quinta-feira, 3 de março de 2011

VICTOR MESQUITA NO 320º ENCONTRO DA TERTÚLIA BD DE LISBOA


Na passada terça-feira (a primeira do mês, como é hábito), 1 de Março de 2011, decorreu o 320º Encontro da Tertúlia BD de Lisboa - Ano XXV


Diga-se em primeiro lugar que este Encontro decorreu finalmente com um número de tertulianos mais perto do que é habitual (os Encontros de Janeiro e Fevereiro foram esqueléticos neste aspecto). Talvez tenha contribuído para o maior afluxo de participantes, a presença de Victor Mesquita, convidado por Geraldes Lino para “palestrar” sobre a sua obra Eternus 9, A Cidade dos Espelhos, editado pela Gradiva recentemente (e que também reeditou o primeiro volume, Eternus 9, Um Filho do Cosmos em Dezembro de 2008).

Como é sabido, Geraldes Lino já convidou quase toda a gente possível, quer como Homenageados, quer como Convidados Especiais, daí que tenha, de há uns meses para cá, inventado o actual ciclo de Palestras sobre Banda Desenhada, com alguns resultados interessantes, diga-se de passagem.

Com Victor Mesquita tivemos, absolutamente, um dos melhores momentos deste ciclo de Palestras. Isto porque o autor se apresentou em grande forma (ninguém lhe “dá” 72 anos), falando de Eternus 9, sobre o que foi o retomar das coisas 32 (ou 36) anos depois – porque lembremos, a propósito deste duplo numeral, que Eternus 9, Um Filho do Cosmos, foi iniciado em pré-publicação na revista Visão, fundada pelo próprio Mesquita em 1975 (já agora, quando o autor tinha 36 anos), e depois editado em álbum pela Meribérica em 1979. A dificuldade em retomar o fio da história interrompida há 32 anos, ficou expressa no próprio argumento deste segundo álbum, daí o sub-título A Cidade dos Espelhos. Não refiro agora o que significa este sub-título, uma vez que todos os textos já publicados aqui no Kuentro sobre o regresso de Eternus 9, não só os de João Miguel Lameiras e de João Ramalho Santos, como o do próprio autor (editado por Geraldes Lino no seu blogue e também no programa deste Encontro da Tertúlia, como se pode ler no scan reproduzido acima), abordam essa visão.

Mas Victor Mesquita falou também nos ciclos, na renovação (na sua própria renovação), no momento de catarse vivido pela introdução da sua filha como personagem neste segundo álbum, na pasta de materiais para o livro, roubada e depois reencontrada por um amigo que ele raramente via, enfim, contou algumas das muitas pequenas histórias que rodearam a realização deste álbum, que lhe afirmaram ainda mais a vontade de avançar para o terceiro livro, Eternus 9, Cidadela 6. Só que aqui, parece haver uma dificuldade inesperada: a Gradiva já lhe comunicou a impossibilidade de vir a editá-lo, devido... à crise. Mas o autor está, ao que parece, determinado em realizá-lo!

Contudo, se a assistência já estava presa às palavras do autor (iam surgindo perguntas a que respondeu prontamente), foi quando se pronunciou acerca da sua mais ou menos recente adesão ao estilo nipónico da mangá e anunciou o projecto – já em andamento – de criar uma revista, a ser preenchida com trabalhos de mangakas portugueses, que os tertulianos mais jovens se aproximaram mais de Victor Mesquita e pararam os “queshqueshquesh” das conversas sussurradas à revelia da Palestra.

Pois! O título da revista está lançado: KarpaKoi – Revista de BD & Mangá Portuguesa. Já agora, “koi” é a palavra japonesa, contracção de nishikigoi, para “carpa” e durante o período Muromachi, os samurais admiravam a bravura deste peixe, que tem que subir os rios para desovar junto às suas nascentes, precisando muitas vezes de vencer, além da corrente dos rios, as cascatas e os rápidos. Segundo a lenda original chinesa, depois de vencerem todas as etapas para a desova, muito especialmente a Cascata do Dragão no rio Huang Ho, as carpas renasciam como dragões. O título da revista é portanto uma duplicação de palavras comum no ocidente para designar a carpa japonesa, mas que, como o próprio Mesquita reconheceu (depois de referir a lenda), quer aqui significar a dicotomia ocidente-oriente na autoria das obras a publicar.

Pelos vistos, uma vez que a própria Asa começou também a apostar na mangá, parece que, vinte anos depois de o estilo japonês chegar à Europa, os portugueses começam finalmente (embora muitos com alguma relutância e outros com negação total) a compreender a importância da mangá na própria banda desenhada europeia, porque muitos desenhadores jovens começam por aí, o que não quer dizer que todos fiquem agarrados ao estilo para sempre. Esta é, quanto a mim, apenas uma maneira de as novas gerações descobrirem a própria banda desenhada, começando pela mangá.

Portanto, Victor Mesquita conquistou a audiência. Os meus aplausos sinceros.

Mas este Encontro da Tertúlia BD de Lisboa não foi só Victor Mesquita. Realço a presença de Pedro Alves (o seu ToonStudio está prestes a festejar o 10º aniversário) que, quando presente é uma fonte de boa disposição e... desenhos em barda nas toalhas de mesa. Até o “monhé” das flores artificiais e dos óculos com luzinhas teve direito a caricatura na toalha (e para que não haja interpretações com politicamentices correctas, ou tretas no género, lembro que a palavra “monhé”, embora usada quase sempre depreciativamente pelos colonos portugueses de Moçambique, vem, por via da língua macua do norte daquela ex-colónia, do suaili “mwenye” – dono, senhor – originalmente para referir os mestiços de árabes e negros e depois, erradamente, mas não depreciativamente pelos macuas, os comerciantes originários da Índia “portuguesa”)...

E chega de paleio, vamos aos scans e às fotos:

Folha Volante #262, com "Na Terra como no Céu", série semanal de Nuno Saraiva no semanário Sol. Série que pode ser seguida AQUI, no blogue do autor com o mesmo título - ver coluna dos blogues aqui à direita!

Folha Volante #263 (lembremos que as Folhas Volantes foram os pais - ou as mães - do BDpress).

O convidado palestrante...

Pedro Alves, a bonecada na toalha de mesa (Geraldes Lino tem até, no seu blogue, a etiqueta "Improvisos na toalha de mesa") e a desenhar a vinheta na folha do Comic Jam...


O "monhé" caricaturado, não quis pagar os cinco Euros pela caricatura que Pedro Alves lhe fez...

Hugo Teixeira em conversa com Pedro Mota (coordenador do projecto KarpaKoi ? ) e mostrando o seu livro Bang Bang Ultimate 1 - edição Pedranocharco - perante o olhar interessado de Victor Mesquita...

Fase inicial da palestra...

Apresentação do título da referida revista...

Geraldes Lino ainda não publicou no "Divulgando Banda Desenhada" a prancha do Comic Jam desenhada neste Encontro, pelo que vos remeto para lá.

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