quinta-feira, 30 de junho de 2011

BDpress #271: O PORTO AOS QUADRADINHOS, PEDRO CLETO NO JORNAL DE NOTÍCIAS.



Jornal de Notícias, 24 de Junho

Ver também no blogue As Leituras do Pedro

O PORTO AOS QUADRADINHOS

F. Cleto e Pina

Se a poesia canta que do Porto “houve nome Portugal”, aqui também nasceu o primeiro grande salão nacional dos quadradinhos e, por via dele, várias obras, ricas na sua diversidade, sedutoras pela forma e conteúdo, que mostram a cidade sob diversos prismas gráficos, históricos e ficcionais.

Com um longo historial, não surpreende que as primeiras referências à Cidade Invicta nos quadradinhos sejam anacrónicas. Hermínio, herói de Borges e Moreiras, nas suas demandas passou por Portucale, onde os valorosos habitantes gritavam “Portucale ainda será uma naçon!”, e Tito e André, com as liberdades que a ficção permite, levaram Tónius, o lusitano, num intervalo dos seus confrontos com os mouros, a provar um precioso néctar, “colheita de 680”, retirado de barris encontrados num barco rabelo perto da foz do “rio Durius”.
Prancha de Tónius, o Lusitano, de Tito e André.

Deixando o humor de parte, muitas vezes as visões aos quadradinhos, em que o Porto serve de palco, privilegiam a abordagem histórica, assinada por autores de traço clássico, destacando episódios das lutas liberais ou as movimentações que levaram à implantação da República, como acontece na “História de Portugal em BD”, de Carmo Reis e José Garcês.

Mais completa, é a “História do Porto em BD”, de Luís Miguel Duarte e José Garcês, lançada quando a cidade foi Capital da Cultura, em 2001, para tornar acessível “a um público diversificado os episódios marcantes da rica história da antiga, mui nobre e sempre leal, invicta cidade do Porto". Já em “Almeida Garrett e a Cidade Invicta”, José Ruy, com a sua técnica personalizada, traça a biografia do escritor, realçando a sua ligação à cidade, retratada com rigor. O mesmo autor, em “As viagens de Porto BomVento”, de forma original combina ficção e realidade histórica, para contar o quotidiano de um piloto do Douro, nascido em 1462 e que participou nalgumas das viagens dos Descobrimentos, ao mesmo tempo que reconstrói o Porto dessa época.

Pranchas de Almeida Garret e a Cidade Invicta e de Porto Bonvento, de José Ruy

Mais recentemente, Carlos Morgado e Luís Correia em “História e Estórias do ACP” mostram edifícios emblemáticos como o palácio de Cristal ou a Torre dos Clérigos.

Esse ex-libris da cidade, de forma satírica, a cair de velho, surgia no cartaz do 1º Salão do Fanzine do Porto, em 1984, génese do primeiro grande evento regular do género dedicado aos quadradinhos no nosso país. Na sua esteira e graças ao impulso que deu também à BD local, surgiram obras de traço moderno e tom ficcional, próximo da crónica urbana, como “Jogos Humanos” e “Canção do Bandido”, ambas de Paulo Patrício e Rui Ricardo, em que o Porto é o local de vivência e de experiências de uma juventude agitada e inquieta. Ou “Stad”, resultado do desafio feito a 10 autores nortenhos “para contarem em BD uma das muitas histórias que lhes surgem do convívio diário com o Porto”, por onde passam figuras como o cauteleiro, a peixeira, o moina e o engraxador e um prato típico como a francesinha.

Cartaz do 1º Salão do Fanzine do Porto e prancha de "Stad"

Ainda no âmbito do SIBDP, não deixa de ser curiosa a visão traçada no seu diário gráfico por James Kochalka, um autor norte-americano que foi seu convidado, sensível às ruas estreitas, gradeamentos e… belas mulheres.

Maior conteúdo ficcional encontra-se em “BRK”, de Filipe Pina e Filipe Andrade, que se inicia com um atentado terrorista na baixa do Porto, e, a outro nível, “Uma viagem fantástica”, resposta de Manuel António Pina e Rui Azul ao desafio de uma das empresas que concorreu à adjudicação do Metro do Porto, para imaginarem como seria a futura rede de transportes rápidos.

Prancha inicial de BRK, de Filipe Pina e Filipe Andrade (no BDjornal #14 - Ago/Set 2006 - até ao BDjornal #22 - Jan/Fev 2008 e depois em álbum das Edições Asa, 2009) e prancha de Uma Viagem Fantástica, de Manuel António Pina e Rui Azul.

Para concluir este passeio pelos quadradinhos que têm o Porto como palco, uma história de Pitanga, publicada no Quadrado, escrita por Arlindo Fagundes e Pedro Sousa Dias, leva-nos até à Ponte Luiz I e à Ribeira, para assistir a uma reflexão amarga sobre racismo motivado por reminiscências da guerra colonial e da ditadura, cujo título evoca o hino “oficioso” da cidade: “Quem vem e atravessa o rio…”

Prancha de Quem Vem e Atravessa o Rio, de Arlindo Fagundes e Pedro Sousa Dias que foi a capa do "Fanzine Pedra Pomes de Bandas Desenhadas", nº 0, Julho 1993 (e que não passou da maqueta), tendo sido depois publicada no nº 3 - 2ª série,  da revista Quadrado, da ASIBDP (Associação do Salão Internacional de BD do Porto) em 1996...

(Caixa)
O Outro Porto

Com a íntima ligação à cidade por todos (re)conhecida, o F. C. do Porto também teve direito ao seu momento de fama… aos quadradinhos

Corria 1992 quando o jornalista Manuel Dias e o desenhador Artur Correia juntaram talentos para criar “Era uma vez um Dragão ou a história do Futebol Clube do Porto contada às crianças”.

O livro, em tom divertido e com um traço caricatural, traça o percurso portista desde as suas origens no início do século XX, até à a conquista da Taça dos Campeões Europeus, em Viena, em 1987, frente ao Bayern de Munique. E onde, como não podia deixar de ser, são reconhecíveis não só os grandes jogadores que passaram pelo clube como também treinadores como Pedroto, Morais e Artur Jorge e, claro, o seu presidente, Pinto da Costa..
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Nota do editor: No seu blogue, Pedro Cleto inclui também esta vinheta do álbum Herminio – Regresso a Portucale, argumento de Paulo Moreiras, desenho de Victor Borges, Pedranocharco Publicações, Lda., 1996.


Devo dizer que, na altura em que Victor Borges quis editar este álbum (ele era sócio da editora), discuti bastante a questão das imagens do Porto a utilizar, especialmente com Paulo Moreiras que, baseado numa conversa que teria tido com o Professor José Mattoso, queria a cidade do Porto (Portucale) representada por meia dúzia de barracas de palha. Não creio que Mattoso lhe tenha dito uma coisa destas, uma vez que a romana Portus Cale já era uma cidade importante (existindo pelo menos desde o séc. VIII A.C.), sendo inclusivamente protegida com muros (muralhas) que mais tarde foram motivo de obras importantes, primeiro por Vimara Peres em 868 e depois por D.Dinis, em 1320. Mas, sendo Moreiras o autor do argumento, tive que deixar passar aquilo que considero um erro monumental. Daí que esta vinheta, que representa Hermínio a sair de Portucale, mostre aquela meia dúzia de barracas, que não correspondem, de modo nenhum, ao Porto da época.
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