segunda-feira, 11 de junho de 2012

MARIA KEIL NO BDjornal E NA TERTÚLIA BD DE LISBOA – CONVERSA COM PEDRO LEITÃO (e Clara Botelho) – No BDjornal #4 (Julho/Agosto de 2005) – E HOMENAGEADA NO ENCONTRO DA TERTÚLIA BD DE LISBOA DE 9 DE SETEMBRO DE 2005


Cug Melos...

Como homenagem a Maria Keil, falecida ontem (dois meses antes de completar 98 anos), republicamos aqui a conversa entre a autora com Pedro Leitão, publicada originalmente no BDjornal #4 de Julho/Agosto de 2005. Após a publicação desta entrevista, Geraldes Lino convidou-a como Homenageada no Encontro da Tertúlia BD de Lisboa, de 9 de Setembro.



MARIA KEIL CONVERSA COM PEDRO LEITÃO 

“FUI UMA OPERÁRIA DAS ARTES” 




Fomos buscar a Maria Keil à residência onde está alojada, no Restelo. Estava à espera no jardim e a tarde abrasava. Juntou-se a nós com aquele andar quase saltitante de menina, que ainda a caracteriza.
A ideia era proporcionar um encontro de gerações, pondo à conversa esta decana da ilustração, com largo currículo em trabalho para crianças, e o Pedro Leitão, ilustrador e autor de Banda Desenhada para os mais novos.
Foi em casa de amigos que a entrevista se desenrolou. Um contratempo inicial – tínhamos esquecido o gravador – foi resolvido à moda antiga: tomei notas ao longo da conversa, tentando registar fielmente o que ia sendo dito. Momentos houve em que me perdi um pouco, outros em que não resisti e meti a minha colherada.
A conversa durou o seu tempo, mas a Maria não parecia cansada. Foi uma tarde agradável, um encontro quase informal.
Maria Keil faz 91 anos no próximo dia 8 de Agosto e o BDjornal escolheu esta maneira de os celebrar.

Clara Botelho 

Pedro Leitão: Nasceu em Silves. Veio para Lisboa para estudar nas Belas Artes?

Maria Keil: Eu tinha feito a Escola Industrial em Silves e foi o professor de Desenho, Samora Barros, que convenceu a minha família a mandar-me estudar para Lisboa. Vim morar para casa dum tio.

PL: Na sua família havia ligação às artes ou a Maria foi a primeira?

MK: Ninguém tinha nada a ver com as artes. Eu desde pequena que fazia bonecos e houve um conjunto de circunstâncias que facilitaram a minha vinda para as Belas Artes, aconteceu…
PL: Estudou nas Belas Artes, mas não acabou o curso. Pode explicar como foi?

MK: Fiz os três anos preparatórios, nas Belas Artes, depois um ano de Pintura, com o Professor Veloso Salgado. Esses três anos davam acesso aos três cursos – Pintura, Escultura e Arquitectura.

PL: Mas, de qualquer maneira, não acabou o curso…

MK: O ensino de pintura nas Belas Artes nessa altura era muito antiquado, muito académico. Havia também seis alunos de Arquitectura e um deles era o Chico (Francisco Keil do Amaral). Namorámos, depois casámos, foi ele que me influenciou para largar o curso. Depois do casamento é que comecei realmente a aprender, fora das Belas Artes. O Veloso Salgado era um bom professor, mas o principal aprendi-o com os pintores das relações do meu marido. 


PL: Como foi esse princípio?

MK: Era difícil fazer qualquer coisa. Nessa altura havia amigos ligados ao grafismo, aos cartazes, era uma coisa nova por cá. O Tom, o Zé Rocha, por exemplo, trabalhavam naquilo com muita competência e influenciaram-me. Depois fui para Paris com a equipa que fez a Exposição Internacional de 1937, o meu marido é que projectou o pavilhão português, a equipa eram aquelas pessoas todas, o Bernardo Marques, o Carlos Botelho e a Beatriz, o Fred Kradolfer, o Tom… 

Aspectos exterior e interior do Pavilhão de Portugal na Exposição Internacional de Paris, 1937

PL: Foi a exposição em que apareceu a Guernica do Picasso?

MK: Sim, era uma coisa fantástica, estava no Pavilhão espanhol. O Picasso já era famoso, mas naquela altura estava também ali tudo o que era novo e estava a começar. Eu nunca tinha saído de Portugal, aprendi muito. Sair das Belas Artes e conhecer aquelas pessoas e aquelas coisas todas, foi um arejo.

PL: Quando voltou para Portugal, pintou muito?

MK: Não me considero uma pintora. A minha obra de pintura são sobretudo quatro ou cinco retratos. Fui uma operária das artes. Desenhei e pintei para governar a vida e ajudar a pagar as despesas… 

Autorretrato, 1941

PL: Então se não se define como pintora, o que é que acha que fez de mais importante?

MK: Acho que a minha área mais válida foi o azulejo. E no azulejo, o mais importante foi o Metropolitano de Lisboa. O meu marido era projectista das estações e havia pouco dinheiro para as fazer, iam ficar todas em cimento, uma obra pobre e feia. Ele estava triste com isso e pediu-me ajuda. Éramos amigos dos donos da fábrica Viúva Lamego e eles apreçaram azulejos de padrão, que era um acabamento barato. Trabalhar em azulejo é apaixonante, mas havia um grande desprezo pelos azulejos de padrão, uma coisa pintada pelo operário. O trabalho era revestir paredes de 40, 50 metros, cada estação com um motivo bem diferente, estudar aqueles padrões de maneira a gerar conjuntos com ritmo, originais. Isto na primeira fase do Metropolitano, nos finais dos anos 50. 

 Painel da Av. Infante Santo, 1958

 Pormenor do painel da Av. Infante Santo


 Metropolitano de Lisboa, Estação de S. Sebastião

Metropolitano de Lisboa, Estação de Alvalade

PL: O Metropolitano foi a sua primeira experiência de azulejo?

MK: Eu já tinha alguma experiência, tinha feito um projecto para a aerogare de Luanda, tinha feito o painel da Infante Santo, ao lado dos dos outros, o Botelho, o Pomar, o Sá Nogueira. Mas no Metropolitano a coisa era em grande escala, empenhei-me imenso. Por exemplo, na estação dos Restauradores eram só dois azulejos-tipo, que emolduravam, definiam umas linhas, enquadravam uns azulejos de figura avulsa, aqui e ali havia um azulejo de cor diferente, deu um trabalhão a pensar e a organizar. Depois não pagaram quase nada por aquilo… Não tem nada a ver com o que aconteceu agora com as estações novas (1).

PL: Gostava de ter feito um trabalho para estas estações novas?

MK: Claro, mas não me convidaram (2)… 

Realizaria em 2009 os azulejos para a extensão da Estação de S. Sebastião da Pedreira

PL: Então e a ilustração, como surge no seu percurso?

MK: Eram pedidos que me faziam. Ora para publicidade, ora vinhetas para identificação dos capítulos, obras gráficas que se consideravam menores. Era trabalho para ganhar a vida… 


PL: Mas ia pintando, entretanto?

MK: Em pintura a óleo, o que gostei mesmo de fazer foram os retratos. Fiz uma vez um retrato do Abel Manta e foi muito engraçado, pintámos os retratos um do outro em simultâneo. Foi feito numa tarde

PL: Além da publicidade e desses trabalhos gráficos, começou a ilustrar livros.

MK: As ilustrações surgiram por pedidos de amigos. Ainda agora, tenho um livro da Matilde Rosa Araújo para ilustrar e estou sem conseguir começar porque não tenho condições de trabalho na minha casa, que está em obras. Lá na residência onde vivo ainda me arranjaram um espaço, mas não me sinto inspirada. É uma casa luxuosa, muito imponente, prefiro vir para o jardim e aí é que faço desenhos. Quando para lá fui morar desenhei os cedros, as pessoas que lá moram, depois um dia o dono da “Ler Devagar” viu aquilo e organizou uma exposição lá na livraria. Ficou bonita… 




PL: Faz distinção entre trabalhar para crianças e para adultos? 

MK: É sempre uma questão de entrar no que está escrito. Eu não costumo estilizar. Há ilustradores que deformam, é a maneira de fazer deles, por exemplo eu gosto imenso do trabalho da Fragateiro e ela desproporciona as figuras. Fazem cabeças grandes, ou bracinhos muito pequenos, espetam três cabelinhos na cabeça… Eu respeito sempre a proporção.

PL: Mas aqui (mostra uma ilustração com bruxas) ou aí no desenho dos Cug Melos, as figuras estão distorcidas. E esta baleia a tomar banho na banheira…

MK: Ah, mas aí é a minha imaginação, eu nunca vi nenhuma bruxa, os Cug Melos são personagens inventadas que se escondem debaixo dos cogumelos… As baleias não tomam banho na banheira… 


PL: Não desproporciona a figura humana.

MK: A figura humana, faço-a realista.

PL: É fácil ilustrar, sai-lhe à primeira?

MK: Isso varia. Há uma época em que eu gosto menos do meu desenho, nos anos 40. É tudo muito duro e formal, por exemplo, como no livro da Irene Lisboa. Era o estilo da época…

Clara Botelho: Mas depois encontrou um estilo mais pessoal…

MK: Sim, depois o estilo fica mais pessoal. Percebia-se isso na exposição que fizeram, na Biblioteca Nacional. Aqueles trabalhos que lá estiveram expostos, ofereci-os todos à Biblioteca Nacional. 







PL: Por falar em bibliotecas, já tem alguma com o seu nome?

MK: Foi uma amabilidade que me fizeram…

Aqui a Maria Keil parecia um pouco embaraçada, por isso intervim:

CB: Tem sim, é uma das bibliotecas municipais de Lisboa, uma biblioteca infantil, ali para os lados do Paço do Lumiar…


MK: Mas eu acho que isso me dá uma responsabilidade, não sei se lhe dou a devida atenção. Eu levo as coisas muito a sério…

PL: Quando tem uma encomenda para ilustrar um livro, como é?

MK: Primeiro tenho que ler o livro, claro. Depois, depende um bocado da relação que tenho com o autor. A primeira ilustração que fiz foi para a Irene Lisboa. Depois fiz para o José Rodrigues Miguéis, em gravura, foi uma experiência em película estragada que depois foi fotografada.

PL: Fica muito presa ao texto?

MK: Sim, muito. O texto é apoio, mas também é limitação, porque não se pode inventar.

PL: Ilustra para os outros mas também tem trabalhos escritos e ilustrados por si. É mais fácil ou mais difícil?

MK: É diferente. Quando eu escrevo também começo pelo texto. Trabalhar para os outros pode ser mau porque em certas alturas a encomenda tem prazos e não está a sair bem, não dá tanto jeito.

PL: Já lhe aconteceu não gostar de algum texto? Já lhe aconteceu recusar por causa disso?

MK: Já me aconteceu não gostar, mas não me lembro de recusar. Se não gosto tanto de um texto, faço um esforço.

PL: Conhecia os autores todos? Teve problemas com autores?

MK: Na maioria dos casos conhecia os autores. E eles costumam aceitar bem o que eu faço.

PL: Estão aqui três edições da “Noite de Natal”, de Sophia de Mello Breyner, a primeira ilustrada por si e as outras mais recentes, com ilustradores diferentes. O que acha disso?

MK: Acho que está certo, é uma renovação. Só tinha importância se fosse na mesma época, mas quando passou tempo ou é outro editor, é natural. Há vários livros nessas condições. Às vezes é por motivos comerciais…

Ilustração para A Noite de Natal, de Sophia de Mello Breyner

PL: E se o livro fosse escrito e ilustrado por si? Aceitava que outros o ilustrassem?

MK: Não, isso não, aí eu sou a autora e tem de ser como eu fiz. Mas podem acontecer coisas engraçadas: uma vez a Matilde Rosa Araújo foi a um país de Leste, não me lembro qual. Fizeram-lhe uma homenagem em que tinham pegado nas minhas ilustrações do “Palhaço Verde” e depois cortaram, desenharam por cima, com imenso mau gosto. Uma coisa horrível… (ri-se, bem disposta).

PL: A Maria também conhece países de Leste?

MK: Aí por 1980, eu estava viúva há pouco tempo e pedi uma bolsa à Fundação Gulbenkian para ir ver ilustração infantil pela Europa fora. Como arranjei um bilhete mais barato de comboio, fiz render a bolsa, consegui ir a mais países. Comecei por Londres, estive quase um mês, a visitar aquelas editoras todas. Depois fui para Bolonha, onde havia uma feira do livro infantil para editores e autores. Basta dizer que à porta tinha um cartaz que dizia: “é proibida a entrada a crianças e cães”. Era enorme, lindo. Daí fui para Varsóvia, na Polónia. Os livros eram lindíssimos e baratíssimos, quem fazia as ilustrações eram os professores das Belas Artes, que trabalhavam sem receber praticamente nada. Segui para Praga e já era um bocadinho mais negócio, mas de grande qualidade, livros menos baratos mas muito bons. Vinham escolas às instalações das editoras, havia espectáculos para as crianças, assisti a representações. Passei pela Suíça, vi imensos livros, mas muito caros. Em Paris aquilo era sobretudo negócio, livros muito bons mas só mesmo para fazer dinheiro.

CB: Antes do 25 de Abril, ilustrou manuais para o ensino primário. Quer contar sobre isso?

MK: Os livros estiveram pouco tempo em circulação, depois de 1974 foram retirados, porque tinham muitas referências do antigo regime, coisas sobre as colónias, procissões…

PL: Teve problemas com isso, alguém achou que a Maria colaborava com o governo [regime] anterior?

MK: (Ri-se) Não, ora essa! Eles precisavam de nós mas sabiam quem nós éramos… Nós, gráficos, éramos poucos e todos anti-regime. Todos trabalhámos para o SNI, por exemplo.


PL: Ainda pinta? Qual foi o último quadro que pintou?

MK: O último foi aqui há meia dúzia de anos, uma coisa pessoal. Eu não sou uma pintora…

PL: Mas fez exposições de pintura.

MK: Duas ou três individuais. Expus os retratos e sempre foram bem aceites. Mas tenho pinturas que fiz e nunca hei-de expor, são coisas pessoais.

Maria Keil no seu estúdio e com o filho Francisco (Pitum) Pires Keil do Amaral e o marido Francisco Caetano Keil Coelho do Amaral)

PL: Vê diferenças relevantes na forma como a ilustração era tratada noutro tempo e nos dias de hoje, a nível do reconhecimento artístico?

MK: Agora já se reconhece, há exposições, salões, os trabalhos e os artistas são mais bem tratados. E há tanta coisa bonita por aí… Olhem, eu colecciono convites para exposições, desde há imenso tempo até agora, aquilo merecia ser mostrado. Dá para ver como as coisas foram evoluindo, o que se expunha e se expõe e também os próprios convites, a maneira de fazer trabalho gráfico. Se houvesse alguém interessado em organizar, eu dava isso para uma exposição.


PL: Obrigado, Maria Keil!

MK: Eu também agradeço por se terem lembrado de mim.

(1) Maria Keil realizou, gratuitamente, a decoração azulejar de todas as estações do Metropolitano de Lisboa inaugurado em finais de 1959. Contou uma vez, que o marido, o arquitecto Francisco Keil do Amaral, responsável pele rede do Metropolitano de Lisboa, "chegou a casa preocupado com a falta de dinheiro para acabar o projecto" quando ela lhe sugeriu os azulejos. "É uma arte barata, mas vistosa, e muito adequada aos espaços públicos. Por ordem do [Presidente do Conselho] Oliveira Salazar, os azulejos não podiam ser figurativos, daí ter optado pelo abstracto".

(2) Mas quatro anos depois desta entrevista, em 2009, voltaria a trabalhar no Metropolitano, desta vez com o arquitecto Tiago Henriques, na extensão da estação de S. Sebastião da Pedreira, para a qual fizera os primeiros painéis, em 1959.

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HOMENAGEADA 
NO ENCONTRO DA TERTÚLIA BD DE LISBOA 
DE 9 DE SETEMBRO DE 2005







Foto duplamente histórica da TBDL, pela presença de Maria Keil e... não só.

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