terça-feira, 9 de dezembro de 2014

BDpress #447: REPORTAGEM SOBRE A COMIC CON PORTUGAL – no PÚBLICO

UM PARQUE DE DIVERSÕES 
CHAMADO COMIC CON PORTUGAL

Tal como sempre me quis parecer que ia ser, a Comic Con Portugal teve, ao que parece, 30 mil visitantes (sem escolas, eh, eh...), mas... será que a vertente bedéfila teve a primazia, ou foram o cosplay e os actores cinéfilos os preferenciais alvos do público? Ao que parece, os stands de livreiros e editores de BD venderam bem, portanto... Mas não se pode ainda fazer uma ideia precisa do que aquilo foi. Ficam aqui, para já, os textos publicados no jornal Público sobre o evento e, mais tarde, talvez possamos ter algum feedback de editores/livreiros de BD que lá estiveram.

 PÚBLICO, 07/12/2014 

Por Mariana Duarte 

A curiosidade e a presença de actores internacionais foram os principais factores de sucesso da primeira edição do evento de cultura pop, que, este fim-de-semana, fez deslocar mais de 30 mil pessoas à Exponor, em Matosinhos.


Filas quilométricas e muita ansiedade para ver Natalie Dormer, fazer-lhe uma pergunta, pedir-lhe um autógrafo e uma selfie pronta-a-usar no Facebook. A actriz de Game of Thrones e The Hunger Games foi o centro das atenções do segundo dia (sábado) do Comic Con Portugal, que fez deslocar mais de 30 mil pessoas à Exponor, em Matosinhos, entre sexta-feira e domingo, ultrapassando as melhores previsões da organização.

“Ter conseguido chegar a estes números vai permitir que nos próximos anos [o evento está garantido pelo menos até 2018] possamos ter impacto internacional e trazer mais convidados e vedetas lá de fora”, disse ao PÚBLICO Paulo Rocha Cardoso, director do Comic Con Portugal.

Na sexta-feira, com o evento ainda a meio-gás, já dava para perceber que eram muitos os adolescentes (e alguns adultos) que estavam na expectativa da chegada de Natalie Dormer no dia seguinte. E assim foi: a actriz britânica lotou o Auditório A da Exponor, onde respondeu a perguntas dos fãs. O mesmo aconteceu, mas em menores dimensões, com outras celebridades, como Morena Baccarin (nova contratação de Gotham), ainda na sexta; Seth Gilliam (The Walking Dead), no sábado; Paul Blackthorne (Arrow) e o elenco principal da série Da Vinci’s Demons, no domingo.

Os actores internacionais foram a principal atracção do primeiro Comic Con Portugal, evento arquitectado à imagem das grandes convenções de cultura pop dos EUA que reúnem televisão, cinema, banda desenhada, videojogos e cosplay. Não se trata, portanto, de uma versão do Comic Con de San Diego (o mais mediático do género), como muita gente pensou, mas de uma adaptação do conceito para o mercado português.


Paulo Rocha Cardoso admitiu que a maior fatia do orçamento foi aplicado no sector da televisão e do cinema, num trabalho em parceria com os canais FOX, Syfy (com a antestreia mundial da série The Librarians), MOV, AXN, RTP e Disney Channel. A primeira investiu “um valor bastante representativo” no evento, disse ao PÚBLICO Assunção Loureiro, vice-presidente de Branding & Portfolio Management da FOX.

Durante o fim-de-semana não faltaram curiosos na Exponor (portugueses, mas também espanhóis, franceses e ingleses), como se de um enorme parque de diversões geek se tratasse. Uns eram caricaturados por artistas, cantavam karaoke, caçavam autógrafos, jogavam videojogos ou viam as peças originais de filmes de cinema fantástico, como as lâminas de Freddy Krueger de Pesadelo em Elm Street, na ExpoSyfy; enquanto outros arrastavam zombies por uma corda, imitando a personagem Michonne deThe Walking Dead. O cosplay e os cosplayers (pessoas que se mascaram de personagens de séries, filmes, BD, videojogos e anime) são uma parte importante destes eventos – que o diga Raul Baptista, que fez a sua própria armadura de Iron Man em casa, durante sete meses.


Feminismo e BD

A forte presença de mulheres no Comic Con prova que a cultura geek está cada vez menos falocêntrica. O feminismo foi, inclusive, abordado por várias visitantes e artistas durante o evento. Natalie Dormer referiu (entre as chalaças machistas e evitáveis do moderador, o humorista Luís Filipe Borges) que os argumentistas, ao criarem certo tipo de personagens femininas, não percebem que estão a contribuir para a fetichização da mulher.

Morena Baccarin, numa entrevista-relâmpago ao PÚBLICO, confessou que apesar de já ter participado em séries muito diferentes entre si (como Homeland e The Mentalist), regressa sempre à ficção-científica, porque é onde encontra "papéis femininos fortes” (referia-se, sobretudo, à sua presença em Firefly, Stargate SG-1 e V). E a canadiana Pia Guerra, desenhista [ilustradora] da premiada série da Vertigo Y: The Last Man, disse no primeiro painel de banda desenhada internacional, na sexta, que a indústria de BD está cada vez mais aberta a mulheres artistas [ilustradoras]. “No início da minha carreira diziam-me que eu não desenhava como uma rapariga, mas agora já não ouço esse tipo de comentários.”

Apesar de não terem tido uma adesão memorável, os painéis sobre BD foram dos momentos mais interessantes do Comic Con. Passaram por lá convidados internacionais como o relevante escritor americano Brian K. Vaughan ou os desenhistas espanhóis Marcos Martín, Carlos Pacheco e Javier Rodriguez, ligados a grandes editoras dos EUA como a Marvel. E artistas [ilustradores] portugueses que fazem trabalhos para o mercado americano de BD, como André Araújo, Daniel Henriques e Jorge Coelho. Este último elogia a “aposta nos artistas nacionais” do Comic Con Portugal, incluindo o Artist’s Alley, espaço onde os autores podiam expor e vender os seus trabalhos.

Jorge Coelho crê que o evento “tem tudo para crescer e para virem nomes internacionais da BD cada vez mais fortes”. Já há, pelo menos, a bênção do mestre Brian K. Vaughan. “Para uma primeira Con, numa cidade como o Porto, isto está a ser um sucesso. Já estive no Comic Con de San Diego e no de Nova Iorque, e aqui tive uma das maiores filas de sempre para dar autógrafos.”

CAPITÃO FALCÃO DEVE ESTREAR 
NO 25 DE ABRIL DE 2015

A equipa de Capitão Falcão também marcou presença no Comic Con Portugal. O realizador João Leitão disse ao PÚBLICO que “estão a fazer os possíveis” para que o filme estreie no dia 25 de Abril do próximo ano, com distribuição em todo o país assegurada pela NOS. Data curiosa, já que o personagem principal é um super-herói fascista (interpretado por Gonçalo Waddington). Para terminar o filme só falta gravar a música original com a premiada Orquestra Sinfónica de Praga, que já trabalhou com realizadores como Pedro Almodóvar. João Leitão revelou ainda que recebeu convites de produtores de países como a Alemanha e Espanha para fazer uma versão do Capitão Falcão com os ditadores locais (Hitler e Franco, respectivamente). O realizador simpatiza com a ideia: “Era engraçado que isto se tornasse numa espécie de franchising de comédia ditatorial.”


NA ÚLTIMA DÉCADA O MUNDO DOS COMICS TORNOU-SE MAIS FEMINISTA

Mariana Duarte 

ENTREVISTA COM O AUTOR DE BD AMERICANO 
BRIAN K. VAUGHAN.

O primeiro Comic Con Portugal recebeu Brian K. Vaughan, uma das mais importantes vozes da banda desenhada americana, distinguido com vários prémios Eisner pelo seu trabalho em Y: The Last Man e Saga [recém-editado em português]. Trabalhou também em televisão, nas séries Lost e Under The Dome.


Tirou um curso de cinema, mas foi parar à banda desenhada. Como é que se deu essa transição?

Os filmes que fazia enquanto estudante nunca correspondiam completamente ao que eu queria, e eram muito caros. E poder pôr no papel tudo o que imaginava – aliás, ter os meus desenhistas a pôr no papel tudo o que eu imaginava – fazia-me feliz. Decidi, então, deixar o cinema e a televisão e ser um escritor de banda desenhada.

Mas passados uns anos estava a escrever episódios da série Lost...

Fui convidado por Damon Lindelof e Carlton Cuse, dois dos produtores executivos e fãs do meu trabalho, em especial do Y: The Last Man. Era daquelas coisas que não podia recusar. Estamos, afinal, a falar de uma das melhores séries de sempre.

Y: The Last Man está para ser adaptado para cinema há mais de dez anos. Há novidades?

Acho que a hipótese do filme está morta. Poderá ser transformada em série, mas tenho receio de dar certezas porque estou a tentar responder a essa pergunta há uns doze anos.

Em Y: The Last Man retrata uma sociedade dominada por mulheres (apenas um homem e o seu macaco sobrevivem). É um tema clássico da literatura especulativa feminista. O que o levou a tratá-lo?

Tinha acabado de ser deixado por uma namorada, depois de uma relação longa e conflituosa. Estava confuso e atormentado por causa do sexo feminino e queria tentar compreendê-lo melhor. Decidi, então, pegar numa espécie de fantasia clássica masculina e mostrar o pesadelo que isso iria ser. Adoro falar sobre questões de género e parece que na BD esse diálogo recai só sobre as mamas da Catwoman... Tentei elevar a discussão.

Acha que o meio da BD americana tem mudado nesse sentido?

Tem melhorado bastante. Quando comecei a escrever Y: The Last Man e a ir a convenções deste género, eram sempre homens a vir ter comigo. Agora, em Saga [recém-editado em português – ver amanhã aqui no Kuentro], diria que 60% dos leitores são mulheres. Na última década, o mundo dos comics tornou-se num meio igualitário e mais feminista. Bem mais do que o cinema e a televisão.

Criou uma editora online com o Marcos Martín [desenhista que também esteve presente no Comic Con Portugal], a Panel Syndicate, onde usam um modelo pay what you want. Quando lançaram a primeira edição de The Private Eye fizeram bastante dinheiro. Continua a correr bem?

Continua, contra todas as minhas previsões. A BD tornou-se num hobbie extremamente caro e isto foi uma maneira de tentarmos mudar as regras do jogo. A edição nº. 9 saiu esta semana e as pessoas continuam a pagar, apesar de não ser preciso. O mérito é todo do Marcos, por se ter lembrado de criar esta espécie de fantasia socialista (risos). Acho que pode ser um bom modelo para o futuro, mesmo para os autores que não estejam estabelecidos no meio, porque se os leitores gostarem vão comprar. Não acreditava nisso, mas é verdade.

The Private Eye fala de uma sociedade pós-internet, que passou a valorizar a privacidade depois de toda a informação guardada online ter vindo a público. Considera que algo como #Thefappening [roubo de fotografias de celebridades guardadas no iCloud] é uma primeira demonstração de que isso pode realmente acontecer?

Este comic foi concebido antes das notícias sobre o Edward Snowden e do #Thefappening. Começámos a tratar este tema como uma fábula de uma sociedade no futuro, mas afinal é algo que já está a acontecer. O #Thefappening é a ponta de um iceberg que vai explodir, não nos próximos anos, mas nos próximos meses. Acredito que a próxima geração, a dos meus filhos, vai rebelar-se contra o domínio das redes sociais e vai passar a valorizar muito mais a privacidade.

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