sexta-feira, 10 de setembro de 2010

BDpress #175: HARVEY PEKAR CONTINUA A DAR QUE FALAR, MESMO DEPOIS DE MORTO (OU POR CAUSA DISSO). TEXTO DO SUPLEMENTO ÍPSILON DO PÚBLICO E DO JORNAL “i”


Público, suplemento Ípsilon, 03.09.2010

Por Nuno de Noronha

PEKAR PROJECT - HARVEY PEKAR DEIXOU UM PROJECTO ONLINE E QUATRO OBRAS POR PUBLICAR

Uma biografia online, um romance gráfico sobre a infância e outros três títulos estão por editar.

Talvez muito tenha ficado por dizer, por escrever e por publicar quando no dia 12 de Julho, aos 70 anos, morreu Harvey Pekar, o anti-herói americano. O autor iniciou um projecto web com uma equipa de quatro artistas gráficos. Nunca o acabou. "Seria um desperdício enorme não o terminar", garante agora Tara Seibel, um dos membros da sua equipa - ou a sua eterna polémica colaboradora. E a história começa aqui.

Irascível, inconstante, com pouco cabelo, voz rouca e de olhos esbugalhados. Harvey Pekar vivia fixado no trabalho e duvidava de si próprio. Não gostava de modernidade. Era controverso, mas demarcado por um estilo sofisticado e por uma escrita claramente avant-garde.

Hoje, apenas um conjunto restrito de pessoas pode narrar a sua derradeira história: a sua terceira mulher Joyce Brabner, que incluiu nas suas tiras, e os quatro artistas com quem trabalhou nos últimos dois anos da sua vida. Mas "nunca houve apenas uma versão de Pekar", comenta, ao "The New Yok Times", Dean Haspiel, um artista que trabalhou com autor.

Nos últimos dois anos da sua vida, Pekar trabalhou com Tara Seibel. Ele escrevia, ela ilustrava. Do trabalho em conjunto nasceram obras como "The Austin Chronicle" e "The Jewish Reviews of Books", mesmo com a oposição de Joyce Brabner, que desconfiava de Seibel.

Seibel tornou-se depois uma dos quatro artistas, com Joseph Remnant, Sean Pryor e Rick Parker, que Pekar criteriosamente convidou, em 2009, para trabalhar no "Pekar Project".
O "Pekar Project" pretendia ser um livro de memórias online, uma biografia digital que retratasse a personalidade e o trabalho do escritor. Alguns textos chegaram a ser publicados na Internet pela "Smith Magazine", uma publicação digital.

Porém, o livro nunca chegou a ser terminado, nem publicado. Seibel defende que seria um "desperdício enorme" continuar sem o fazer. O editor da "Smith Magazine", Nick Newelt, espera poder um dia concluir o projecto idealizado por Pekar e, para tal, não descarta a colaboração de Brabner. "Ela é uma escritora magnífica", comenta.

Vários outros trabalhos de Pekar estão ainda para publicar. Remnant está a terminar as ilustrações de um romance gráfico sobre a cidade onde autor cresceu. A editora Random House vai publicar brevemente mais dois livros do escritor. Uma outra editora planeia lançar uma obra sobre os pensamentos de Pekar em relação à ocupação da Palestina pelos israelitas.

Quanto ao "Pekar Project", Brabner não quer, para já, falar. A actual preocupação da viúva do autor de "American Splendor" é enterrar as cinzas do marido em Cleveland, onde Pekar fazia longas caminhadas.

Pekar morreu de cancro, que se juntou às suas crónicas asma, hipertensão e depressão. De entre os seus trabalhos mais célebres, destaca-se "American Splendor", a série de banda desenhada - que antes de tudo era uma autobiografia sobre trabalho, dinheiro e a monotonia de uma América em crise - publicada entre 1976 e 2008 e adaptada ao cinema em 2003 por Shari Springer Berman e Robert Pulcini e com Paul Giamatti no papel de Pekar.

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por Dave Itzkoff, Exclusivo “i” - The New York Times, Publicado em 07 de Setembro de 2010

HARVEY PEKAR. A HISTÓRIA INACABADA DE UM HERÓI IMPROVÁVEL

As obras que o autor deixou por publicar são agora a origem de conflitos ainda distantes de ter solução.

Depois de uma chuvada, ao descrever um passeio pelo jardim que fica em frente a sua casa em Cleveland Heights (Ohio), Joyce Brabner diz que estava à procura de um lugar seco onde se pudesse sentar e falar de como têm corrido as coisas desde a morte do marido, Harvey Pekar, o argumentista de banda desenhada. "Ele ainda está morto", diz Brabner pelo telefone, numa característica manifestação de humor negro. "Quando ele voltar e arrastar a pedra tumular, aviso-os."

É o tipo de cena, nua e crua, trivial e com um toque de sarcasmo, que Pekar poderia ter gostado de preservar na sua extensa série, "American Splendor", de autobiografias em BD, ou num dos seus muitos romances em banda desenhada.

Mas no dia 12 de Julho, quando Pekar morreu, aos 70 anos, com ele morreram as crónicas compulsivas das vidas triviais de Cleveland, que incluíam o seu quotidiano. Conhecido pela personagem irascível e cheia de dúvidas que cultivou em "American Splendor" e pela sua existência diária, Pekar, de cabelos crespos e olhar selvagem, argumentista cujas histórias eram ilustradas por outros artistas, era um candidato improvável à glória duradoura. Influência de grande peso no mundo alternativo, mas sem nunca ter atingido grandes vendas, Pekar estava sempre à espera que a sua fama de culto esmorecesse cada vez que atingia um pico.

O seu dinamismo obsessivo, aliado ao número das suas colaborações, produziram um registo bidimensional da sua vida desordenada, registada em estilos variados, por numerosos ilustradores. Agora, só a sua viúva e os artistas com que trabalhou podem narrar o seu capítulo final, um relato de sentimentos magoados e de alegações de oportunismo, não havendo nada em jogo senão o modesto legado do argumentista.

Pekar começou a ter breves encontros com a fama na década de 1970. Arquivista num hospital de veteranos de guerra, iniciou o trabalho em "American Splendor" por sugestão do cartoonista R. Crumb. Foi convidado várias vezes para o "Late Night With David Letterman" na década de 1980. Mas quando, em 2003, estreou o filme "American Splendor", com Paul Giamatti como Pekar e Hope Davis como Brabner, ficou a ser conhecido por uma nova geração.

Brabner lidava com a fragilidade de Pekar e com as suas idiossincrasias. Casada com ele durante 27 anos e tutora de Danielle, a filha adoptiva de ambos, Brabner, de 58 anos, argumentista de BD e activista política, ajudou a tratar de Pekar ao longo da sua batalha com um linfoma na década de 1990 e, depois, ao longo de uma recaída da doença. "Tentei enganá-lo, dizendo-lhe que desta vez seria como tratar de uma gripe, durante um tempo", recorda. "Mas ele sabia."

Conflitos De entre os ilustradores que começaram a trabalhar com Pekar nos seus últimos meses de vida conta-se Tara Seibel, designer gráfica de Cleveland. Seibel, de 37 anos, ainda se lembra da data exacta - 20 de Março de 2008 - em que ocorreu a conversa em que cimentaram a sua parceria. "Sentei-me perto dele," diz Seibel, "e começámos a falar como se nos conhecêssemos há muito tempo. Ele sentia-se à vontade comigo."

Seibel foi um dos quatro nomes que Pekar convidou para trabalhar no Projecto Pekar, em 2009. Era uma tentativa de transpor o seu trabalho e personagem para a internet. Tendo por website-anfitrião o da publicação online "Smith Magazine", o Projecto Pekar publicou episódios mais ou menos semanais escritos por Pekar e ilustrados por uma equipa rotativa que incluía também Remnant e os desenhadores Sean Pryor e Rick Parker.

Esperando repetir o êxito de anteriores projectos de BD, que tinham começado com os Web Comics da revista "Smith", os participantes no Projecto Pekar aceitaram o adiamento do pagamento pelo seu trabalho online, havendo a possibilidade de serem pagos se algum dia este fosse publicado em livro.

"Numa perspectiva de século XX, percebo que tal acordo possa parecer idiota", diz Jeff Newelt, editor de BD da "Smith" e também do Projecto Pekar. Mas, com trabalho árduo e sorte, diz, poderia resultar num romance gráfico capaz de "vender 60 000 ou 70 000 exemplares em vez de 5 000", ou seja, em vez de receber 50 dólares adiantados e depois mais nada".

À medida que o Projecto Pekar avançava, tornou-se evidente que a Brabner desagradava um participante em especial: Seibel, a única desenhadora e a única que trabalhava presencialmente com Pekar. Seibel diz que Brabner interrompia as conversas telefónicas que tinha com Pekar e que tentou interferir numa sessão de autógrafos em Brooklyn, em Novembro. Ninguém do círculo de artistas acredita que a relação entre Pekar e Seibel ultrapassou os limites profissionais, mas há quem compreenda que possa ter sido foco de tensão no casamento de Pekar. "Em parte, ele gostava da atenção que recebia de uma mulher mais nova e muito bonita", diz Parker, um dos artistas do Projecto Pekar. "E é natural que a Joyce não gostasse disso."

Legado Brabner diz que Pekar não deixou um testamento formal, mas que pode ter assinado um projecto de testamento que ainda pode estar soterrado nos papéis dele. Seja como for, diz ela, "só a mim cabe decidir o que é publicado, ou não, em qualquer suporte ou meio". Recusou-se a comentar uma possível edição em livro do Projecto Pekar.

Newelt escreveu, numa mensagem de correio electrónico, que esperava ainda poder "dar corpo à visão do Harvey, minha e da equipa, produzindo um magnífico livro do Projecto Pekar", acrescentando que Brabner "é também uma óptima argumentista e espero poder colaborar com ela no futuro." Seibel diz que seria "um enorme desperdício" se o livro fosse impedido de ver a luz do dia.

Seja como for, há muitas obras póstumas na calha. Remnant está a ilustrar para a Zip Comics um romance gráfico chamado "Harvey Pekar''s Cleveland". A Random House vai publicar pelo menos mais dois livros: "Huntington, West Virginia, ''On the Fly"'', e um outro, escrito em parceria com Brabner, "Harvey and Joyce''s Big Book of Marriage". E a Farrar, Straus & Giroux projectam publicar "Not the Israel My Parents Promised", ilustrado por JT Waldman, que Brabner está a ajudar a concluir.

Por agora, a viúva do autor diz que a prioridade é enterrar as cinzas de Pekar perto do local, em Cleveland, onde passeavam de namoro sobre o qual ele escreveu em American Splendor. "Já não resta nada", diz ela. "Ele agora só parece areia para gatos."

Brabner disse a brincar que iria pedir uns trocos aos fãs de Pekar para angariar fundos para uma estátua parecida com ele. "Tal como as coisas estão, diz ela, "será uma sorte arranjar dinheiro para um dos sapatos. Se for um dos sapatos dele, tem de ser um desapertado.

Depois, pensa regressar à casa onde Pekar tinha livros antigos e discos de jazz empilhados que, segundo ela, são o seu verdadeiro legado. Imaginando-se um insecto da obra de Roald Dahl "James and the Giant Peach," ela diz, "Posso bem ficar aqui sentada e mordiscá-los de dentro para fora, qual lagarta."


Primeira e última imagens, da responsabilidade do Kuentro.

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