domingo, 3 de julho de 2011

BDpress #272: MORREU ALAIN VOSS... EM 13 DE MAIO PASSADO!!! – NO JORNAL “i” DE 2 DE JULHO 2011

É incrível sabermos da morte de um ilustrador e autor de banda desenhada com a estatura (artística e histórica) de Alain Voss, ainda para mais em Lisboa, quase dois meses depois. Nem em blogues, nem em jornais, nada. Apenas no jornal “i” de ontem saiu a matéria cujo recorte apresentamos em baixo. Só sites e blogues brasileiros, dos quais deixamos alguns links no final deste post, noticiaram a morte de Voss.




Jornal “i”, 2 Julho 2011

ALAIN VOSS – A FERA DA BD 
QUE SEGUIU SEMPRE O SEU TRAÇO

Sara Sanz Pinto

AlainVoss foi um dos maiores artistas de banda-desenhada da "Metal Hurlant" (ou a bíblia das histórias de quadradinhos) e esteve na origem do grupo brasileiro Os Mutantes. Trabalhou em publicações internacionais e fez campanhas de publicidade para marcas como o Azeite Gallo ou a Nestlé. Morreu em Maio em Portugal.

Sara Sanz Pinto entrevistou familiares e amigos do artista que não perdia "um deboche cruel", segundo as palavras de Rita Lee.

Esta história é irada de mais, por isso é favor sentar-se confortavelmente e prometa que só pára no fim.

O personagem central é Alain Voss e, para ter noção da laia do bicho, o melhor será introduzi-lo através da relação com o dentista. O médico era brasileiro e “bem veadinho", segundo nos conta Adriana Pupo, a mulher de Voss. As consultas eram regulares e o senhor, amante de arte sacra, começou por encomendar alguns trabalhos ao famoso ilustrador. A dada altura, Voss, "bem doido por vezes", deixou de achar graça à brincadeira. Os temas não tinham a ver com a sua essência "meio punk", fartou- se de ser pau-mandado e resolveu cortar com a ligação à sua maneira. O "veadinho" encomenda-lhe um S. Jorge. Alain, já com seis dentes a menos, pinta-lhe um touro possante com um gay de fio dental em cima. O desenho – que chegou ao destinatário pelas mãos da serena Adriana – voltou, como era de se esperar, para trás. Não contente com a provocação, a fera repetiu a dose. Uma aguarela da serra de Sintra foi o tema pedido, talvez para enfeitar a sala de jantar, e Voss até cumpriu. "Eu disse: Alain onde é que isso é, a serra de Sintra?", recorda a mulher. "Alain, pelo menos bota lá o Castelo dos Mouros", insistiu na altura, com receio de passar outra vergonha. E assim foi. Os montes e o monumento, em pequeno, ao fundo. O resto do espaço é um pénis verde gigante, com textura de pepino e vários "veadinhos" nela enroscados. Escusado será contar o resto.

Mas porque Voss não era só rebeldia e sacanagem com atitude, talvez seja adequado enumerar já alguns dados do seu curriculo. E aos mais conservadores, que possam ficar incomodados com o português exótico, pedimos desculpa, mas vamos manter um tom tropical. Tal como Alain falava brasileiro, mas insistia em dizer "o gajo".

As suas ilustrações apareciam com regularidade em publicações como "Le Point", o "Nouvel Observateur", o "Courrier Internacional", o "Jornal de Tarde", o "Folha de São Paulo", "Les Humanoïdes Associés", a "Veja", a "Metal Hurlant" (a bíblia dos quadradinhos de vanguarda dos anos 70), entre outras. Marcou o seu traço na publicidade e fez campanhas para marcas tão familiares como a Nestlé, a Danone, a Matutano, a Nissan, a Vaqueiro, o Azeite Gallo, a Citroen ou as Salsichas Isidoro. Além disso, trabalhou com o famoso artista António Peticov, na empresa Lesma Azul, que representava a banda Six Side Rock, que deu origem aos emblemáticos Mutantes. Recorda-se das capas dos álbuns "Jardim Elétrico" (1971) e "Mutantes e Seus Cometas no País dos Baurets" (1972)? Pois é. Foi esse cara aí que as fez.



Alain morreu no dia 13 de Maio em Lisboa e aqui poucos deram pela notícia. Foi um amigo do ilustrador, que também viveu nu na ilha (mas já lá vamos), que nos alertou para a história. Contactos com São Paulo – cidade onde Alain viveu muitos anos e Hermes Ursini, também um artista de renome no Brasil, trabalha – tornaram-se regulares, mas demorámos um mês a apanhar-lhe o rasto. Provocação do além? Não sabemos. Muito menos após as inúmeras coincidências que aconteceram pelo percurso...

"Como artista, Voss era um caso sério", conta Ursini, de 59 anos, sublinhando que, "quando se debruçava sobre o papel já tinha a imagem inteira em seu cérebro, pronta e acabada". "Tive a confirmação disso no fim de sua vida, quando perdeu muitas das funções da área de linguagem do cérebro: seu desenho tornou- se irreconhecível e, como ele costumava dizer, 'estava errado'. Olhando para esses últimos desenhos, feitos nos dias de doença, não pude deixar de voltar à enigmática frase.de Leonardo Da Vinci, 'La pittura è cosa mentale'. Todos dizem que o artista 'tem a mão', mas isso é menos da metade da verdade." E porque Voss era uma força bruta da arte e desligado do lado material da vida, não soube valorizar o seu trabalho. Daí também a ausência de informação sobre ele na internet. "Faltou-lhe o sentido do mundano. Nas suas vernissages eu me divertia a vê-lo subitamente atacado por trejeitos da corte de Versalhes, dos fãs recém-conquistados, velhos e jovens", conta Ursini, cuja filha, Alice, vive em Lisboa. "Tentei pervertê-lo muitas vezes. Com bons vinhos, boa música, lindas mulheres, belas festas, bons carros, poder e glória. Oh! A Glória, essa deusa evanescente! Ele era incorruptível. Não cuidou da sua obra como ela merece."

Vida à Lagoa Azul*

Depois de uma conversa interessante com o paulista via email, fomos até casa da Adriana, no Linhó, onde Alain viveu 18 anos. Lá dentro deparámo-nos com uma verdadeira bagunça artística. Uma desorganização com sentido, onde os bordados da mãe de Voss convivem em harmonia com desenhos fálicos do filho. "Ele era radical e conservador ao mesmo tempo. Tenho fotos dele com jaquetas de couro, sem nada por baixo, com uma cara muito doida... Mas se no dia seguinte pedissem um trabalho para ele, uma ilustração, uma aguarela – porque
ele tinha todo esse background do pai e do avô, também artistas, essa parte muito técnica de execução –, ele fazia na 'perfeição", explica ao som dos Creedence Clearwater Revival, que tocam na rádio.

Nascido em França, a 29 de Abril de 1946, Alain, filho de pai alemão e mãe francesa, foi para São Paulo aos cinco anos. Lá estudou no Liceu Francês e frequentou a Escola de Belas Artes – a Fundação Armando Alvares Penteado. "Mas ele tinha esse lado meio rebelde e anos de experiência em desenho. Então, logo no primeiro ano de aulas, um dos professores falou para ele: 'Olha, você não tem nada que aprender aqui, vai à sua vida.' E foi mais ou menos isso”. E porque era uma alma desassossegada, extremista e sempre em busca de novidade, por volta dos 20 anos decidiu mudar-se para uma ilha quase deserta. ''Eu devia ter para aí uns dois anos [risos]! Mas o que ele conta, e nessa época era aquela coisa meio libertina no Brasil, acho que no mundo todo, ele falava que não era hippie, mas ele foi sim, porque foi morar na ilha de Itaparica, na Baía", afirma Adriana, de 52 anos. "Levou uma namorada francesa, que quase ficou doida com as picadas de insectos, era sempre assim, muitas histórias... Saiu a namorada, entrou a mãe, e as outras mulheres que vinham, ela já tocava fora. Era muito protectora.

Quando o conheci, tinha 25 anos, não foi fácil para mim, mas hoje eu penso que, se mãe dele não tivesse sido assim, talvez ele não tivesse sido tão disciplinado, e talvez se tivesse perdido na mão de uma louca qualquer." Construiu uma cabana "toda feita das coisas da natureza" e outra para a mãe, que por lá ficou bordando e fazendo tapeçaria. "Vivia nu, as pessoas iam lá para o visitar, para olhar, né? Foi uma atracção turística para os jovens. Pescava e comia o peixe. Aguentaram assim um ano e eu sei que foi lá muita gente." Farto da vida à Lagoa Azul, vai directo para uma agência de publicidade em França e começa a trabalhar a fundo para a "Metal Hurlant". Depois muda-se um ano para Creta, na Grécia, com a mãe e uma namorada, "na casa de uma escritora muito famosa", e passa temporadas na Jugoslávia, em Milão e Bruxelas. Em 1986 regressa a São Paulo e fica uns tempos no apartamento de Hermes.

Aqui começa o romance. A família de Adriana vivia numa casa tipo “villa” com vários apartamentos e estava a alugar um deles. Alain viu o anúncio e foi lá espreitar. "Então tocou na minha porta. Tudo começou naquele momento e 20 dias depois ele estava morando comigo. Imagina minha família, né? Na altura eu tinha uma filha de quatro anos. Era uma menina.

Quando vejo as fotos dessa altura, nossa! Fiquei logo apaixonada, acho que o lado artístico dele foi o que mais me fascinou. Ele tinha 40 anos. Meu pai! Olha, tu não faz ideia a minha família! Só depois de um ano é que eles aceitaram", recorda comovida. A mãe de Adriana acabou por se tornar muito próxima de Alain, porque tinham poucos anos de diferença e vários amigos em comum. O pai, que no início achava que ele era "um artista louco", também acabou por ser seduzido. Juntos fizeram um ateliê em casa e Adriana, "criada durante muitos anos num colégio interno de freiras italiano e educada para ser uma dona-de-casa muito prendada", aprendeu muitas coisas com Alain. Ensinou-lhe a fazer maquetes, usar o aerógrafo ou a colorir coisas e ela aproveitou os conhecimentos transmitidos para o seu trabalho.

Alain Voss com o filho Arthur, que quando nasceu tinha cara de boneco de banda-desenhada. Segundo a mulher, Adriana, os amigos de Alain quando viram o bebé disseram que era igual ao Mr. Magoo. Arthur herdou o talento multidisciplinar do pai e começou a desenhar muito cedo, por volta dos dois anos. Actualmente tem também um estúdio de tatuagens em casa da mãe para marcar com o seu traço amigos e familiares.

Adriana Pupo esbarrou de caras com Alain Voss quando tinha 25 anos. Ele tinha 40. A família dela, de origem italiana, não aceitou bem o relacionamento no início, mas Voss acabou por conquistá-los. Mudaram-se para Portugal quando Arthur ainda era bebé. Adriana trabalha actualmente em restauro e quer ficar por cá.

Voltemos à elite artística de Sampa. Adriana conta-nos como ficou revoltada quando Rita Lee reagiu à morte do marido. "Alain Voss era um artista gauche. Sarcástico e irónico. Perdia o amigo mas não perdia um deboche cruel. Tenho vários quadros da época Mutante", escreveu a cantora no seu muito seguido Twitter, a 16 de Maio, dia em que o ilustrador foi cremado. Parte das suas cinzas foram deitadas na Lagoa Azul [Serra de Sintra], porque era um local onde gostava muito de passear, e outra parte está numa urna na lareira de casa de Adriana, que mais parece um pequeno altar underground.

Mas a história com a artista do cabelo vermelho e óculos à John Lennon é de outros tempos e os dois trocaram beijos e amassos na juventude. "Foi um relacionamento bem no início da carreira dos dois. Eles entravam naqueles concursos de televisão para cantar, em filmes, e foi a mãe do Alain que costurou as roupas da Rita Lee para os primeiros espectáculos", explica "Mas durou muito pouco, porque aquela época também foi muito louca. Acho que havia uma fusão no grupo Mutantes [risos]! Havia muita mutação. Aí, quando ela começou a fazer sucesso foi a altura que ele veio para cá pela primeira vez." Arrumado o assunto, Lee começa a tocar na rádio. Adriana nem quer acreditar. Sinistro, não? Ou, para Hermes, "sincronicidade", porque como viemos a descobrir ao longo deste enredo, apesar de termos o oceano Atlântico pelo meio, pertencemos à mesma tribo.

Foi a última imagem de Voss, "entrevado no leito de morte", que mais impressionou Hermes e que nos levou a contar a sua história como deve ser. Falar da vida não é fácil, muito menos quando a pessoa que dá corpo à história já não está fisicamente presente. Preferíamos que Alain estivesse cá para nos xingar, se necessário. Mas não está e isso toma a responsabilidade mais pesada "Devo-lhe o aprendizado do escorço, uma dívida quase impagável. Deve significar bem uns 200 anos de trabalho, partindo de Cimabue até Mantegna Devi, nunca neguei e paguei como pude. Mas ele mesmo nunca cobrou", são as contas feitas por Ursini. Alain era uma pessoa generosa e muito correcta. Também apadrinhou muitos jovens artistas, que descobriu escondidos atrás de traços tímidos, e ajudou-os a encontrar trabalho. Dividia as encomendas que havia, fossem muitas ou poucas, mas deixava sempre claro que o chefe era ele. "Mesmo que isso estimulasse a desobediência e a insurreição, como óptimo exercício para os músculos abdominais". Segundo Hermes, Alain "quase provocou a dissolução momentânea de um grupo esotérico em Paris quando chegou para a reunião mensal pela primeira vez e perguntou a todos qual era a cadeira do chefe. E sentou-se nela, com um sorriso maroto no canto da boca”.

Alain e Adriana estavam juntos há dois anos quando nasce Arthur. ''Um menino grande, uns quatro quilos e meio, com uma cara de personagem de banda-desenhada. Os amigos do Alain iam lá a casa e diziam que o Arthur era igual ao Mr. Magoo", recorda a mãe babada. Pouco tempo depois, porque, apesar de Voss estar a ser muito requisitado na altura, São Paulo atravessava uma crise muito grande e havia muita violência e poluição, mudam-se para Portugal. "Acho que foi o lugar onde ele ficou mais tempo. Ele sentia sempre uma inquietação, uma necessidade de constante mudança, e acho que era esse sentimento que o fazia criar", explica. Primeiro viveram um ano no Alto das Gaeiras, perto de Óbidos, porque a avó de Adriana tinha uma enfermeira portuguesa que era daquela região e Alain, com a fixação de vir para Portugal, ficava horas falando com ela. Da provincia mudaram-se para um apartamento perto da Avenida de Roma, em Lisboa, e em seguida assentaram arraiais no Linhó, Sintra. Em Portugal, Alain foi de imediato contratado pela editora Abril e, como o volume de trabalho era imenso, Adriana ajudava-o trabalhando como sua agente.

Os prémios "Roqueiro", "iconoclasta" e "apaixonado por caça submarina", foram alguns dos termos usados por Libero Malavoglia Jr., conhecido artista de banda-desenhada no Brasil e amigo de Alain desde a década de 80, para o descrever numa opinião publicada da "Folha de São Paulo", a 16 de Junho. "Jaqueta preta, barba ruiva e aberto para papear [...] também se divertia fazendo as suas miniaturas, réplicas perfeitas de carros e motos antigas", e gostava, acima de tudo, de "seguir o seu próprio traço".

Voltamos a persuadir os mais cépticos. Além de obra feita na arte e na publicidade, Voss também recebeu várias distinções. Ganhou dois prémios HQ-Mix no Brasil, um em 1988, como "Melhor Desenhista Nacional" e outro em 1989 pela "Melhor Exposição". Pelo meio, em 1982, venceu, na Europa, no Festival d'Aix-en-Provence, o prémio "Álbum do Ano" com "Adrénaline", que reunia várias BD publicadas na "Metal Hurlant". Já em 2001, o Itaú Cultural promoveu o evento Anos 70: Trajetórias, destacando o trabalho de Voss com um dos mais marcantes da época. Outro projecto em que se envolveu foi a série "Heilman", lançada em 1978 e sobre um punk rocker a quem são prometidas sete mortes violentas. As imagens foram proibidas na Alemanha por abordarem o nazismo.



Em Março de 2007 foi homenageado com uma exposição no Estoril, promovida pela galeria Espaço Way of Arts. Enquanto Adriana nos prepara uma vitamina de manga, laranja e banana, "uma coisa bem brasileira", aproveitamos para coscuvilhar a casa de fio a pavio.

No jardim, uma estátua antiga de uma deusa qualquer em gesso à espera de restauro partilha o espaço com graffiti nas paredes exteriores feitos por Arthur, de 22 anos. Filho de peixe sabe nadar. O Voss Jr. herdou o talento multidisciplinar do pai e tem inclusive um estúdio de tatuagens improvisado à entrada da casa, onde marca amigos e cónhecidos. A própria Adriana já deu duas vezes o corpo ao manifesto e o resultado convence até os mais perfeccionistas. Arthur não está presente, não conseguiu lugar no comboio para o trazer de França. Na cozinha provamos o sumo, que mais parece uma sopa bem densa. Adriana desculpa-se e pergunta se queremos mais água. Dizemos que não, que assim está bom e repetimos a dose.

O fim

Lá em cima, no segundo piso, entramos no antigo ateliê de Alain. Sisla, uma pequena cadela simpática, da raça staffordshire, persegue-nos para snifar a novidade. "Não repara na confusão não, mas estou tentando organizar tudo", justifica- se. Voss não se preocupava muito com estas coisas. Num armário de vidro há um recado feito por Arthur quando ainda era criança - "Meu pai é muito legal, ele criou-me, brinca comigo... Ele tem 49 anos. Ele leva-me ao jardim zoológico. Ele ensina-me a desenhar". "Um dia cheguei do trabalho e ali à frente estava cheio de coisas que ele deitou fora, originais, peças de trabalho. Muita coisa eu peguei de novo, outras acabaram por ir para o lixo", recorda a bonita mulher que por vezes perdia a cabeça com o temperamento instável do marido. "Teve um dia que ele botou uma placa na porta a dizer 'vende-se'. Depois cheguei e tinha um homem de uma imobiliária para vender a casa por 100 mil euros. Ia dar a casa! Ele queria dinheiro para ir embora, né? Mas ele falava que eu é que era parva. Sei lá.. Outro dia começou a contar quantos electrodomésticos tínhamos em casa e dizia 'eu não preciso disso, eu preciso de uma cabana'. Eu falava sempre 'olha que não é bem assim' e pensava 'agora ele nu numa praia? Agora já não faz sentido'".

Foi por volta dos 60 anos que a saúde de Alain começou a piorar. "Ameaça de enfarte, um pequeno AVC, e parece que os' problemas aconteceram como uma bola de neve", conta Adriana, sublinhando que mesmo assim Voss nunca parou de trabalhar. "Ele dizia que tinha um grande terceiro olho, o olho da consciência, sempre em cima dele. O pavor dele era parar de produzir."

A nostalgia atacou-o e o artista empreendeu que queria voltar para o Brasil. Adriana era contra. Como mulher, sentia-se "amarga" por ele a querer deixar; como amiga, sabia que tal decisão só iria prejudicá-Io. A notícia foi dada de repente e de um dia para o outro Alain foi-se. Esteve lá um ano e meio. Ficou uns tempos em casa de Hermes e mesmo doente teve trabalho, agitou o mundo artístico e ainda fez uma exposição. “E depois teve um affair lá com uma senhora, foi morar em casa dela, aí não deu certo por causa da família, olha, uma confusão! Mas quando foi viver com a senhora me disse que estava muito bem. Mas ainda bem que foi assim, ainda bem que ele não tinha dinheiro, porque se tivesse ela ainda era capaz de lhe levar o pouquinho que ele tinha e ele ainda morrer mal.

O que aconteceu foi que a saúde dele piorou ainda mais e ela mandou um chute nele. Ele ficou lá muito doente. Daí a minha filha foi lá buscá-lo e levou-o para casa dela", confessa, ainda magoada com a situação. Apesar de não ser o pai biológico de Juliana, agora com 30 anos, Alain sempre a tratou como se fosse sua filha. Quando regressou a Portugal, a família cuidou dele o melhor que pôde. Mas porque o coração tem destas coisas, Adriana garante que se voltasse atrás faria tudo de novo. Alain morreu aos 65 anos, na sequência de vários AVC.

Mesmo doente, não poupava no sarcasmo. Da' última vez que-Hermes Ursini esteve com ele, há dois anos, Voss era ainda fiel ao seu estilo. Com ele apreendeu que amigo de verdade, quando tem que apunhalar, é pela frente. Perdoou-lhe mais uma vez a língua afiada. "Já sabia quem iria chorar por último. Ele não perdia a piada mesmo. Eu perdi o amigo logo depois."


(*) Nota do Kuentro: referência ao filme The Blue Lagoon, de 1980, com Brooke Shields e Christopher Atkins.
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Alain Voss, com Geraldes Lino, no 275º Encontro da Tertúlia BD de Lisboa, em 7 de Agosto de 2007
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LINKS DE SITES E BLOGUES BRASILEIROS COM A NOTÍCIA DA MORTE DE ALAIN VOSS:


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Imagens da responsabilidade do Kuentro.
Os nossos agradecimentos a Leonardo De Sá, que nos alertou para esta notícia no jornal "i" e nos enviou os links dos sites e blogues acima postados.
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