segunda-feira, 25 de junho de 2012

JOBAT NO LOULETANO – 9ª ARTE – MEMÓRIAS DA BANDA DESENHADA (LII e LIII) – CARLOS ALBERTO E O MUNDO DA BD – ESBOÇOS DE MEMÓRIA 7 – Por José Batista E O CAMARADA – UMA REVISTA 100% PORTUGUESA – 1 – por Jorge Magalhães




9ª ARTE
MEMÓRIAS DA BANDA DESENHADA
(LII - LIII)


O Louletano, 29 de Março a 4 de Abril 2005


CARLOS ALBERTO E O MUNDO DA BD
Esboços de memória – 7

por José Batista

Para Mário de Aguiar (M. de A.) os elementos da secção de desenho, nos últimos anos da década de sessenta, deveriam estar sempre disponíveis para tudo o que a sua criatividade congeminasse na área da ilustração ou pintura. Essa secção era também a menina dos seus olhos, a qual exibia perante alguma visita que quisesse impressionar, mormente elementos de outras editoras das quais re­publicava material, sendo os espanhóis os mais frequentes. Foram poucas essas ocasiões, mas causaram um certo mal-estar, pois fazi­am-nos sentir como se fossemos raridades em exposição.

Embora a colaboração feita na empresa pudesse, sem prejuízo para a editora, ser executada em casa ou no atelier particular de cada um – pois tanto Carlos Alberto quanto Eu os tínhamos – M. de A. exigia o cumprimento de um horário – das 10h às 13h e das 15h às 18h. Todos recebiam à peça, quer elementos da redacção, quer co­laboradores ex­teriores.

A 30 anos de distância, a pers­pectiva do tem­po permite uma análise desapai­xonada em que as emoções sen­tidas na altura estão ausentes, logo isenta dos condicionalis­mos que forçosamente interfe­ririam nas con­clusões resultan­tes de uma apreciação em cima do acontecimento. Não há duvida de que M.de A. gostava de apostar na edição, para a qual tinha especial faro, mas também é um facto que contava com um corpo redactorial que plenamente materializava – mesmo enri­quecia – os seus sonhos.

A forçada disponibilidade da secção para trabalhos fora do âmbito artístico para que estava vocacionada – o campo da edição – levava a situações um tanto ou quanto incomuns, em que alguns dos seus ele­mentos se viam enredados, sem hipóteses de recusa.

Sócio de uma casa comercial situada na área da Avenida Duque d'Ávila, era aos ilustradores da APR que Mário de Aguiar recorria para executar os trabalhos de decoração que em certas alturas julgavam necessários, tais como pinturas em vidros de figuras de Walt Disney, pois que a casa se chamava Branca de Neve.

Certa feita, não recordo se a tarefa era essa ou a publicidade a uma qualquer publi­cação que ele desejava lançar, estava um pequeno grupo de que faziam parte Carlos Alberto, Américo Tábuas, eu, e mais alguém que não relembro, noite a dentro, na cave de um prédio, à volta com uns pincéis. De re­pente, um tremor de terra lento e ruidoso, sacudiu o solo lançando o pânico entre nós, pois que a luz, se não erro, se apagou. Nessa noite o serão terminou mais cedo.

Lisboa foi sacudida por vários tremores de terra na década de sessenta e houve pessoas que vieram para a rua em trajes mais que menores.

Este apontamento nada terá com a área da BD, será apenas uma pincelada pitoresca na aguarela que foi esse tempo, cenário onde Car­los Alberto e mais alguns artistas dessa época se entregaram de alma e coração àquilo que gostavam e sabiam fazer – a ilustração. A obra aí está, perene, desafiando o futuro.

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O Louletano, 5 a 11 de Abril 2005

O CAMARADA
UMA REVISTA 100% PORTUGUESA-1

por Jorge Magalhães

Com este título – que poderia pressupor outras origens ideoló­gicas – saiu para a rua em 1 de Dezembro de 1947, Dia da Indepen­dência e simultaneamente, como era celebrado nessa época, dia da Mocidade Portuguesa, o 1º número de uma revista infantil editada por aquela organização nascida no seio do Estado Novo.

Tinha como director Baltazar Rebelo de Sousa (que viria a ser figura proeminente no governo salazarista e pai de um dos mais conhecidos políticos da actualidade: Marcelo Rebelo de Sousa), e como chefe de redacção António Manuel Couto Viana, escritor e poeta de apurado estro.

Talvez a faceta mais curiosa do Camarada, logo nos seus pri­meiros anos de vida, fosse a quase total ausência de proselitismo, ao contrário do que seria de esperar de uma revista apadrinhada por uma organização que procurava captar e mentalizar os mais jovens, arregimentando-os para as suas fileiras, não só de corpo como de alma.

Mas esse aspecto doutrinário só tenuemente se descortina nas páginas do Camarada, sobretudo após os primeiros vinte números. Em vez dele, surge o propósito de informar, educar e divertir, sob a forma de histórias aos quadradinhos, contos, poemas, curiosida­des, passatempos, o que nào constituía forçosamente um prolonga­mento da escola e da ideologia fascista que então dominava a soci­edade portuguesa.

As histórias aos quadradinhos, que no início são raras, vão-se progressivamente tornando mais frequentes, chamando a atenção para o grafismo de alguns jovens e talentosos colaboradores, com particular destaque para Júlio Gil, então com 23 anos, cujo estilo original iria criar escola.

Outros nomes dignos de registo, ainda no dealbar das suas car­reiras, que depois seguiriam percursos diversos, foram Marcelo de Moraes, António Vaz Pereira, San-Payo, José Leal, J. Mattoso, António Alfredo, Ribeiro Modesto, Bastos Coelho, quase todos estudantes de Arquitectura, unidos por uma camaradagem que se reflectia, de forma visível, nos seus próprios trabalhos.

A simbiose entre estes autores – apesar das suas diferenças de estilos – advém, de facto, desse percurso comum, da troca de ideias e experiências e da frescura da inspiração que caracterizavam o seu pequeno grupo, tão distinto dos restantes desenhadores portugueses da época como eram diferentes, por exemplo, o Diabrete e o Mos­quito, as duas revistas que dividiam as preferências do público in­fantil e contra as quais não havia concorrência possível.



Capa desenhada por Júlio Gil para a revista Camarada (nº1 do 7º Ano - 2ª série - 11/1/1964), onde é apresentada mais uma aventura de Chico, um dos poucos heróis da BD portuguesa com acção em diversas aventuras e prancha da BD O Chico e o Espírito de Fogo, também da autoria de Júlio Gil, publicada na revista Camarada (nº 1 - 7º Ano - 2ª série - 11 Jan. 1964). Para quem viveu em Angola e conhece bem Luanda, a imagem da prancha inicial terá com certeza um fascínio especial, ainda mais por representar a baía daquela cidade na década de 1960, com os edifícios bem desenhados por um autor de BD que era arquitecto. 
(Geraldes Lino in Fanzines de Banda Desenhada)


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A FILHA DO REI DE NÁPOLES
págs. 12 e 13
Jorge Magalhães (arg.), Carlos Alberto (des)

 

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