domingo, 27 de julho de 2014

GAZETA DA BANDA DESENHADA (28) – NA GAZETA DAS CALDAS – “MAUS” DE ART SPIEGELMAN FINALMENTE EDITADO EM PORTUGAL



GAZETA DA BANDA DESENHADA (28) 
NA GAZETA DAS CALDAS

“MAUS” DE ART SPIEGELMAN 
FINALMENTE EDITADO EM PORTUGAL

Gazeta das Caldas, 25 de Julho de 2014
Jorge Machado-Dias

Nota: alguns excertos do texto e algumas imagens que aqui aparecem não foram publicadas no jornal por falta de espaço.

Foi finalmente editada em Portugal, pela Bertrand, em Maio passado, num único volume, a obra prima de Art Spiegelman. Depois de ter sido publicada originalmente entre 1980 e 1991 na revista “Raw”, foi de seguida editada em dois volumes, com o título genérico Maus – A História de Um Sobrevivente, tendo o primeiro volume o subtítulo de O Meu Pai Sangra História e o segundo E Aqui Começaram os Meus Problemas.


A Pantheon Books (de Nova Iorque), quando editou toda a história num único volume de 296 páginas, chamou-lhe “Novela Gráfica”, o que não agradou ao autor, por pensar que se estava a querer esconder a característica de a obra ser em banda desenhada. Mas essa designação acabou por vingar.

Maus ("ratos", em alemão) é o registo das memórias de Vladek Spiegelman, judeu polaco sobrevivente de Auschwitz, durante o Holocausto, narrada por si próprio ao filho, Art Spiegelman. Acompanha a sua história vinheta a vinheta, desde a juventude e o casamento na Polónia, em meados do ano de 1930, antes portanto da Segunda Grande Guerra, até à deportação para Auschwitz e posterior libertação em 1944. Art (de Arthur) nasceria já em 1949, em Estocomo, Suécia.

A característica graficamente mais marcante de Maus, é que o autor retrata os diferentes grupos étnicos através de várias espécies de animais: Os judeus são os ratos, os alemães, gatos, os franceses, sapos, os polacos não judeus, são os porcos, os americanos, cães, os suecos, renas, os ciganos, traças e os ingleses, peixes. O uso do antropomorfismo, uma técnica muito utilizada em desenhos animados e até mesmo na banda desenhada, foi um recurso irónico em relação às imagens da propaganda nazi, que mostravam os judeus como ratos e os polacos como porcos. 

Acrescente-se que a publicação de Maus na Polônia teve mesmo de ser adiada devido a esta opção do autor. Até 2011 Maus havia sido traduzido para cerca de trinta línguas. Três traduções foram particulamente importantes para o autor: francês, por causa da esposa e também pelo seu respeito à BD franco-belga; alemão, foco do livro; e polaco. A Polónia aparece como cenário na maior parte do livro e o polaco era a língua de seus pais e sua língua na infância. A recepção na Alemanha foi positiva – Maus tornou-se um best-seller e encontra-se em muitas salas de aula. A versão polaca, como dissemos atrás, enfrentou dificuldades. Mesmo em 1987, quando o autor planeou uma visita de pesquisa à Polônia, foi questionado sobre a sua escolha de mostrar os nativos do país como porcos por um membro do consulado polaco. Ele foi avisado de que era um insulto forte chamar alguém de porco, assim como o é nos Estados Unidos. Editores e comentaristas temeram tocar no livro com medo de protestos e boicotes. Mas Maus foi finalmente publicado na Polônia em 2001 por Piotr Bikont.

O livro é dedicado a Anja, mãe de Spiegelman, que se suicidaria em 1968, ao irmão, Richieu, morto durante o Holocausto e que ele nunca conheceu, e à primeira filha do autor, Nadja. Uma fotografia do irmão de Spiegelman também prefacia o livro. Já agora, o pai, Vladek, faleceria em 1982.

Digamos também que uma frase de Adolph Hitler é citada na abertura do livro: "Os judeus são indubitavelmente uma raça, mas eles não são humanos".

Maus, além do prestigiado Prémio Pulitzer (em 1992), conquistou o prémio Eisner, o prémio Harvey e o prémio do Festival Internacional de Comics de Angoulême.

Sobre a tradução de Maus (a edição portuguesa da Bertrand foi traduzida por Joana Neves), deverá dizer-se que sem outra informação adicional, pode em alguns momentos parecer que o texto tem uma má tradução ou revisão, ou ambas. No entanto, deve esclarecer-se que esta questão não se prende com falhas na tradução ou na revisão do texto.

À semelhança do texto original de Art Spiegelman, foi seguida nesta tradução o critério de manter um desvio das falas da personagem Vladek Spiegelman ao inglês padrão. Vladek Spiegelman é um polaco idoso e emigrante, terá pois começado a falar inglês quotidianamente já depois de adulto, pelo que muitas vezes não fala com inteira correcção gramatical e sintáctica. A excepção ao desvio acontece quando a voz Vladek Spiegelman surge nas recordações da sua juventude já que nesses momentos, o personagem Valdek fala com fluência por supostamente estar a expressar-se na sua língua de origem. O desvio atrás referido é não só intencional como também, na perspectiva do autor, uma característica inalienável e integrante da personagem, e por isso é exigência do autor que se mantenha em todas as traduções.

Arthur (Art) Spiegelman nasceu em 1949 em Estocolmo. Estudou nos Estados Unidos, onde, com 16 anos, iniciou a sua carreira de ilustrador e autor de comics. Foi ilustrador e capista da revista New Yorker durante dez anos e é co-fundador e editor da “Raw”, a famosa revista de BD e artes gráficas de vanguarda, que ajudou a popularizar artistas como Charles Burns, Chris Ware e Ben Katchor. Ensina na School of Visual Arts, em Nova Iorque. Os seus desenhos e gravuras foram exibidos em galerias e museus por todo o mundo.

Outros livros de Spiegelman:

Litle Lit – Strange Stories for Strange Kids, com Françoise Mouly, arte-editora da revista New Yorker. Publicada em livro em 2003.

In the Shadow of No Towers (À Sombra das Torres Ausentes), 2002/2004. Sobre as experiências do autor no ataque contra os Estados Unidos pela organização fundamentalista islâmica al-Qaeda em 11 de setembro de 2001. Devido à dificuldade de Spiegelman em conseguir publicá-lo nos Estados Unidos, o livro foi publicado em 2002 pelo semanário alemão Die Zeit, levando dois anos e meio para ser concluído. Também foi publicada uma parte na colectânea de comics britânicos, Dead Herring Comics. O livro foi finalmente publicado na íntegra, nos Estados Unidos, pela editora Viking Books em 2004, tendo sido seleccionado pelo The New York Times como um dos 100 mais notáveis livros do ano.


Já agora, ver também AQUI o nosso post sobre as edições de Maus em 2 volumes, pela Difel.

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