segunda-feira, 27 de junho de 2011

BDpress #270: POLÉMICA SOBRE OS ESTRUMPFES – Carlos Pessoa, no Público



Público – P2, 18 Junho 2011

HÁ UMA ESTRUMPFEPOLÉMICA INSTALADA

Carlos Pessoa

Um livro do estrumpfólogo francês Antoine Buéno acusa a série criada por Peyo de representar um universo totalitário, racista e anti-semita. Outras criações, como Tintim, Lucky Luke ou Batman 
também já estiveram na linha de fogo.

Quem olha para as pequenas criaturas azuis da floresta com barrete frígio e calças brancas vê criaturas centenárias que povoam um mundo mágico, moram em casas-cogumelo, são vegetarianas, têm características distintivas e vivem em perfeita (nem sempre, é verdade...) harmonia com a natureza.

A banda desenhada Os Estrumpfes (Les Schtroumpfs no original francês) tem milhões de adeptos em todo o mundo, mas nem todos estão de acordo com esta visão idílica e feérica imaginada pelo belga Peyo em 1958 na revista Spirou. Por isso, a espaços, têm surgido denúncias de anti-semitismo e racismo, a par de alusões ao carácter totalitário e misógino da sociedade liliputiana, onde as mulheres quase não têm lugar.

O último contributo foi publicado este mês em França. Le Petit Livre Bleu (Éditions Hors Collection, Junho 2011) é assinado por Antoine Buéno, escritor prospectivo, professor de Ciências Políticas e colaborador de imprensa, que desmonta, de forma sistemática e organizada, o mundo das simpáticas personagens azuis. O subtítulo da obra explicita o propósito do seu autor – Análise crítica e política da sociedade dos Estrumpfes. Nesse sentido, Buéno considera que estamos perante “um arquétipo da utopia totalitária marcada pelo estalinismo e o nazismo”.


Totalmente autosuficiente e sem depender de terceiros nos aspectos essenciais, a sociedade dos estrumpfes é rigidamente hierarquizada, obedecendo à voz de comando paternalista e omnipotente do Grande Estrumpfe, o único que se veste de vermelho. O mais perigoso inimigo do pequeno povo, o temível feiticeiro Gargamel, é uma criatura odiosa com um perfi l que lembra uma caricatura anti-semita e, não por acaso, o seu gato chama-se Azrael...

Gargamel e o gato Azrael...

Antoine Buéno sustenta a sua visão nas características do habitat da banda desenhada, onde “cada um se veste da mesma maneira, tem uma casa igual à do seu vizinho e exerce a profissão mais adequada às suas habilidades, não sendo conhecidos pelo seu nome, mas sim pela sua função na sociedade”.

Um dos álbuns, Les Schtroumpfs Noirs, é utilizado pelo investigador para salientar o racismo que estaria patente na série – um estrumpfe que fica negro e incapaz de falar, quando picado por um insecto, por oposição à natureza ariana da Estrumpfina, o único elemento do sexo feminino na série.

Ouvido pela revista francesa L’Express, o filho de Peyo, Thierry Culliford, não se mostrou surpreendido: “Deixem-me adivinhar, eu conheço a história há muito tempo! Os Estrumpfes são comunistas, homossexuais e racistas, etc.”

A resposta dos admiradores da série foi bastante violenta. Basta acompanhar o debate nos sites do sector para se ficar com uma ideia das reacções que levaram Didier Pasamonik, chefe de redacção de ActuaBD, a escrever: “A cólera [dos leitores] é tão forte que muitas vezes ficam sem argumentos, não manifestando mais do que desprezo e hostilidade, quando, na realidade, não são tanto aquelas teses que levantam problemas, mas o ambiente geral de seriedade que está a limitar a banda desenhada com mais eficácia do que a absurda lei de 1949 sobre a protecção da juventude.”

Oportunismo? Provocação?

Do lado dos especialistas, as posições são mais diferenciadas. “Penso que o mundo está a ficar cada vez mais louco na sua aspiração a ser ideologicamente clean”, disse ao P2 Gilles Ratier, presidente da Associação de Críticos e Jornalistas de BD e animador do site BDZoom. com. “Estamos perante alguém que não deixou passar a oportunidade de falar de si.”

O crítico Laurent Mélikian confessa que “o caso dos Estrumpfes o diverte um pouco”: “Embora o conjunto [das críticas] seja excessivo, por que não? Antoine Buéno fez uma provocação, um pouco saudável, pois, apesar de tudo, temos o direito de criticar e interpretar os Estrumpfes, tal como Tintim, Astérix, Super Homem ou a Condessa de Ségur. As obras do passado são, em graus variáveis, espelhos das suas épocas que convém explicar.”

Os “gritos de horror” de alguns bedéfilos, que “não suportam que se toque no panteão da sua infância”, surpreenderam Mélikian: “Mesmo acreditando que as críticas tocam onde mais dói, que crime cometeu Antoine Buéno para ser arrastado pela lama e até receber ameaças de morte? Ele nunca disse que Peyo era racista ou defendia o totalitarismo. Também não pediu censura [para a obra], nem é responsável pela mudança da cor dos estrumpfes negros nos Estados Unidos...”

Ao P2 Didier Pasamonik disse que considerava saudável e necessário dar uma leitura diferente de uma obra clássica, em especial quando essa mesma obra tem uma influência tão grande como os Estrumpfes. Admite que aquela sociedade – masculina e muito hierarquizada – “põe questões legítimas”. Mas daí a aceitar as análises de Buéno vai uma grande distância: “A sua tese baseia-se na maior parte das vezes em sofismas (Marx usa barba, o Grande Estrumpfe também, logo o Grande Estrumpfe é comunista...), um método retórico apoiado na mentira desacreditada por Platão, mas que continua a ser eficaz, ao que parece.”

Outra crítica de Pasamonik é sobre a “falta de contextualização”. Lembra que os diálogos foram em muitas alturas escritos por Yvan Delporte, chefe de redacção da revista Spirou e “um anarquista bem conhecido”. E sublinha que no momento da criação da série a “lei de censura de 1949 era muito forte e proibia as representações femininas ‘sexuadas’ nas bandas desenhadas”: “É provável que a chegada da Estrumpfina seja, por escárnio, uma forma de contestação de uma banda desenhada tal como a censura a sonhava, e daí os elementos femininos serem considerados como maléficos.”

O investigador Patrick Gaumer, autor do Dictionnaire Mondial de la BD, aponta, por seu lado, a “falta de rigor do autor”. “No seu livro muito oportunista, Buéno explica que o primeiro álbum não foi publicado nos Estados Unidos por causa dos estrumpfes negros. Ora aí está uma contraverdade. E quase não se refere à importância de Yvan Delporte ou de André Franquin.

Em suma, estes oportunistas que só aspiram a falar de si próprios são bastante cansativos. Se querem bater-se contra as ditaduras, existem algumas mais reais e mais nocivas do que a dos infelizes estrumpfes. Mas isso seria muito menos mediático para o autor!”

No banco dos réus

O caso de Os Estrumpfes está longe de ser único na história da BD. No início dos anos 1970, as criações de Walt Disney – em especial o Pato Donald – foram objecto de uma análise marxista, ideologicamente muito agressiva, de Ariel Dorfman e Armand Mattelart no livro chileno Para Leer al Pato Donald (edição portuguesa das Iniciativas Editoriais, 1975). “É um clássico da leitura revolucionária que partia de traduções adulteradas para ‘provar’ o ponto de vista dos autores”, diz o historiador da BD Leonardo De Sá.


As aventuras de Tintim, e sobretudo Tintim no Congo, são notícia recorrente pelas piores razões, com acusações de racismo e antiecologismo sem a menor consideração pelo contexto social em que surgiu a obra. “É um caso revelador do dark side das nossas sociedades”, diz Laurent Mélikian. “Os africanos são constantemente rebaixados à categoria de crianças grandes que é preciso educar. É um facto que o próprio Hergé lamentava. No entanto, afirmá-lo sujeita-nos a ouvir uma descarga de insultos por vezes racistas...”

Tira de Tintin no Congo...

O mais consensual Lucky Luke não esteve a coberto de algumas investidas. Um editor sueco pediu a Morris que tornasse mais finos os lábios dos negros na história En Remontant le Mississípi (Subindo o Mississípi, em português), o que o desenhador recusou liminarmente – a história nunca foi publicada nos Estados Unidos. Todavia, o criador belga já não pôde resistir à substituição do eterno cigarro na boca do cowboy solitário por uma asséptica palhinha...
Por acaso, na capa, Lucky Luke ainda ostenta o eterno cigarro....

Mais complexa e com consequências bastante mais nocivas foi a polémica desencadeada na primeira metade do século XX por psicólogos e sociólogos americanos, sobretudo contra os comic books de terror e os seus alegados efeitos nocivos na formação emocional e cívica dos jovens leitores. A série Batman também não escaparia ao furor censório, com acusações explícitas de homossexualidade envolvendo o herói e o seu companheiro de luta Robin. A resposta da indústria foi a criação em 1954 do Comics Code, um sistema de autocensura para se defender das acusações e permitir a chegada ao mercado das criações aos quadradinhos. “Por contágio, provocou diversos códigos de censura e moral noutros países, incluindo Portugal”, conclui Leonardo De Sá.


No universo das simpáticas figuras azuis de barrete, o escritor Antoine Buéno vê uma sociedade totalitária, com um feiticeiro que lembra uma caricatura antisemita e o Grande Estrumpfe que veste de vermelho e usa barba como Marx.

Também as criações de Walt Disney foram já objecto de análise marxista e Tintim e Lucky Luke acusados de racismo (em cima, banda de “Subindo o Mississípi”, para a qual um editor sueco pediu ao autor, Morris, que tornasse mais finos os lábios dos negros, o que este recusou fazer e a história nunca foi publicada nos Estados Unidos).
______________________________________________________

Imagens da responsabilidade do Kuentro
_______________________________________________________

 
Locations of visitors to this page