terça-feira, 19 de junho de 2012

CENTENÁRIO DE FRANCO CAPRIOLI COMEMORADO EM MOURA COM EXPOSIÇÃO E EDIÇÃO DE BROCHURA DE JORGE MAGALHÃES SOBRE A VIDA E OBRA DO AUTOR ITALIANO

Autorretrato

CENTENÁRIO DE FRANCO CAPRIOLI 
COMEMORADO EM MOURA COM EXPOSIÇÃO 
E EDIÇÃO DE BROCHURA DE JORGE MAGALHÃES 
SOBRE A VIDA E OBRA DO AUTOR ITALIANO

Cartaz da Exposição

O Salão de Moura (Câmara Municipal de Moura) realiza, entre 22 de Junho e 8 de Julho, uma exposição dedicada a Franco Caprioli comemorativa do centenário do nascimento do autor italiano. Para a ocasião, Jorge Magalhães produziu uma brochura sobre a obra de Caprioli, editada pela Câmara Municipal de Moura, que inclui oito pranchas de Olac, o Gladiador e que estará disponível para aquisição. Está também programada a venda de publicações italianas, com trabalhos de Caprioli, numa colaboração especial entre a ANAFI (Associazione Nazionale Amici del Fumetto e dell’Illustrazione) e a Câmara Municipal de Moura.

Capa e página da brochura realizada por Jorge Magalhães

A lista de publicações italianas para venda é a seguinte:

La pattuglia bianca (2003)
La leggenda di Beowulf (2007)
Il segno insanguinato, I parte (2009)
Il segno insanguinato, II parte (2009)
Dawn delle isole e altre storie (2011)
Il fumetto n.15/1988
Fumetto n.40/2001
Fumetto n.42/2002
Fumetto n.53/2005
Fumetto n.56/2005
Fumetto n.70/2009
Fumetto n.80/2011


Quem estiver interessado pode reservar exemplares através dos seguintes contactos:

Telefone: 285 250 400 (ext. 504)
e-mail: carlos.rico@cm-moura.pt

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FRANCO CAPRIOLI
   PARA UMA BIOGRAFIA


Franco Caprioli (5 de Abril 1912 - 18 de Fevereiro 1974), 
foto redacção do Il Giornalino, anos setenta.

Franco Caprioli nasceu em Mompeo Sabino, a cerca de 60 quilómetros a noroeste de Roma, em 5 de Abril de 1912, no seio de uma família romana de proprietários de terras, que se destacava pela paixão pelas artes decorativas, uma vez que o jovem teve vários tios pintores e até um avô gravador. Outro tio, capitão de fragata, transmitiu-lhe a paixão pelo mar e pelos países exóticos, sendo curioso que o pequeno Franco, começou a desenhar o mar sem nunca o ter visto.

Em 1924 matriculou-se no Liceu Tasso de Roma, mas como os resultados escolares não foram os previstos, regressou a Mompeo, onde a família decidiu que tivesse lições de pintura em casa de um mestre da corrente divisionista – semelhante ao pontilhismo francês. Esta técnica consistia na aplicação de uma trama espessa de pequenos pontos de cores puras (que nunca eram misturadas – daí o “divisionismo”) que se distinguiam de perto sem nexo aparente, mas que a uma certa distância sugeriam formas e cores distintas. Diga-se que era, na altura, uma técnica muito apreciada, numa Itália recém unificada e que, metaforicamente se aplicava às transformações por que passavam as diversas populações.

Sempre em Mompeo, o jovem Caprioli começou a conviver com um outro tio, matemático, músico e estudioso das religiões orientais, especialmente do budismo, que lhe deu a conhecer o pensamento de filósofos como Schopenauer e Nietzche, de Buda, de San Benedicto e de São Francisco de Assis. Neste período mergulhou de tal forma no pensamento budista, que esta filosofia influirá para sempre na sua formação intelectual, na sua obra pictórica e na sua banda desenhada.

Caprioli vê o mar, pela primeira vez, em 1928, durante uma excursão à Líbia e sofre uma grande desilusão, ao compará-lo com esse outro mar imaginário criado pela sua fantasia. Em 1932, ainda em Mompeo, durante a reconstrução de uma capela, pinta uma Madonna a óleo sobre uma tábua de notáveis dimensões, inspirada na actriz alemã Marlene Dietrich. Durante 1934 trabalha como pintor a fresco de motivos pompeianos, na abadia beneditina de Farfa.

Em 1936, com 300 liras no bolso viaja para Roma, com o objectivo de tentar trabalhar em arte. Expõe pela primeira vez na galeria S.A.C.A. de Roma, mostra patrocinada pelos pintores e designers da corrente Liberty – Art Nouveau, ou Arte Nova, ou estilo Mucha, que em Itália tem este nome devido à loja London, Liberty & Co., que popularizou o estilo –, como Duilio Cambellotti e Grassi. O resultado foi satisfatório mas, desalentado pela visão pessimista da arte, por parte de alguns pintores desiludidos, abandona a pintura e escolhe dedicar-se às “storie a quadretti” ou “cineromanzi”, expressões que designavam a banda desenhada em Itália antes de nela aparecerem os balões – “fumetti” (fumarolas).

No ano seguinte inicia a actividade de desenhador para crianças e jovens, colaborando nas revistas Argentovivo! e Il Vittorioso, com bandas desenhadas marítimas ambientadas principalmente nos mares do Sul, para as quais escreve também os textos: La tribù degli uomini del fiume, Il segno insanguinato, Gino e Piero e muitas outras. Destaca-se de imediato pelo seu personalíssimo estilo, que se ressente ainda da influência do estilo Liberty, mas que apresenta a técnica original do pontilhado, que referimos acima aplicada à pintura, ou seja, pontos realizados com a tinta negra, substituindo a sombra densa e de alto contraste nas caras e nos corpos. Como ele mesmo afirmava, a sua técnica de desenho era inspirada pelo movimento pictórico francês do pontilhismo.

Gino e Piero, 1938

Il Mistero di Kerguelen, 1940

Em 1938, as suas colaborações estendem-se a L’Audace, revista de Gian Luigi Bonelli, com quem realiza La perla nera e a sua continuação, La valle sfolgorante. Mas já sopravam os ventos da guerra e, em 1939, Caprioli é chamado para o exército. Dois anos depois, persuadido pela revista Topolino, completa a última página de Pino il mozzo, uma história iniciada por Curt Caesar e publica a história que é conhecida como a sua obra mestra, Fra i canachi di Matareva (rebaptizada como L’Isola Giovedi), uma emocionante história ambientada nos mares do Sul. A Itália entra na guerra em 1941 e Caprioli é de novo chamado ao exército, interrompendo L’Isola Giovedi na página 66.

 Fra i canachi di Matareva, 1941

L'Isola Giovedi, 1941

Em 1942, em plena guerra, casa-se em Assisti com Francesca Duranti, também natural de Mompeo e que será a inspiradora de muitas personagens femininas das suas histórias. Durante estes anos escreve e desenha para Il Vittoriosso duas histórias com um ideal de paz, justiça e não-violência: Rose tra le torri e Cuori nella tempesta.

Já em 1946 publica em Giramondo outra história ambientada nos mares do Sul: L’Isola tabù, para a Topolino realiza I fanti di picche e para Il Vittoriosso, Mino e Dario tra i banditi del Monte Ode e Mino e Dario sul fiame Sabo. Em 14 de Janeiro de 1949 nasce o seu filho Fabricio.

Nel Mar Cinese del Sud, 1948

Os anos cinquenta serão de maturidade artística para Franco Caprioli. Neste período publica muitíssimas histórias na Il Vitoriosso (Aquila Maris, Hic sunt leones, Dakota Jim, L’elefante sacro, Kim, Il piccolo amico, I pescatori di perle, L’Ussaro della morte, só para citar algumas) e começa a realizar numerosas ilustrações para enciclopédias e novelas, como a Moby Dick de Melville, para a casa editorial Mondadori. Em 28 de Junho de 1952 nasce a sua filha Fulvia Maria.

 La Tigre di Sumatra, 1948

Aquila Maris, 1951

Posto em contacto com o professor Alberto Carlo Blanc, professor de paleontologia na Universidade de La Sabiduría de Roma (a História e a pré-História haviam sido sempre alguns dos temas de maior interesse do autor), Caprioli, conduzido pelo insigne professor, começa a realizar as ilustrações de um livro sobre a pré-História. Mas ao fim de dez anos de trabalho, no ano de 1960, o professor Blanc falece repentinamente. Começa assim, para Caprioli (que estava francamente entusiasmado com o projecto), uma longa e enervante busca de um editor disposto a publicar o livro.

Em 1965 o livro é finalmente publicado pelo editor Armando Curzio, com o título Viaggio attraverso la preistoria, mas muitas das ilustrações de Caprioli são selvaticamente desfiguradas por uma pavorosa coloração. A morte do professor Blanc, a desilusão pelo resultado do livro sobre a pré-História e muitos outros desgostos, também económicos (está quase obrigado a mendigar trabalho, ao ser rejeitado, devido ao seu estilo pontilhista, considerado antiquado por muitos directores de revistas), começam a reflectir-se no físico e na moral do ilustrador, que, gradualmente, perde a confiança em si próprio e vai-se tornando cada vez mais pessimista. Nesses anos começa a sua colaboração com Il Giornalino, das Edizioni Paoline realizando capas e ilustrações e, sucessivamente até ao imprevisto primeiro encerramento de Il Vittoriosso e depois também da Il Vitt, começa, pelo Estúdio Giolitti – fundado em 1960 pelo desenhador Alberto Giolitti, como agência de trabalho internacional para os autores iltalianos – a executar muitos trabalhos (supostamente mal pagos) para o mercado estrangeiro, em particular para França, Inglaterra e Alemanha, como, por exemplo, a série La patrouille blanche.

Desenho de piratas para uma edição inglesa

La patrouille blanche, 1967

Em 1970, depois de uma série de anos de ausência do mercado italiano, Caprioli retoma o contacto com os seus leitores nas páginas de Il Giornalino, com relatos marítimos e adaptações das mais famosas novelas de Júlio Verne: L’isola misteriosa, Un capitano di quindici anni, Miguel Strogoff, I figli del capitano Grant. Em 1972 o Salão de Lucca realiza uma exposição individual de Caprioli e em 1973 recebe o prémio Il Cartoonist em Génova, como melhor autor italiano.

Moby Dick

L’isola misteriosa, 1970

A redacção de Il Giornalino encarrega-o de outras adaptações de novelas famosas, mas Franco Caprioli falece de repente em Roma, aos 62 anos, em 18 de Fevereiro de 1974, enquanto trabalhava em I figli del capitano Grant, que será concluída por Gino D’Antonio. Em 1988, em Mompeo Sabino, sua terra natal, prepara-se uma enorme retrospectiva sobre Caprioli e em 1995, em Roma, por ocasião da Expocartoon, é-lhe dedicada uma exposição intitulada Franco Caprioli, l’illustratore dei grande orizzonti.

A Ilha Misteriosa, edição portuguesa de 1987

“... Dediquei-me aos jovens; escrevi e desenhei para eles uma incrível quantidade de narrações irreais, mas verosímeis. Não relatos de guerra ou de violência, que os aborrecesse (creio dever precisar que os de guerra eram obrigatórias no ano de 38 e seguintes). Fazendo frutificar mais conhecimentos, bastante sólidos, de etnologia ou folclore, de geografia, náutica, história, etc...: ilustrei o mar, os navios, (especialmente os de vela, que são os que melhor conheço), as selvas; a natureza primitiva como eu próprio gosto, não como é na realidade. Selvas sem mosquitos, mares com tempestades e tubarões que nunca matam os “bons”, etc... O mundo como eu gostaria que fosse e o coração e o cérebro dos homens como deveriam ser, para que pudessemos confiar uns nos outros e viver em paz e serenidade.”

Estas palavras, extraídas do retrato de si mesmo que Franco Caprioli escreveu em 1972, por ocasião da sua exposição individual no Salão de Lucca, ilustram, melhor que qualquer outro discurso, uma larga trajectória de um trabalhador da banda desenhada, de grande seriedade moral e profissional.

Franco Caprioli por Sergio Tarquinio

Texto de Dionisio Platel, no blogue El Rincón de Taula, traduzido e complementado pelo editor do Kuentro.


ALGUNS ORIGINAIS DE CAPRIOLI:

Ensaio de cor para L’isola misteriosa

 Capa para Fra I Canachi di Matareva, anos 50...

 Capa para Jack London - Il Figlio del Sole, anos 50...

Prancha 5 de Il Gladiatore del Kenya

Prancha 20 de L'Ancora Sommersa, 1950

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