segunda-feira, 22 de dezembro de 2014

JOBAT NO LOULETANO — MEMÓRIAS DA BANDA DESENHADA (173-174) — JESUS BLASCO — CUTO — HERÓI DE UMA GERAÇÃO (10 e 11) por Jorge Magalhães



MEMÓRIAS 
DA BANDA DESENHADA (173-174)

Depois de um longo interregno de sete meses, voltamos a Jobat no Louletano — Memórias da Banda Desenhada, prosseguindo com o texto de Jorge Magalhães sobre o Cuto de Jesús Blasco.

O Louletano, 22 | Junho | 2009


Durante uma movimentada cena que electrizou os lei­tores, Cuto, ao lutar com um bandido, é projectado pela janela de um arranha-céus, ficando por sorte pendurado de um toldo que lhe amorteceu a queda, a alguns metros da rua, perante o espanto de duas jovens secretárias que vêem as suas pernas bambolear-se diante da janela do escritório onde trabalham. Salvo pelas raparigas, Cuto, romântico por natureza, retribui-lhes com galanteria.

Tal como em "O Ardina Detective", o mote escolhido por Blasco é a violência do crime organizado; mas agora em contraponto com a violência psicótica de um "serial killer", que persegue rapazes nos subúrbios de Nova Iorque.

REGRESSO AO FANTÁSTICO

Apesar da presença de Cuto nas suas páginas, O Gafa­nhoto teve morte brusca ao fim de 10 meses de publicação, e esse fracasso de um projecto que tanto acarinhara precipitou a partida de Cardoso Lopes para o Brasil, onde o criador de Zé Pacóvio e Grilinho passou o resto da sua vida, con­tinuando a dedicar-se à actividade editorial.

Não tardou que Cuto regressasse ao Mosquito, mer­gulhando, a partir do n° 1155, noutra aventura que causou sensação, "A Ilha dos Homens Mortos", em que Blasco tentou variar de estilo, retornando à faceta humorística e à caricatura gráfica, mas por pouco tempo, pois a imagem "real" de Cuto já se tinha imposto aos leitores.

Em companhia de dois novos amigos, o endiabrado Tolo e o im­pulsivo Flo­cho — que tal como Ta'tanka, Slim , Wa'oka, Pedro de Lencas­tre, Kha-I, "Imbecil", e até o Mago Branco, perduraram longamente na memória dos leitores —, Cuto vive mais uma aventura de ambiente fantástico, chegando num submarino a uma ilha quase submersa, dominada por um bandido embuçado (versão ainda mais sinistra do Grande Senhor), que graças a um diabólico invento pode paralisar os motores dos aviões que sobrevoam o seu refúgio. A ilha, cuja única ligação com o mundo exterior se faz por uma comporta abaixo do nível do mar, é outra variante da obsessiva fascinação de Blasco pelos redutos secretos e aparentemente inexpugná­veis, como a fortaleza de Tok Saloung, autênticos ninhos de criminosos onde reina um ambiente de opressão, de crueldade e de terror.

Numa cena carismática, Cuto, prisioneiro da ilha junta­mente com Flocho e Tolo, descobre que os seus captores são seres de pesadelo, sem feições, uma espécie de "zombies" que obedecem maquinalmente às ordens do seu chefe. Este usa um capuz encimado por um grande ponto de interrogação — o que alia à evidência do fantástico um simbolismo quase esotérico —, tal como acontecia com o Grande Senhor, cujo rosto coberto por uma máscara ocultava, sob o brilho malévolo do olhar, um mistério indecifrável. »»

Cuto - A Ilha dos Homens Mortos
imagem publicada por Jorge Magalhães no seu blogue O Gato Alfarrabista

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O Louletano, 06 / Julho / 2009


Outra magnífica sequência é a do pesadelo de Cuto, em que este vê surgir um monstruoso polvo que, depois de devo­rar Flocho, se prepara para lhe infligir o mesmo tratamento. Cuto consegue livrar-se da avantesma com uma carga de dinamite, mas é projectado no espaço pela explosão, caindo numa fofa camada de nuvens... sob a qual está o chão da sua cela e o regresso à realidade.

Mais uma vez, Blasco utiliza uma sequência onírica como contraponto humorístico ao horror e à violência que envolvem as suas personagens. Pesadelo e realidade são frequentemente, na obra do desenhador catalão, duas faces da mesma moeda.


O SEGUNDO FÔLEGO DE CUTO

Cuto estava prestes a despedir-se também d'O Mosquito, que só voltaria a apresentá-lo em duas ou três páginas humo­rísticas. Quando, em 14 de Fevereiro de 1953, o mais popular jornal português de histórias aos quadradinhos terminou a sua carreira, logo outras portas se abriram para o emble­mático herói de Jesús Blasco.

Anun­ciado sem pompa e circunstân­cia, Cuto re­apareceu no Mundo de Aventuras n° 192, de 16 de Abril do mesmo ano, e na Colecção Condor, primeiro em histórias curtas como "O Rapto", "O Lago Fatal", "Uma Aventura no Oeste" e "O Junco de Sing" — que, com excepção de "O Lago Fatal", nada distingue especialmente, a não ser o apurado realismo — e, mais tarde, em "Estrela Negra", aventura que pertence à última fase de Chicos, durante a qual o estilo de Blasco caiu na rotina, tornando-se cada vez mais académico, como se a espontaneidade tivesse dado lugar ao maneirismo.

A acção de "Estrela Negra", localizada no Japão e na ilha de Sumatra, logo após o fim da 2a Guerra Mundial, tem por tema a busca de um tesouro, mas é pena que um cenário tão prometedor não tivesse inspirado a Blasco outras premissas, sem as intermináveis perseguições, tiroteios e lutas corpo a corpo que parecem ser o único móbil da aventura, numa selva despida de exotismo e de mistério.

Nem mesmo a bela e perversa Estrela Negra — pálida cópia de outras mulheres fatais da Banda Desenhada, como Shangai L'il e Dragon Lady — possui aquele toque sensual que Blasco, num dos seus melhores períodos, soube imprimir à Grande Senhora e à rainha Bolunda de "O Planeta Mis­terioso" —inefável "historieta" de ficção científica, envolta numa aura de erotismo e fantasia barroca —, que deixam a perder de vista as cândidas heroínas de Flash Gordon.

Em face do crescente declínio das suas aventuras, o êxito e a popularidade de Cuto começaram também a diminuir, embora a sua recordação continuasse viva no espírito de milhares de leitores portugueses e espanhóis. »»

Cuto – Estrela Negra

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