segunda-feira, 8 de agosto de 2011

JOBAT NO LOULETANO – 9ª ARTE - MEMÓRIAS DA BANDA DESENHADA (II)




9ª ARTE
MEMÓRIAS DA BANDA DESENHADA (II)


NOSTALGIA (2)
E.T.COELHO EU E "O MOSQUITO" - 2

por José Batista

(continuação da semana anterior)

O destino, querendo ser amável comigo, proporcionou-me ocasião de conhecer, anos depois – se não todos – alguns dos colaboradores portugueses de «O Mosquito». O primeiro foi Eduardo Teixeira Coelho, em 46/47, na Escola de Artes Decorativas António Arroio (EADAA).

ETC. considerado e admirado como expoente, em Portugal, nesse género de ilustrações, foi-nos apresentado por Rodrigues Alves, mestre da disciplina de litografia e desenho de letra, nessa escola. Grande amigo do ilustrador, convidou-o a estar presente, numa aula. para que os alunos o conhecessem ao vivo. Foi um encontro memorável! Com que rapidez e incrível facilidade desenhou, para pasmo de todos nós, um magnífico c soberbo cavalo como só um grande animalista, como ele, o seria capaz!

Apenas dez anos depois, em 1956, conheci pessoalmente Raul Correia. Era nessa altura director do Palace Hotel, contíguo à estação do Rossio, cm Lisboa. Fui ao seu escritório, nesse local, mostrar-lhe uma história por mim ilustrada – «O Alfrageme de Santarém» – que não chegou a ser publicada no jornal «O Pimpão», por o mesmo, onde ele então colaborava, ter acabado números depois.

Contactámos assiduamente anos mais tarde, na extinta Agência Portuguesa de Revistas, onde ele colaborava como tradutor, sendo eu na altura chefe de redacção das publicações de B.D. O seu trato educado e afável, fino, de português antigo, deixou traços perenes na minha memória. Foi poeta de rara sensibilidade – tive a honra e o prazer de lhe ilustrar um livro de poesia – e profundo conhecedor da língua portuguesa, a qual cultivava e cultuava com esmero de refinado artista. Conservo dele, gratas e inolvidáveis recordações como leitor e colega.

Regressemos a’ «O Mosquito» e, mais concretamente, a Eduardo Teixeira Coelho, o qual foi para mim, de forma incontestável, o mais famoso desenhador de B.D. português e, também, o mais internacionalmente conhecido. Nasceu nos Açores, na Ilha Terceira, a 4 de Janeiro de 1919, e desde cedo manifestou vocação para o desenho. Esquerdino, por natureza, as infrutíferas tentativas feitas para o corrigir transformaram-no em hábil ambidextro.

Aos 11 anos vem para Lisboa e, jovem ainda, começa a colaborar no Atelier de J.J. Leite, na Costa da Caparica, em publicidade e na ilustração de um curso de desenho por correspondência. Em 1936 publica uma pequena sequência humorística no «Sempre Fixe», iniciando, a partir daí, uma carreira ininterrupta e fulgurante. A sua colaboração n’ «O Mosquito», iniciou-se no n.° 341, em Junho de 42, e, o cabeçalho do Jornal – o primeiro que desenha – foi publicado no n.° 356 e, igualmente, a primeira capa no n.° 360. Rodrigues Alves e Álvaro Duarte de Almeida foram seus companheiros no início de carreira. O primeiro, durante bastantes anos professor na EADAA, onde fui seu aluno no ano lectivo de 47/48 e seguintes.

Artista polifacetado, E.T.C, concebeu cenários para os filmes de Leitão de Barros, «Camões» (1946) e «Vendaval Maravilhoso» (1949), e idealizou muitos dos carros que participaram no «Grande Cortejo Histórico de Lisboa», em 1947. Nesse mesmo ano, Emilio Freixas, num curso de desenho de sua autoria, apelida-o de «Verdadeiro Poeta de la línea» dada a enorme admiração que nutre pelo artista português.

Com o fim de «O Mosquito», em 1953, o ilustrador emigra primeiro para Espanha, seguidamente Paris, depois, Inglaterra e, novamente Paris onde durante muitos anos colabora no jornal «Vaillant».

No início dos anos 70, através das edições da «Portugal Press», Roussado Pinto, republicou vasto material seu, tanto no «Jornal do Cuto» como noutras publicações dessa editora. Em 1973 é-lhe atribuído o prémio de melhor desenhador estrangeiro no Salão Internacional de Lucca, em Itália. Porém, a partir de 80, o artista diminuiu a sua produção na área da B.D.

Em 1986 – se não erro no ano – numa curta viagem a Itália, desloquei-me propositadamente a Florença, cidade onde o artista se radicara havia anos. Lá o contactei, pesquisando o seu nome no grosso volume da lista telefónica dessa antiquíssima cidade! Contrariando os iniciais receios, foi fácil de dar com ele: era o único Coelho que dela constava. Combinado o encontro – relutantemente aceite, porque é conhecida e notória a sua timidez, (confessou-me que fora a esposa que a isso o pressionou) – encontrámo-nos num café antigo, logo a seguir ao almoço. A sua figura desenvolta, cabelo grisalho, farto, e um bigode vikink de rebeldes guias, davam-lhe um ar soberbo de antiga gravura, emoldurando um olhar de fusil, profundamente antento e perscrutador.

(conclui na próxima semana)

Legendas das imagens:

- Raul Correia e Cardoso Lopes, fundadores e directores de "O Mosquito". O primeiro, responsável pela parte literária, e o segundo, pela artística
- António Cardoso Lopes, E.T. Coelho e José Padinha, autor de inúmeras novelas, publicadas no "O Mosquito", numa foto de 1947
- Ilustração de ETC para o conto de Eça de Queiroz "O Defunto", cuja publicação teve início no n° 1157, de 26 de Julho de 1950. de "O Mosquito", e término no n° 1187, de 8 de Novembro do mesmo ano.
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Desenho de Eduardo Teixeira Coelho (imagem enviada por Jobat).

António Cardoso Lopes e Raul Correia no “avião Portugal”, na altura da saída de O Mosquito nº 30 , de 30 de Julho de 1936 – in Tiotónio – Uma Vida aos Quadradinhos, de Leonardo De Sá, 2008, Cadernos NonArte do Centro Nacional de Banda Desenhada e Imagem, Edição Bonecos Rebeldes.

António Cardoso Lopes na sua mesa de trabalho, no Brasil – in Tiotónio – Uma Vida aos Quadradinhos, de Leonardo De Sá, 2008, Cadernos NonArte do Centro Nacional de Banda Desenhada e Imagem, Edição Bonecos Rebeldes.

Mestre João Rodrigues Alves, mestre da disciplina de litografia e desenho de letra da Escola de Artes Decorativas António Arroio (foto enviada por Jobat).

 As idades de Eduardo Teixeira Coelho em fotos de épocas diferentes 
(a primeira foto foi enviada por Jobat).

As fotos abaixo, são também uma homenagem pessoal, do editor deste blogue, a Eduardo Teixeira Coelho.

Da esquerda para a direita: Dâmaso Afonso, Alberto Teixeira Coelho (que não sabíamos quem era e foi agora identificado por José Ruy) a ouvir atentamente o que dizia o irmão Eduardo Teixeira Coelho. Atrás, em pé, José Ruy e José Garcês. Em primeiro plano, Baptista Mendes. Esta foto, obtida na velha Fábrica da Cultura, durante o XI Festival Internacional de Banda Desenhada da Amadora’2000, pode considerar-se histórica, uma vez que foi a última vez que ETC esteve no Festival da Amadora e em Portugal – viria a falecer em Florença em Maio de 2005. Refira-se que esta foi também a última edição do FIBDA na Fábrica da Cultura, passando no ano seguinte para a Escola Intercultural da Amadora. Foto Arquivo Pedranocharco.

Eduardo Teixeira Coelho (de frente), na inauguração da exposição e lançamento do seu livro A Arte de Bem Navegar – Navios Europeus do Séc. XIV ao início do Séc XVI, no monumento aos Descobrimentos, em Belém, exposição essa, integrada no XI Festival Internacional de Banda Desenhada da Amadora’2000. Foto Arquivo Pedranocharco.


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Imagens da responsabilidade do Kuentro, 
excepto aquelas cujos envios estão referenciados nas legendas.
Os nossos agradecimentos a Jobat, José Ruy, Leonardo De Sá e José Manuel Vilela, 
pela colaboração na construção deste post.
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