domingo, 17 de novembro de 2013

ESQUEÇAMOS POR UM POUCO A BD E VAMOS PÔR EM DIA O “ZÉ DAS PAPAS”... (35-36) – DIETAS E FESTIVAIS GASTRONÓMICOS – com João Reboredo na Gazeta das Caldas

O Zé das papas, de Raphael Bordallo Pinheiro

ZÉ DAS PAPAS (35 e 36)

A DIETA IDEAL

Pe..perdão... não sei como este desenho veio aqui parar...

Gazeta das Caldas, 18 de Outubro de 2013 

Na sequência das opiniões que lhes tenho trazido sobre as dietas e qual a "preferível", proponho hoje, que a escolha incida na que consagra cinco "refeições" diárias.

É uma afirmação consensual entre os "entendidos". Por dia o corpo precisa ingerir quan­tidades de nutrientes sem os quais o nosso organismo irá ressentir-se e, por isso, se não comemos de forma adequada, a tendência é para ficarmos doentes.

Os especialistas em nutrição recomendam fazer cinco refei­ções por dia, mais leves do que se fossem apenas três – como sucede com a grande maioria das pessoas – mas utilizando todos os alimentos necessá­rios para uma alimentação sã e saudável.

Um dos truques para o conse­guir é "picar" – como fazem os nossos vizinhos – isto é comer algo saudável, mas leve, no intervalo das "tradicionais e principais" refeições. O que não significa que essa refeição mais leve seja menos deliciosa. Bem pelo contrário, em cada uma de­vemos encontrar os alimentos saudáveis, que nos apeteceria ingerir nos intervalos, sem ter que recorrer aos bolos ou a produtos gordos, embora não venha mal ao mundo consumi-los, de vez em quando, mas sempre com moderação e sem que esta prática se converta em costume.

Há muitos alimentos saudá­veis que nos podem ajudar a passar a manhã ou a tarde e que sabem tão bem como os não recomendados para a dieta adequada.

De uma lista comprida, a título de exemplo, menciono os seguintes:

– Fruta: tanto pode ser uma peça ou, se quisermos um sabor doce, basta fazer una papinha de frutas, batendo as de que gostamos mais, com um pouco de laranja. Não devemos deitar açúcar. Além disso, se a deixa­mos refrescar, sabe melhor.


– Yogurtes: dizem ser melhor os desnatados, mas eu prefiro os gordos, embora sempre naturais e sem juntar açúcar. Para quem não está habituado pode parecer amargo; mas o paladar acostuma-se a tudo... Em qualquer caso podemos cortar pedaços de fruta natural e misturá-los no yogurte. 


– Peru ou frango e tostas integrais: e se possível, baixas em gordura. Para quem prefere os salgados, esta pode ser uma boa solução, mas sem abusar. Uma ou duas fatias de pão integral, com o mesmo número de fatias de peru ou de frango, ou apenas uma, partida ao meio será suficiente. E não se passa fome, ao contrário do que muitas pessoas possam pensar. 

 

– Cenoura crua: é muito boa para a saúde e muito saborosa. 


Claro que, para lá das inú­meras hipóteses que podia elencar, o que me parece mais importante registar é a abso­luta necessidade de se ingerir alimentos a cada duas horas, mesmo os "não" aconselhados!

Como também é claro este meu "conselho" assenta na con­vicção de que esta dieta é para quem não sofre de qualquer disfunção.

Entrados no outono, realiza­das as eleições autárquicas, lembrei-me de outras "dietas" alimentares, próprias de elei­ções de outros tempos, e do chamado carneiro com batatas.

Em época de carência, o que era comum no séc. XIX, uma das formas de obter um determinado sentido de voto, por parte dos caciques locais, era oferecerem aos eleitores, após votarem, uma refeição quente, que ficou conhecida como car­neiro com batatas!

As eleições em Lisboa: um pontapé magistral no  "carneiro com batatas"
Rafael Bordalo Pinheiro
In: O António Maria, 1884

João Reboredo
joaoreboredo@gmail.com

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Gazeta das Caldas, 1 de Novembro de 2013 

O PORQUÊ 

No fim de semana em que sai esta crónica termina o 33º Festi­val de Gastronomia de Santarém.


Na nota "explicativa" desta minha colaboração escrevi:" Julgo ter sido aqui nas Caldas que Rafael Bordallo Pinheiro criou o boneco "Zé das Papas", em boa hora aproveitado como símbolo do aludido Festival".

Mas o que é gastronomia e para que servem as festas a ela ligadas?

Para responder à primeira questão lanço, com a devida vénia, mão de extractos da comunicação ao 1º Congresso de Gastronomia pelo José Quitério, o conhecido jornalista, crítico gas­tronómico, ele também, membro do Conselho Técnico de Gastro­nomia, criado por deliberação do Conselho de Ministros de através da resolução nº 169/2001, para intensificar as medidas de pre­servação, valorização e divul­gação da gastronomia nacional, enquanto valor integrante do património cultural português.

"Ao propor-me vir dizer-vos algumas palavras sobre Gas­tronomia e identidade cultural, talvez valha a pena começar pela definição dos conceitos.

A mais breve noção do que é a gastronomia, reza assim: A gastronomia é a arte de bem comer, que tem como técnica, a boa culinária.

Concisa, mas precisa, apenas necessita dum ligeiro desenvol­vimento.

A dita arte de bem comer envolve toda uma série de actos que ultrapassam as alquimias que ocorrem em caçarolas e fogões. Tal é o caso das matérias primas e dos elementos complementares, avultando nestes o papel dos queijos e dos vinhos e no caso a mesa, campo de acção por exce­lência da gastronomia, com tudo o respeita aos seus componentes (panejamentos, loiças, faqueiros, cristalaria, decoração) e ao seu serviço ou ritual.

Quando damos as facetas históricas, antropológicas, geo­gráficas, sociológicas ou outras da alimentação e da cozinha, é ainda no conceito englobante de gas­tronomia que as vamos encaixar.

A cozinha ou culinária é apenas uma parte, embora a mais impor­tante, do que é a gastronomia".

"Considerar a gastronomia, como um dos elementos da cultu­ra, cultura material se se quiser, e portanto um dos capítulos definidores da nossa identidade, a par das supra estruturas que são o sistema estelinguístico, moral, etc, já não é ousadia nem novidade.

E mergulhar na cozinha regio­nal portuguesa é percorrer toda uma rapsódia geográfica de sabo­res, odores e cores, de rescendências antigas e longínquas, ar­quétipos da memória colectiva.

Soubemos, com efeito, dar à luz, na mesquinhez de 90.000 Km2, vários tipos individualizados de culinária, mosaicos que compõe o painel da cozinha portuguesa.

Temos, seguramente, um ri­quíssimo número de pratos re­gionais, criações anónimas (na sua esmagadora maioria) e car­regadas de sabedoria, fixadas ao longo dos tempos e depu­radas, por inúmeras gerações, sínteses perfeitas de paladares ancestrais.

São estas criações, que cons­tituem o nosso património gus­tativo e gastronómico. O qual, perdido o antigo elo de transmis­são por via familiar de geração em geração, é fundamental que se encontre registado em livros".

Curiosamente, Oleboma (An­tónio Maria de Oliveira Belo - a quem já me referi em textos anteriores) preparou uma interven­ção para o 1º Congresso Nacional de Turismo (1935) em que sublinhava "a cozinha portuguesa é saborosa, higiénica, substan­cial e muito característica. As matérias primas empregadas são culinariamente perfeitas. A condimentação é variada mas sem exageros".

Em crónica futura dir-lhes-ei para que servem, em minha opi­nião, as festas de gastronomia.

João Reboredo 

Ops... lá vêm estes outra vez...

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