sábado, 18 de setembro de 2010

BDpress #177: HQBRASIL – MANARA FALA DA IDA AO RIO COMICON + CRÍTICA À ADAPATAÇÃO DE AGATHA CHRITSTIE PARA BD/HQ

Como já devem ter reparado os nossos leitores, temos vindo a noticiar a actividade bedéfila (ou hquéfila, se preferirem) no Brasil e daí ressalva a fervilhante actividade, não só dos autores brasileiros, como dos organizadores de eventos – amanhã noticiaremos aqui um novo evento, desta vez na capital Brasília. Mas o que está a “mexer” agora, é mesmo o Rio Comicon, a realizar em Novembro. Depois, a edição de livros, até do mercado franco-belga – não só comics americanos –, como podemos ver no caso mais abaixo, faz-nos roer de inveja. O nosso objectivo aqui no Kuentro, é acima de tudo, fomentar o intercambio e o inter-conhecimento entre todas as BDs que se escrevem na língua de Camões, mas também pode ser que estas notícias do outro lado do Atlântico, abanem um pouco a inépcia modorrenta que grassa por cá, em vésperas do 21º FBDA.



O Globo (online), 18/09/2010

Por Télio Navega

MESTRE DO QUADRINHO ERÓTICO, MILO MANARA FALA DE SUA VINDA AO BRASIL COMO PRINCIPAL CONVIDADO DO RIO COMICON

RIO - Em 1993, enquanto Bill Clinton assumia a presidência dos EUA, Nelson Mandela recebia o Prêmio Nobel da paz e Itamar Franco governava o Brasil, acontecia, pela segunda e última vez, a Bienal de Quadrinhos do Rio de Janeiro. Muitas idas e vindas depois, a cidade volta a receber um grande evento do gênero, o Rio Comicon, que acontecerá de 9 a 14 de novembro, no Ponto Cultural Barão de Mauá - Estação Leopoldina. E a lista de convidados tem no topo um mestre do quadrinho erótico, o italiano Milo Manara, em sua primeira visita ao Brasil. Ele trará mais de cem de seus originais, que serão expostos no local do evento e, depois, seguirão para uma mostra em São Paulo, no Instituto Tomie Othake. Manara conversou com O GLOBO sobre sua vinda ao país e as parcerias quadrinísticas com Federico Fellini ("Viagem a Tulum"), Hugo Pratt ("Verão índio") e Alejandro Jodorowsky na série "Bórgia", cujo quarto e último número sai este ano, na França.

“A exposição será grande e heterogênea, tentará dar uma visão geral do meu trabalho, desde os quadrinhos até as ilustrações para imprensa e propaganda, com um olhar particular sobre minhas colaborações com Fellini” - revela o autor, nascido há 65 anos, na cidade de Luson. - Além de uma série de ilustrações de filmes, serão expostas as pranchas de "Viaggio di G. Mastorna, detto Fernet" (projeto nunca realizado por Fellini) e também a história "Senza titolo", que realizei em homenagem a ele como grande diretor. Foi ali que nossa parceria começou.

Segundo Manara, o trabalho com Fellini foi muito diferente do realizado com Pratt e Jodorowsky:
- No caso da parceria com Pratt, o "diretor" era eu, no sentido de que eu era totalmente livre para imaginar a cena que ele escrevia. No caso de Fellini, ao contrário, o "diretor" era, obviamente, ele, que tinha o controle total das histórias. Os dois foram pessoas extraordinárias, dois maestros fundamentais para minha vida e meu trabalho. E continuam sendo. Com Jodorowsky, além de ser uma colaboração que surgiu num momento de maturidade profissional para ambos, nos encontramos somente algumas vezes. E todo o trabalho em "Bórgia" foi feito à distância, de maneira diferente da relação que eu tinha com Pratt e Fellini.
Ao lado de conterrâneos como Guido Crepax, de "Valentina", e Paolo Serpieri, de "Druuna", Milo Manara foi responsável por elevar o quadrinho erótico ao status de arte, com mulheres voluptuosas e loucas por sexo:

- É graças à Barbarella de Jean-Claude Forest, à Jodelle de Guy Peellaert, e à Valentina de Guido Crepax que nasceu meu amor pela HQ. Infelizmente, os quadrinhos eróticos não têm mais a mesma força. Hoje, somos cercados, quase bombardeados, por imagens e mensagens "pornográficas" em qualquer contexto. Inclusive no telejornalismo, onde a quantidade substituiu a qualidade. Então é normal que, para o grande público, o erotismo tenha perdido parte de seu atrativo.

Mesmo já tendo produzido uma série polêmica como "Bórgia" e álbuns sexualmente ousados, com orgias, estupros, zoofilia e até uma versão em quadrinhos do "Kama Sutra", que sai em breve pela Conrad, sua editora no Brasil, Manara diz que nunca sofreu qualquer tipo de censura. Ou quase.

- Pode parecer estranho, mas eu nunca fui censurado - esclarece o autor, que lançou cerca de 50 álbuns em 41 anos de carreira e viu sua obra se transformar até em desenho animado patrocinado por uma marca de desodorante. - Pelo menos não de maneira evidente ou de forma que me obrigasse a mudar parte de minhas histórias ou desenhos. O único exemplo de censura foi a interdição de alguns dos meus livros por parte do governo da África do Sul, no tempo do Apartheid, mas dessa censura me sinto orgulhoso.

Como ilustrador responsável por algumas das personagens mais bonitas e curvilíneas dos quadrinhos, será que Milo Manara está preparado para a beleza da mulher brasileira?

- Acho que nunca se pode estar preparado para a beleza das mulheres, muito menos das brasileiras! Brincadeiras à parte, estou muito feliz de ir ao Brasil e de poder aproveitar, como inspiração, claro, as mulheres. Tenho certeza de que a "mulata carioca" poderá fazer parte de minha próxima aventura desenhada.

A organização da Comicon caberá à mesma editora que criou a Bienal de Quadrinhos do Rio de Janeiro na década de 90 e que, atualmente, produz o Festival Internacional de Quadrinhos de Belo Horizonte: a Casa 21, dirigida por Roberto Ribeiro.

- Quando fizemos esse tipo de festival, em 1991, não havia tanto público nem tantas editoras - explica Ribeiro. - Acredito que o local do Rio Comicon será um ponto de convergência entre a Zona Norte e a Zona Sul. E a estação do metrô Cidade Nova, prevista para o mês que vem, ajudará no fluxo de pessoas. A ideia é fazer o Rio Comicon anualmente e manter o FIQ.

Com apoio do Consulado Geral da França e do Instituto Italiano di Cultura, o Rio Comicon terá debates, oficinas, vídeos, exposições e convidados nacionais e internacionais. Destes, vale destacar os nomes de ingleses como o ilustrador Kevin O'Neill - parceiro de Alan Moore na série "A Liga Extraordinária" - e o escritor Paul Gravett. Ou de franceses como Etienne Davodeau e Killoffer. Enquanto que Lucas Nine e Patricia Breccia virão ao Rio para discutir a influência da obra dos pais, respectivamente Carlos Nine e Alberto Breccia, em seus trabalhos.

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Diário Catarinense (online), 18 de setembro de 2010


Por Lucas Neumann

HQ DE AGATHA NÃO PASSA O CLIMA DOS LIVROS

A primeira dama da literatura britânica chega em uma nova roupagem às estantes das livrarias. Em vez da redação, seus personagens e cenários ganharam traços e cores. Sim, duas das obras mais famosas de Agatha Christie, a rainha dos livros policiais, recebaram versões em quadrinhos: Assassinato no Expresso Oriente e Morte no Nilo. A responsável pela versão brasileira é a Editora L&PM.

Agatha Christie dispensa maiores apresentações. É a maior escritora de mistérios policiais do século 20. Com mais de 80 livros publicados, a inglesa é uma das maiores influências da literatura juvenil. É difícil crescer hoje sem ter passado por um dos mistérios da senhora, os quais se desenrolam como se fossem um jogo de “Detetive”: alguém é assassinado e o trabalho do protagonista é descobrir quem, dentre um variado elenco de personagens, é o culpado. O charme dos livros de Christie está justamente no trabalho investigativo, que instiga o leitor a formular as suas próprias teorias sobre quem é o culpado, enquanto acompanha o investigador desvendando novas pistas.

E estas duas histórias estão entre as melhores e mais conhecidas da autora. Ambas protagonizadas por Hercule Poirot. O personagem mais famoso da escritora é um detetive belga na melhor tradição de Sherlock Holmes, e sua força está no intelecto afiado e nas deduções certeiras. Poirot tem que desvendar duas mortes neste livro, uma no famoso trem Expresso do Oriente e, outra, no Egito, o que mostra a paixão de Agatha Christie por viagens e locais exóticos.

Cenários que são belamente traduzidos para os quadrinhos pelo traço de Solidor, pseudônimo de Jean-François Miniac. O quadrinista francês, e antigo pupilo de Hergé, é o autor do maior herói dos quadrinhos belgas, Tintim. Embora a influência do mestre seja muito forte na arte do livro, Solidor não consegue expressar o mesmo carisma aos seus personagens que seu professor fazia com maestria. Outro problema são as diversas páginas pesadas demais, com balões e quadrinhos comprimidos brigando por espaço, um preço a ser pago por uma fidelidade aos diálogos dos livros originais.

Enquanto Solidor consegue captar os locais e a atmosfera de Christie, o roteirista François Rivière faz questão de manter-se o mais fiel possível na escrita, no suspense e no mistério que fizeram dessas obras clássicos. Em certos momentos, Rivière o faz com sucesso, mas boa parte das duas histórias não possui o mesmo clima e nem convida o leitor a participar da investigação uma consequência de que o roteiro e a arte não casaram como deveriam.

Os livros originais, escritos na década de 1930, ainda são as melhores formas de conhecer Agatha Christie. As adaptações em quadrinhos de Assassinato no Expresso Oriente e Morte no Nilo são duas histórias tecnicamente corretas, com um artista competente e um roteirista que não se desvia do material original, mas ambos não conseguiram captar a mesma essência da sua fonte e terminaram com uma obra um tanto burocrática e distante. Ainda assim, os fãs da autora inglesa, sem dúvida, vão gostar de rever o detetive Poirot nos quadrinhos de Solidor.

Assassinato no Expresso Oriente seguido de Morte no Nilo. François Rivière. Editora L&PM, 104 págs. R$ 42.




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