segunda-feira, 6 de setembro de 2010

BDpress #173: Pedro Cleto no Jornal de Notícias: OS SESSENTA ANOS DE BEETLE BAILEY (EM PORTUGAL, O RECRUTA ZERO)

Jornal de Notícias, 4 de Setembro 2010

60 ANOS DE INÉPCIA MILITAR

F. Cleto e Pina

RECRUTA ZERO, COMO É CONHECIDO EM PORTUGAL, SURGIU COMO TIRA DE BD NUMA DÚZIA DE JORNAIS

Há 60 anos, Beetle BaiIey (em Portugal, recruta Zero), eterno recruta, estreava-se numa dúzia de jornais, mas o criador estava longe de imaginar o seu êxito e de como este dependeria da estreita relação com o exército americano.

Símbolo por excelência da preguiça – "não faças amanhã o que podes deixar para depois de amanhã" poderia ser o seu lema – e de uma contestação suave e desarmante ao autoritarismo da instituição militar, Bailey sobrevive até hoje, sendo publicado diariamente em centenas
de jornais por todo o Mundo.

Para o seu progenitor, Mort Walker, nascido a 3 de Setembro de 1923, em EI Dorado, no Kansas, EUA, desenhar cartoons foi sempre algo tão natural como comer ou beber. Por isso, publicou o primeiro desenho no jornal escolar aos dez anos, vendeu o primeiro cartoon aos 11, criou a primeira série regular – ''Limejuicers'' - aos13,tornou-se cartoonista profissional aos 15, dirigiu a primeira revista aos 18 (e criou durante a sua carreira outras séries famosas, como "Hi & Lois", ''Boner's Ark''ou''Betty Boop and Felix").Em1948,após cumprir o serviço militar na II GuerraMundial ("quatro anos de pesquisa", dizia ele) e terminar a formação universitária; mudou-se para Nova Iorque, onde viu recusados cerca de 200 cartoons antes de conseguir emprego como editor na DelI Publishing Company.

Dois anos depois, cansado do excesso de trabalho e do baixo salário, decidiu reciclar Spider, um jovem desengonçado e desleixado com olhos pequenos e que fumava cachimbo, que era personagem recorrente dos seus gags, tornando-o protagonista de uma tira diária, em meio universitário. A King Features aprovou o projecto, embora mudando o título para Beetle Bailey.

A estreia da tira diária foi modesta, apenas numa dúzia de jornais, que tinham aumentado para o dobro ao fim de seis meses, número insuficiente para justificar a sua manutenção, não tivesse a realidade influenciado a ficção. É que a 25 de Junho desse ano tinha-se iniciado a Guerra da Coreia. o que veio a introduzir um ponto de viragem na vida de Bailey, que a13 de Março de 1951 se alistou para servir no exército norte-americano, vivendo nos quadradinhos da tira de jornal o que experimentavam os seus pares do mundo real.

Destacado para Camp Swampy (pantanoso), o novo recruta, de quem os quadradinhos nunca mostraram os olhos, sempre sob um chapéu ou boné, viu recrudescer a sua preguiça e demonstrou a maior inépcia para a vida militar, originando as maiores confusões, provocando o caos e tomando-se no alvo preferencial do colérico (mas sentimental) sargento Orville Snorkel. Da sua vida anterior, levou apenas a namorada, destacando-se na nova galeria personagens como "Killer" Diller, um mulherengo; Otto, um cão antropomórfico, ou o General Amos Halftrack, caquéctico e alcoólico, mais interessado no golfe e na bela secretária do que nas suas atribuições.

Com eles, demonstrando um enorme sentido de humor, especial predilecção por gags puramente visuais e a capacidade de (re)inventar situações, pondo constantemente em causa a autoridade militar, Walker transformou Beetle Bailey num grande sucesso, difundido por centenas de jornais, entre os quais o próprio "Star & Strips", órgão oficial do exército.

Com o final da guerra, em1953, uma tentativa de regresso à vida civil do recruta foi imediatamente rejeitada, provocando centenas de cartas de protesto por parte dos leitores e condenando Bailey a uma eterna vida militar, se é que assim se pode designar o seu desempenho, para gáudio dos seus leitores, que se foram renovando ao longo dos anos.

E a verdade é que o próprio Exército dos EUA, apesar de tudo, se mostrou grato pela sua criação, atribuindo a Mort Walker, no ano 2000, a mais alta condecoração com que é possível distinguir um civil.

UMA VIDA COM VÁRIAS POLÉMICAS

Com a vida no exército como tema, BeetIe Bailey foi sempre uma fonte de polémica. A primeira, significativa, surgiu no final da guerra da Coreia, quando o responsável do "Star&Slrips" decidiu suspender a sua publicação. considerando-a atentatória da moral e má para a disciplina do exército, o que incendiou a imprensa em defesa da série. Quase 20 anos depois, em 1970,a situação repetiu-se, quando Walter, apesar da oposição da distribuidora, introduziu um oficial negro, o tenente Flap, sendo acusado pelos negros de os estereotipar e pelos brancos de proseIitismo, numa época em que o racismo era uma realidade nos EUA. Em1997,as atenções constantes do general HaIftrack em relação à sua sedutora secretária, Sheila Bwdey, criada em1982, levaram os movimentos feministas á acusar o autor de promover o assédio sexual.

Em todos estes momentos, pousada a poeira das críticas, a série saiu sempre reforçada junto do público e incrementou sua difusão nos jornais.

F.C.P.








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