segunda-feira, 15 de agosto de 2011

JOBAT NO LOULETANO – 9ª ARTE - MEMÓRIAS DA BANDA DESENHADA (III)


9ª ARTE
MEMÓRIAS DA BANDA DESENHADA (III)



NOSTALGIA (3)
E.T.COELHO, EU E “O MOSQUITO” - 3

por José Batista

(continuação da semana anterior)

Não recordo se no segundo encontro que tive com ET Coelho, agora em Florença – 40 anos depois do primeiro, na António Arroio – referi o anteriormente ocorrido nessa escola. Quatro décadas é muito tempo, quase uma vida. Certamente que esse longínquo contacto com a garotada, mais não terá sido que um vulgar acontecimento, de modo algum importante na sua longa carreira de artista. Para nós, alunos de Rodrigues Alves, sim; marcar-nos-ia para sempre.

Quantos, nessa noite, não sonharam com a fascinante experiência que foi conviver, pessoalmente, ainda que por alguns momentos, com alguém que na área das histórias aos quadradinhos – a chamada BD de agora – era considerado o expoente máximo em Portugal?

Tão impressa essa lição ficou em mim que, os anos entretanto transcorridos, minimamente beliscaram essa inesquecível demonstração de destreza, facilidade e elegância nos esboços então executados.

Perante ETC, todas estes considerandos me atravessaram o pensamento em fracção de segundo, ignorando o fumegar da chávena no tampo marmório da mesa de café!

Iniciado o diálogo, atraídos pelo que de comum a ambos nos unia, - uma paixão imensa pela ilustração e, no caso concreto, as histórias aos quadradinhos –, rapidamente esbatemos as barreiras normais entre quem se desconhece. Narrei-lhe sucintamente o panorama - triste na altura – desse género de arte em Portugal. Aliás, fora isso mesmo que o levara a ausentar-se, confidenciou-me.

Falei-lhe dos Artistas que ainda por cá mourejavam, alguns remando contra a maré e, a certa altura da conversa, em referência a nomes que pronunciei, exclamou com surpresa e irónica admiração: – Curioso o costume de, em Portugal, chamarem mestre mais em relação aos cabelos brancos de alguém, que..

O meu gesto de concordância com a cabeça tornou desnecessária a conclusão da frase. Após uns segundos de cúmplice silêncio, atirei: – Se lá estivesse, também o tratariam assim.

– Oh, não! Ainda bem que estou longe! – retorquiu, rápido, escondendo um sorriso maroto.
– Quer queira, quer não, – frisei, olhando-o de frente – se alguém merece essa classificação é o senhor. E acrescentei: – Essa não é só a minha opinião, a quem desde criança admiro, pois não só a mim me influenciou como também a uma geração que teria imenso orgulho em privar consigo, tal como agora o faço!

Notei que ao dizê-lo, um leve rubor lhe aflorou as faces. Seguidamente, de mansinho, voltou com elegância a sua leonina cabeça e, com disfarçada naturalidade ocultou o olhar. Assuntos vários em relação à BD, à sua estadia em Florença e às tarefas a que se dedicava, esgotaram o tempo disponível. Sem que déssemos por isso, a tarde rapidamente se escuou. Saímos do café já a noite assumava. Na rua, pedi-lhe que me indicasse onde poderia adquirir umas partituras de canções napolitanas - outra das minhas paixões na altura.

– É fácil, – disse – vamos à casa Riccordi. É aqui perto. A minha mulher compra-as lá também, pois canta no coro de uma Igreja. São para si? – perguntou-me. Que sim – respondi. Eu também canto num.

Engraçado, disse ele, sorrindo.

Saímos e acompanhou-me nas aquisições musicais.

Despedimo-nos depois, afectuosamente, como velhos conhecidos de há milénios e a sua silhueta perdeu-se, ao longe, entre o vetusto casario dessa medieva e notável cidade.

Regressando a «O Mosquito», recordo que nos anos 60, nas Escandinhas do Duque, ao Rossio, alguém queria vender um molho imenso deles – toda a primeira série, pequena – atada num maço, a um alfarrabista que ainda hoje lá está, o qual se recusou a comprá-los. Por junto, vendia-os a 5 tostões, cada. Desatou-os e pôs-se a contá-los. Eu próprio os comprei. Estavam impecáveis, ainda por abrir.

Foi a partir dessa aquisição que decidi completar a minha colecção, o que de facto aconteceu, anos depois. Já nessa altura alguns números eram difíceis de adquirir, especialmente os primeiros, com mais de 30 anos, os mais raros. Consta-me que hoje pedem 1.000$00 por exemplar e, uma colecção completa, rondará os mil e quinhentos contos! É obra!

Nesses "Mosquitos"que então comprei, vinha o tal que em miúdo folheei. O coração pôs-se-me aos pulos! Não era caso para menos, já tinham passados tantos anos!

Foi quase religiosamente que novamente o apreciei! Com que carinho o fiz! Tão grande quanto a enorme desilusão que me causou o que antes, com outros olhos, me tinha extasiado!

Os desenhos do Coelho, Peon e Freixas, continuavam estupendos, talvez até mais do que há trinta anos atrás. Porém, alguns, que nessa altura também me fascinaram, tinham perdido o encanto que em menino me cativara! Eram de facto os mesmos! Que acontecera? Nada mudara, excepto o olhar que agora os observavam. Os anos de profissionalismo tinham dado os seus frutos... e mutilado ilusões! Os conhecimentos de anatomia, técnicas, perspectiva, coloração e impressão, tinham desempoeirado os inocentes olhos de um miúdo de 8 anos!

Alguns desenhos pareciam realmente fracos, a anatomia sofrível, impressos em amarelado papel de jornal... todavia, fora o meu virgem olhar de criança que lhes tinha dado as qualidades que esses tenros anos potenciaram!

Mudam-se as «lentes» do conhecimento e o que antes foi, continuando igual, deixou de o ser!

Motivos, vários, já no Algarve – como quem mutila uma das mais caras aquisições – obrigaram a desfazer-me da colecção de «O Mosquito».

Creio que hoje talvez visse esse exemplar de maneira diferente. Não que ele tivesse mudado, mas. talvez – novamente – eu!

Capa do último número de "O Mosquito", n° 1412, saído a 24 de Fevereiro de 1953, com ilustração de E.T. Coelho, cuja história ficou incompleta

Ilustrações de E. T. Coelho, para o conto de Eça de Queiroz "O Suave Milagre" cuja publicação teve início no nº 1188 d' "O Mosquito", de 11 de Novembro de 1950, ao n° 1200 de 23 de Dezembro do mesmo ano

Ilustração de E.T. Coelho, para o conto de Eça de Queiroz, "O Tesouro" cuja publicação teve início n'"0 Mosquito" nº 1375 de 27 de Agosto de 1952, ao n° 1381 de 17 de Setembro, do mesmo ano



Eduardo Teixeira Coelho, desenhado por Jayme Cortez 

A partir da próxima semana: o Ulisses, de Jobat

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Como complemento a este artigo de Jobat, aqui ficam, de seguida, seis pranchas de Ragnar le Viking, de Eduardo Teixeira Coelho, publicadas na revista Vaillant. Estas pranchas foram recolhidas do livro ETCOELHO - A ARTE E A VIDA, de Leonardo De Sá e António Dias de Deus. NonArte - Cadernos do Centro Nacional de Banda Desenhada e Imagem, Edições Época de Ouro, 1998.


«Ragnar, le Viking» - 4º episódio. Vaillant nº 691, de 10 de Agosto de 1958.

«Ragnar, le Viking» - 4º episódio. Vaillant nº 695, de 7 de Setembro de 1958.

«Ragnar, le Viking» - 4º episódio. Vaillant nº 707, de 30 de Novembro de 1958.

«Ragnar, le Viking» - 4º episódio. Vaillant nº 727, de 19 de Abril de 1959. 
Com indicação de cor no verso.

«Ragnar, le Viking: Sur la Terre des Francs». Vaillant nº 1065, de 10 de Outubro de 1959.

«Ragnar, le Viking: Sur la Terre des Francs». Vaillant nº 1068, de 31 de Outubro de 1959.
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Imagens da responsabilidade do Kuentro.


Agradecimentos a Jobat pela cedência das páginas do Louletano e a Leonardo De Sá pelo envio da capa de "O Mosquito", que reproduzimos acima.

Nota: para se verem as imagens em tamanho maior, deve clicar-se em cima delas e, depois de abrir a nova janela, clicar com a lupa do cursor. Se quiser ver ainda maior, usar as teclas do computador "Ctrl" e "+", ou para diminuir "Ctrl" e "-".
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