sem crianças e sem jovens, decidiu nunca mais aparecer ali. Então, caiu a noite eterna.", e isto porque o rei Peloponeso, amargurado pela morte de Carolina, a sua única filha, decide Proibir de forma irracional, acto este ainda bem presente na sociedade contemporânea e também sempre carregado de morte, de término de algo por castigo ou por medo. Em O Piano de Calda, um jovem bombom aguarda ansiosamente por ser escolhido, sair da caixa e conhecer o mundo, mas o destino final "Não é passeio, é morte" diz-lhe "um chocolate bem amargo". No terceiro conto, o mais alargado e o que dá nome ao livro, A cadeira que queria ser sofá, ficamos a conhecer as angústias de uma cadeira de madeira antiga, que sonha em ser um confortável e colorido sofá, porque agora, tal como a sua dona original, a bisavó Clotilde, já é considerada velha, feia e inútil.

Três contos cujas palavras são apropriadas graficamente por Ana Biscaia, co-autora de pleno direito nesta obra, integrando-as em pranchas de forte carga plástica, criadas através da utilização de grafite e diversas tintas, pincéis, colagens, lápis de cor, de cera e de óleo e recorrendo a técnicas de pintura, de stensil e graffiti, algures entre Basquiat e Cy Twombly, e com as páginas a funcionarem como um todo, aproximando-as mais da banda desenhada "alternativa", de um scrapbook ou de um livro de artista, do que do tradicional livro para crianças.

Temos agora aqui a oportunidade de apreciar in loco todo este original e desafiante projecto de Ana Biscaia.


E porque a nossa máquina fotográfica já estava a sentir-se mal, com falta de "alimento eléctrico", complementamos este post com fotos da Exposição de Ana Biscaia no Museu Municipal Santos Rocha da Figueira da Foz em Abril passado...


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INSTITUTO POLITÉCNICO DE BEJA | COMIX4= 
| Alemanha / Itália, Argentina / Eslovénia, Austrália / Letónia, Canadá / Letónia, Chile / Portugal, Dinamarca / Finlândia, França, Grécia / Finlândia / Reino Unido, Itália / Reino Unido, Malta / Reino Unido, México, Quénia / Itália. Roménia / Hungria, Rússia / Bulgária e Turquia / Suécia.

Com Amanda Baeza (Chile / Portugal), Angela Wanjiku Njoroge (Quénia / Itália), Camilo Collao (França), Carlos G. C. Medina (México), Corsino (Argentina / Eslovénia), Dmitry Yagodin (Rússia / Bulgária), Dora Graur (Roménia / Hungria), Elena Vitagliano (Itália / Reino Unido), Emre Ozdamarlar (Turquia / Suécia), Evangelos Androutsopoulos (Grécia, Finlândia / Reino Unido), Laura IÇenins (Canadá / Letónia), Mari Ahokoivu (Dinamarca / Finlândia), Miriam Klara Czapp (Alemanha / Itália), Sabine Moore (Austrália / Letónia) e Thomas Cuschieri (Malta / Reino Unido).


COMIX4=
COMICS FOR EQUALITY
David Schilter

Esta exposição apresenta um quadro intenso de uma Europa em mudança e em crescimento e, acima de tudo, em movimento. Os participantes retratam um fenómeno que os próprios conheceram em primeira mão: o da migração.

As histórias recolhidas pelo "Prémio de Banda Desenhada Inédita pela Igualdade por Autores Migrantes" "Comics for Equality Award for the Best Unpublished Comics by Authors with Migrant Backgrounds" representam a multiplicidade de formas assumidas pela migração e retratam os detalhes das vidas que os autores, ou as gerações que os precederam, deixaram para trás, bem como o que encontraram ou estão em processo de construir. O objetivo do ComiX4= Banda Desenhada pela Igualdade é estimular o diálogo intercultural, combatendo o racismo na Europa, e promover um movimento cultural contra a xenofobia entre os jovens, envolvendo os migrantes e as segundas gerações.

O projecto ComiX4= é dirigido pela associação África e Mediterrâneo (Itália), em parceria com a ONG Mondo (Estónia), a Fundação Oficina de Iniciativas Cívicas (Bulgária), ARCA (Roménia), Grafiskie stasti (Letónia) e o parceiro associado Hamelin Associazione Culturale (Itália).

Com o apoio financeiro do Programa "Direitos Fundamentais e Cidadania" da União Europeia.

NOTA: Infelizmente não nos foi possível fotografar esta exposição. Deixamos aqui a capa da revista que nos foi oferecida e algumas pranchas.


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