quinta-feira, 23 de setembro de 2010

BDpress #180: NO PÚBLICO, SUPLEMENTO P2 - PAUL CONRAD, A PENA AGUÇADA DO CARTOONISTA DO LOS ANGELES TIMES, PAROU DE ENFURECER PRESIDENTES AMERICANOS NO DIA 4 DE SETEMBRO PASSADO.



1924-2010 – PAUL CONRAD, UMA PENA AGUÇADA

Enfureceu presidentes (Nixon colocou-o na sua "lista de inimigos"), a classe económica, políticos, artistas. Lutou sempre em nome do homem comum e contra os que considerava serem protectores dos ricos e privilegiados. Paul Conrad morreu com 86 anos, a 4 de Setembro, e os seus desenhos deram protagonismo ao Los Angeles Times ao longo de 30 anos.

Por James Rainey

Presidentes de câmara, governadores e presidentes tremiam com a perspectiva de aparecerem no resultado final do trabalho da aguçada pena de Paul Conrad, mas muitos sul-californianos tinham nele a sua primeira paragem quando folheavam o L. A. Times, o jornal que foi a sua principal casa durante quase 30 anos.

Conrad ganhou três Prémios Pulitzer, um feito apenas alcançado por outros dois cartoonistas na era pós-Segunda Guerra Mundial, conseguindo, ao longo de mais de 50 anos, tanto entusiasmar como enfurecer os seus leitores, com um posicionamento político inequivocamente de esquerda e um estilo gráfico de um preto e branco selvagem.

Enquanto muitos outros cartoonistas se ficavam pelo confortável ou pelo extravagante, Conrad "especializou-se em austeridade, lamento, agoiro e setas directamente dirigidas ao coração", escreveu o ex-director do L.A. Times Shelby Coffey III. O cartoonista, que em pessoa era exuberante e ruidoso, e muitas vezes blasfemo, via-se a si próprio como um defensor do cidadão comum e apreciava o combate contra aqueles que ele considerava serem os protectores dos ricos e dos privilegiados.

Os seus alvos mais famosos e duradouros revelaram-se nas pessoas de dois políticos da Califórnia que chegaram à Presidência dos Estados Unidos: Richard Nixon e Ronald Reagan. Nixon, perseguido por muitos escândalos, colocou Conrad na sua "lista de inimigos" - uma designação que o cartoonista descrevia como uma das maiores honras que jamais recebera. Otis Chandler, antigo editor do L. A. Times, habituou-se a ter o pequeno-almoço interrompido por Reagan ou pela sua esposa, Nancy, furiosos por o então governador ter sido, mais uma vez, mostrado como sendo bronco, mesquinho e afastado da realidade.

"Conrad é mais do que uma lenda do cartoonismo, é uma instituição do jornalismo norte-americano", afirmou Doug Marlette, um dos muitos cartoonistas que se inspiraram no seu trabalho. "Ele é uma força da natureza; tem que se medir Conrad na escala de Richter."

Conrad adorava criar confusão. A sua justa indignação era moldada por uma educação modesta no Midwest, por uma estável fé católica e pelo que um cronista uma vez descreveu como "um coração fanático".

Muitos jornalistas gostam de falar sobre a obrigação de afligir os confortáveis e confortar os aflitos. Conrad abraçou totalmente esse credo. "Nunca me acusem de ser objectivo", gostava de dizer.

Uma excepcional coerência fazia com que muitos dos cartoons de Conrad como que saltassem da página: Nixon atado, como o gigante Gulliver, por bobines atrás de bobines das suas gravações secretas na Sala Oval. A preciosa e cara nova de porcelana de Nancy Reagan na Casa Branca reflecte a imagem de uma mendiga curvada, a vasculhar no lixo. O presidente Jimmy Carter "atraído" por uma voluptuosa Estátua da Liberdade nua.


Pintar nos camiões

Paul Francis Conrad nasceu a 27 de Junho de 1924, em Cedar Rapids, estado de Iowa, e tinha um irmão gémeo, James. Os dois rapazes lembravam-se da mãe como sendo frugal mas determinada a colocá-los, bem como a um irmão mais velho, em contacto com as artes. O pai, Robert Conrad, controlava os horários de carga nos caminhos-de-ferro e por vezes não almoçava para poupar dinheiro para brinquedos ou aulas de piano para os seus filhos.

O pai Conrad gostava de arte, pintava paisagens, mas encontrou pouca saída para as suas obras no Iowa na era da Grande Depressão. Passou a sua paixão para os gémeos, incentivando-os a pintar na parte de trás dos "cartões de marcha" que trazia do trabalho para casa.

"Estávamos mais interessados em música ou em fazer confusão", relembrava Conrad. Mais tarde, Conrad diria que a sua carreira de cartoonista começara com um desenho rabiscado na parede da casa de banho da escola primária na Rua Augustin, em Des Moines. Tinha 8 anos.

"Aprendi que uma imagem vale mil palavras", escreveu Conrad, "e que, quando os poderes instituídos se irritam, perseguem sempre o cartoonista, nunca os editorialistas".

No seu primeiro emprego, no Denver Post, Conrad obteve o tipo de apoio que o iria aguentar ao longo da sua extensa carreira. O director Palmer Hoyt permitiu que o seu jovem protegido fizesse experiências e corresse riscos.

Conrad também conheceu e começou a cortejar a nova jornalista da secção de Sociedade do jornal Kay King. Durante algum tempo Kay saiu com o irmão gémeo de Conrad, quando ele visitava Denver, mas James Conrad persuadiu Paul e Kay "de que [eles estavam] mesmo apaixonados e [deviam] ficar juntos", contou mais tarde Kay Conrad.

O casamento deu a Conrad o seu mais importante e duradouro defensor, editor e crítico. Muitos outros iriam oferecer conselhos ou sugestões, mas o cartoonista declarou que apenas Kay Conrad e Ed Guthman, o editor da secção Nacional do Los Angeles Times, conseguiam persuadi-lo a abandonar uma ideia que ele estava a desenvolver.

No início dos anos 60, o Los Angeles Times estava a começar a recuperar de décadas de mediocridade. O jornal dominava política e economicamente no Sul da Califórnia, mas era alvo de chacota na maioria do resto do país devido a um descarado apoio ao Partido Republicano.

Otis Chandler assumiu o controlo como editor em 1960 e, juntamente com o director Nick Williams, decidiu contratar gente de grande talento para elevar o nível do jornal.

Os dois estavam decididos a levar Conrad para Los Angeles, mas inicialmente o cartoonista nem sequer queria ouvir falar nisso. Tinha viajado pela Califórnia na década anterior, durante a sua lua-de-mel, e considerava o L. A. Times "o pior jornal que já vira na [sua] vida".

Williams convenceu Conrad a estar presente numa entrevista, e o editor e o director impressionaram-no com a sua determinação. "A única coisa que eu disse", contava Conrad, "foi "Ninguém me diz o que eu devo desenhar"."

Quando regressou a Denver, disse a Kay para começar a fazer as malas das suas quatro crianças. "Vamos para a Califórnia", disse à sua mulher, e anos mais tarde acrescentou: "A melhor decisão que tomei na minha vida."

Fiel à sua palavra, a direcção do Times interferiu muito pouco no trabalho da sua estrela. "Otis nunca disse: "Não podes fazer isto ou fazer aquilo"", explicou Guthman.


Alvo: Nixon

Conrad considerava que o seu trabalho era condensar as complicadas questões do momento numa verdade essencial e poderosa. "Os cartoonistas políticos são idealistas, de um outro mundo", escreveu ele na introdução de um dos seus sete livros de cartoons. "Injustiças políticas, sociais e morais são consideradas como monstruosidades" que requerem que o cartoonista "afaste para o lado todas as complexidades e vá directo ao assunto básico; que pegue em suspeitas, coincidências e acontecimentos passados e os grave de forma maior que a própria vida".

O cartoonista adorava espicaçar os eleitos que acreditava terem esquecido qual era a fonte e legitimidade do seu poder. Entrou em disputa com 11 presidentes, começando com Harry Truman, mas tinha particular prazer em picar Nixon - o escândalo Watergate criou uma convergência perfeita.

A contenda com Reagan durou ainda mais, tendo começado quando o ex-actor foi eleito governador da Califórnia em 1966. Em contraste com o sombrio e ameaçador Nixon, o cartoonista muitas vezes desenhava Reagan como um bobo, o actor de filmes de série B erroneamente escolhido para o papel de homem de Estado.

Quando em 1973 pôs à votação que se efectuasse um referendo para tentar reestruturar o sistema fiscal do estado, Conrad desenhou o governador como "Reagan Hood", tirando aos pobres para dar aos ricos. O cartoon publicado na véspera da votação ajudou a diminuir as possibilidades de se efectuar um referendo para reestruturar o sistema fiscal do estado, o mais sério contratempo político de Reagan até essa altura, de acordo com Lou Cannon, biógrafo do ex-Presidente.

O então governador Reagan telefonava de manhã cedo a queixar-se, interrompendo Chandler durante o seu pequeno-almoço, segundo o historiador David Halberstam. O editor do L. A. Timesacabou por não mais atender as chamadas, mas então foi Nancy Reagan que tomou a seu cargo a tentativa de tornar menos afiado o lápis de Conrad. Mas a futura primeira-dama rapidamente desistiu, percebendo que Conrad não tinha qualquer intenção de conceder um cessar-fogo.

Mais de dez anos depois, Conrad continuava a castigar Reagan, particularmente no tocante ao aumento de gastos militares e aos cortes nos programas de apoio social enquanto era Presidente.

"Ri, e o mundo inteiro ri contigo. Chora, e terás sido o tema de um cartoon de Paul Conrad", disse o presidente Gerald Ford acerca das suas próprias batalhas com o cartoonista.

Apesar de ser um partidário inflexível que jurou que nunca votaria num republicano, Conrad não poupava os democratas. Uma imagem dos anos 70 mostra a Justiça a recusar uma boleia num descapotável com o senador Edward Kennedy, após o escandaloso acidente de carro em Chappaquiddick que vitimou uma sua jovem assistente.

Quando um cartoon brincou com a fraca audição de Reagan, o cantor Frank Sinatra escreveu uma carta em que dizia que já estava farto "da depravação e do ódio" de Conrad.

"Ele é uma vergonha para o jornalismo responsável", escreveu Sinatra. "E todos vocês deveriam ter vergonha de se esconderem por trás da Primeira Emenda [da Constituição dos Estados Unidos, que permite a liberdade de expressão], que de qualquer forma nunca foi pensada para pessoas como Conrad."

Outros oponentes de Conrad puseram-lhe processos em tribunal.

Nos 30 anos que mediaram entre ter sido contratado e a reforma em 1993, os seus patrões apenas impediram a publicação de um punhado de cartoons de Conrad. Depois de Nixon ter declarado Charles Manson como culpado de assassínio, mesmo antes de um veredicto ter sido alcançado, Conrad desenhou um Manson sorridente e com um crachá onde se lia "Nixon é o maior". O editor da página de opinião do Times Tony Day achou que era de mau gosto e cortou-a.

O L. A. Times impediu também a publicação de dois outros cartoons que mostravam os traseiros nus de líderes mundiais. Um era dos presidentes de democracias industrializadas e o outro de Saddam Hussein do Iraque, mostrando o rabo ao Ocidente antes da Guerra do Golfo. Disse Conrad: "Eu cá achei que esse último era bastante divertido, mas..."



Em família

Era na sua casa em Rancho Palos Verdes que Conrad escapava à pressão das horas marcadas para a entrega dos trabalhos e das intrigas políticas. Apreciava uma vida suburbana muito banal, jogando golfe, treinando os seus dois filhos e as duas filhas em basebol, softball e futebol.

Muitos dos apoiantes de Conrad - incluindo Otis Chandler e o seu sucessor como editor, Tom Johnson - já tinham abandonado oTimes no início dos anos 90. O cartoonista diria mais tarde que sentiu que a direcção do jornal estava a alterar-se. Sentiu uma perda de apoio.

Nunca foi dito que a detenção de Conrad em Dezembro de 1992 em Palos Verdes Estates, acusado de conduzir alcoolizado, terá posto em questão o seu lugar no jornal. (Na realidade, Conrad tomou o incidente como fonte para outro cartoon, mostrando-se a si próprio por trás de grades e argumentando na legenda: "O que me fizeram por conduzir alcoolizado deviam ter feito a Caspar Weinberger [ex-secretário de Estado da Defesa] por ter mentido ao Congresso [acerca da troca de armas por reféns no caso Irão-Contras.]")

Quando o L. A. Times se ofereceu para comprar as participações de todos os seus empregados em Janeiro de 1993, Conrad decidiu aceitar. "A maioria de nós percebeu que tinha os dias contados ali", declarou Conrad muito tempo após a sua saída. "Pensámos: "Vamos conseguir o melhor acordo possível e sair daqui assim que pudermos.""

Exclusivo PÚBLICO/Los Angeles Times
Tradução de Eurico Monchique







Imagens da responsabilidade do Kuentro, excepto a última foto, do Público.
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