quarta-feira, 19 de outubro de 2011

BDpress #295: É DE NOITE QUE FAÇO AS PERGUNTAS – UM LIVRO A NÃO PERDER. NO DIÁRIO “AS BEIRAS” E ENTREVISTA COM DAVID SOARES NO DIÁRIO DIGITAL


É DE NOITE QUE FAÇO AS PERGUNTAS

Texto de David Soares, desenhos de Jorge Coelho, João Maio Pinto, André Coelho, Daniel da Silva e Richard Câmara

É de Noite Que Faço as Perguntas é uma história que parte da cronologia e dos factos históricos pertencentes ao período da primeira república portuguesa para se apresentar como uma poderosa observação sobre a vida, a política e o modo como ambas se influenciam.

Mergulhado num regime autocrático, de natureza indefinida, em meados do século XX, um pai tenta recuperar o filho, caído no seio do partido, escrevendo-lhe as memórias que experimentou nos anos da primeira república: tempo em que o ideal de cidadania era a participação activa e não o recolhimento sob o jugo ditatorial. Escrito por David Soares e desenhado por Jorge Coelho, João Maio Pinto, André Coelho, Daniel da Silva e Richard Câmara, É de Noite Que Faço as Perguntas é, em simultâneo, um poético fresco de época, um ensaio filosófico pungente e uma banda desenhada ímpar.

David Soares é autor dos romances Batalha, O Evangelho do Enforcado, Lisboa Triunfante e A Conspiração dos Antepassados. A revista literária Os Meus Livros considerou-o «o mais importante autor português de literatura fantástica». Publicou quatro livros de contos, seis álbuns de banda desenhada e um livro de ensaio literário sobre banda desenhada. Publicado em França e em Espanha, foi premiado com dois troféus para Melhor Argumentista Nacional e uma bolsa de criação literária, atribuída pelo Instituto Português do Livro e das Bibliotecas e pelo Ministério da Cultura.

Escreve quase todos os dias no blogue cadernosdedaath.blogspot.com

"Prólogo", desenho de Richard Câmara

"É só alguém que foi à caça", desenhos de Jorge Coelho

"Oh! A República!", desenho de João Maio Pinto

"Via Polémica", desenho de André Coelho

"Rerum Novarum", desenho de Daniel da Silva

"Epílogo", desenho de Richard Câmara

Capa de Daniel da Silva

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Diário “As Beiras”, 8 Outubro 2011

A REPÚBLICA REVISITADA
É de Noite que faço as Perguntas

João Miguel Lameiras

Em termos de exposições, um dos pontos altos da edição de 2010 do Festival de Banda Desenhada da Amadora, foi a mostra dedicada ao livro “É de noite que faço as Perguntas”, projecto inserido nas comemorações do Centenário da República, em que David Soares coordena um grupo de cinco desenhadores, numa viagem plena de simbolismo pelos anos da
primeira república. Precisamente um ano depois do inicialmente previsto, eis que o livro chega finalmente às livrarias, numa aposta corajosa (depois da overdose de edições sobre a República em 2010 e inícios de 2011, será que ainda há espaço nas livrarias para mais um livro sobre a República…) da Saída de Emergência, editora que assim se estreia finalmente na BD.

Embora actualmente se dedique mais ao romance do que à Banda Desenhada, David Soares tem trabalho feito (e muito bem feito) na BD, como argumentista e como autor completo, pelo que o convite da Amadora para escrever este livro, fez todo o sentido. A história, cuja acção decorre em Lisboa, em meados do século XX, sob um regime autocrático indefinido, mas cujas semelhanças com o Estado Novo salazarista são mais do que pura coincidência, parte das memórias da primeira república que um pai lega ao filho, numa carta que nunca chegará a
enviar. Se as sequências, inicial e final, são ilustradas por Richard Câmara num estilo quase esboçado, em contrate com o estilo realista dos restantes desenhadores, os diferentes episódios narrados pelo pai, são ilustrados cada um por diferentes desenhadores. Assim, Jorge Coelho ilustra o período antecedente à implantação da República, desde o ultimato inglês de 1890 até ao assassinato do Rei D. Carlos, João Maio Pinto fica com o período da República, André Coelho com a 1ª Guerra Mundial e Daniel da Silva com o episódio final, em que os ideais da república dão lugar à realidade sombria do regime salazarista.

Embora nem todas as referências sejam facilmente perceptíveis para quem não conheça bem a história do período em causa (nesse aspecto, uma cronologia e umas notas de enquadramento no final do livro seriam de grande utilidade), a história está muito bem construída e revela o rigor da pesquisa habitual em David Soares, que soube muito bem escolher os seus colaboradores. Há sequências especialmente bem conseguidas, em que os autores jogam na perfeição com a repetição de alguns motivos, como o bacio com a forma de JohnBull no episódio inicial, desenhado por Jorge Coelho, ou o eléctrico (que não por acaso, está na capa do livro) no episódio final, desenhado por Daniel da Silva.

Um excelente álbum, pelo qual valeu bem a pena esperar um ano e que, para além de confirmar o talento de David Soares, Richard Câmara, Jorge Coelho e João Maio Pinto, dá a descobrir dois desenhadores muito promissores, como André Coelho e (especialmente) Daniel da Silva.

(“É de noite que faço as Perguntas”, de David Soares e vários desenhadores,
Saída de Emergência, 64 pags, 18,00 €)

Também no blogue http://porumpunhadodeimagens.blogspot.com/


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Diário Digital, quarta-feira, 19 de Outubro de 2011

BD: A I REPÚBLICA 
EM ESTILO REVOLUCIONÁRIO

Francisco Cruz

Tratava-se de contar a história da I República Portuguesa, não apenas através de banda desenhada mas também sob a forma de um álbum não meramente «institucional», mas que «pudesse ter vida própria, «fosse um álbum por mérito próprio», defende o autor. Concluído o projecto, «É de noite que faço as perguntas», banda desenhada editada com a chancela da Saída de Emergência, tem já, no entanto e segundo o argumentista David Soares, garantido o seu lugar na história da BD portuguesa – pela sua faceta revolucionária, mas também enquanto «objecto artístico muito elegante».

«É um álbum do qual eu me orgulho bastante», garante aquele que é, hoje em dia, um dos nomes mais firmes da literatura fantástica portuguesa, mas também um autor já com seis álbuns de banda desenhada publicados, além de um ensaio literário sobre banda desenhada e quatro livros de contos.

Em entrevista ao Diário Digital, David Soares, argumentista com livros publicados não apenas em Portugal, mas também em Espanha e França, não tem dúvidas em considerar que este é mesmo um álbum «revolucionário», já que não só demonstra que «escrever e desenhar sob convite institucional não tem de ser um obstáculo para o valor artístico de um projecto», como inova pelo facto de ter sido «feito por vários artistas», provando que «é possível fazer bem uma série de coisas», ao mesmo tempo que «eleva bastante a fasquias nessas mesmas coisas».

Por todos estes motivos, David Soares afirma, inclusivamente, não ser para si uma surpresa a nomeação de «É de noite que faço as perguntas» para a categoria de «Melhor Álbum Português», no mais importante festival de BD realizado em Portugal, pois «tenho consciência absoluta da força e qualidade do livro». Como tal, se vencer, «será somente a continuação do excelente trabalho que tenho vindo a desenvolver».

David Soares na primeira pessoa…

«É de noite que faço as perguntas» é o sexto álbum de banda desenhada de David Soares, embora, neste caso, partindo de uma premissa muito diferente dos anteriores – a I República. Como foi que surgiu este desafio? Qual foi o repto que esteve na base do projecto?

O desafio foi um convite que me foi dirigido pelo Centro Nacional de Banda Desenhada e Imagem e pela Comissão Nacional para as Comemorações do Centenário da República, no sentido de conceber e escrever um álbum de banda desenhada que contasse a história da Primeira República Portuguesa. Desde a primeira reunião que todos os agentes envolvidos compreenderam que estavam em sintonia, porque o objectivo sempre foi fazer um álbum que pudesse ter vida própria, que fosse um álbum por mérito próprio e não somente um álbum institucional cujo período útil de vida se cingisse ao intervalo de tempo proporcionado pelas comemorações do supracitado centenário. A minha abordagem à escrita deste álbum foi exactamente a mesma com a qual me dedico à escrita dos meus trabalhos e dessa maneira foi fácil encontrar uma forma de falar sobre os anos da primeira república de um modo rigoroso, no que diz respeito à história e aos factos, e, em simultâneo, interessante de um ponto de vista criativo e artístico. É um álbum em cuja realização tive absoluta liberdade para escrever a história que achei mais indicada e do qual me orgulho bastante.

Outra novidade neste trabalho é o facto de ter sido ilustrado não por um ou dois, mas por cinco desenhadores diferentes. Como foi a escolha dos nomes?

Escolhi pessoalmente os colaboradores, porque me interessava trabalhar com eles e achei que, enquanto ensemble, poderiam criar algo interessante do ponto de vista gráfico. Já conhecia o trabalho de todos e tive o cuidado de oferecer a cada um capítulos da história que se adequassem aos seus estilos gráficos.

Como foi juntar num único livro, numa única história, seis traços distintos?

Foi fácil, porque os meus argumentos de banda desenhada são meticulosos, descritos vinheta a vinheta e com 'layouts' das pranchas feitos por mim, por isso aquilo que pode ler-se na arte final corresponde exactamente ao que escrevi. A coesão oferecida pelo argumento foi basilar para a harmonia entre estilos gráficos, de forma a que ambientes e personagens não apareçam desenhados de modos diferentes em capítulos diferentes. Em seguida, houve o cuidado de definir muitíssimo bem os pormenores gráficos recorrentes que surgem repetidos ao longo do livro, como as mãos do narrador da história a escrever a carta, por exemplo. Tudo o que diz respeito à coesão gráfica foi definido previamente, assim como as cores de cada capítulo. As cores são, também, símbolos.

Ainda falando sobre os seis ilustradores, existe algum ou alguns com os quais se sinta mais identificado, que na sua opinião consegue transpor melhor para a realidade aquilo que palavras desenham?

No que diz respeito à “transposição”, todos foram excelentes, até como já ficou anunciado na resposta anterior. É óbvio que tenho os meus artistas preferidos, com os quais quero trabalhar novamente e com os quais até já fiz mais trabalhos depois de "É de Noite Que Faço as Perguntas", mas citar nomes é deselegante é não vou fazê-lo.

Com o livro já pronto e nas mãos dos leitores, como descreveria o resultado final? Algo que goste menos?

É, sem dúvida, um álbum revolucionário: em primeiro lugar, demonstra que escrever e desenhar sob convite institucional não tem de ser nenhum obstáculo para o valor artístico de um projecto - até porque o álbum não é nenhuma ode à primeira república e faz-lhe algumas justas críticas, o que afastará, só por si, fantasmas de panfletarismo. Passando à frente, é o mais forte álbum de conjunto, ou seja, feito por vários artistas, que tenho visto na banda desenhada portuguesa, o que também é revolucionário. Acho que "É de Noite Que Faço as Perguntas" vem mostrar que é possível fazer bem uma série de coisas e que eleva bastante a fasquia nessas mesmas coisas. Também me agrada o facto de ter sido publicado pela Saída de Emergência, porque há algum tempo que a vontade de publicar banda desenhada existia da parte deles e é um prazer enorme cumprir com este álbum esse desiderato. Ficou um objecto artístico muito elegante.

«É de noite que faço as perguntas» foi, entretanto, também nomeado para o Festival Internacional de BD da Amadora. Que comentário lhe merece este facto?

Não é uma surpresa, porque tenho consciência absoluta da força e qualidade do livro. De qualquer das formas, já fui nomeado para as mesmas categorias (“Melhor Álbum Português” e “Melhor Argumentista Português”) com o álbum "Mucha" (Kingpin Books, 2009) no ano passado e já ganhei em 2001 um prémio nacional de banda desenhada do Festival Internacional de BD da Amadora para “Melhor Argumentista Português” pelo álbum "Mr. Burroughs" (Círculo de Abuso, 2000), que também foi publicado em francês em 2003. Se "É de Noite Que Faço as Perguntas" (Saída de Emergência, 2011) ganhar os prémios para que está nomeado este ano será somente a continuação do excelente trabalho que tenho vindo a desenvolver nos meus onze anos de carreira como autor publicado.

De que forma vê o actual momento da banda desenhada nacional?

Acho que o fenómeno da internacionalização de alguns autores jovens é interessantíssimo. Não é novo, porque já autores de uma geração mais velha o fizeram e fazem-no com regularidade, mas o mediatismo das novas iniciativas é maior. Penso que essa internacionalização é um caminho a explorar com ainda mais intensidade, mas é muito mais fácil para um desenhador internacionalizar-se que um argumentista, por culpa da barreira da língua.

Projectos futuros – é possível desvendar alguma coisa?

O meu novíssimo álbum de banda desenhada "O Pequeno Deus Cego" (Kingpin Books), escrito por mim e desenhado por Pedro Serpa, será lançado no próximo festival internacional de banda desenhada da Amadora. O meu primeiro livro para crianças, "O Homem Corvo" (Saída de Emergência), escrito por mim e ilustrado por Ana Bossa e Nuno Bouça, também sairá este ano. Estou a escrever um livro de não-ficção que posso definir como uma viagem negra e surpreendente pela história global e tenho um romance começado e todo estruturado para recomeçar a escrever em seguida.

A planificação do argumento de David Soares exposta na exposição do Amadora BD 2010

Aspecto da exposição no 21º Festival Internacional Amadora BD - 2010

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