sexta-feira, 12 de novembro de 2010

BDpress #195: BANDA DESENHADA E ARQUITECTURA – EXPOSIÇÃO EM PARIS e O TINTIN DE SPIELBERG

Inês Nadais, escreve sobre a grande exposição que está patente ao público em Paris, "Archi & BD: La Ville Dessinée", na Cité de l'Architecture et du Patrimoine de Paris, até 28 de Novembro. Quem quiser pode ir, dizem que também se come bem por lá…

Noutro texto, Luís Miguel Queirós fala-nos do aguardado Tintin de Sielberg – com um vídeo de apresentação e tudo…


Público, suplemento Ípsilon, 29 de Outubro 2010

A CIDADE DESENHADA

Da Gotham City de Batman às múltiplas Chicagos de Chris Ware, a banda-desenhada fez quase tanta cidade como a arquitectura. Em Paris, uma exposição mostra como essas cidades imaginárias configuram uma história alternativa do urbanismo – e do século xx.

Inês Nadais, em Paris

O século XX acordou estremunhado na grande cidade (uma coisa nunca antes vista, a crescer na vertical, interminável: finalmente o ovo Mundo) e a banda-desenhada, rapariga da metrópole, já lá estava. As ruas de Chicago (cidade-laboratório integralmente transfigurada depois do grande incêndio de 1871) e de Nova Iorque (onde os imigrantes europeus não paravam de chegar directamente dos "decks" apinhados dos transatlânticos para os quartos apinhados dos "tenements" do Lower East Side) foram o recreio dos primeiros heróis dos "comics", que se empoleiravam nos arranha-céus como dantes, no Velho Mundo, se teriam empoleirado em árvores, e logo aí se percebeu que ia haver espaço para duas narrativas urbanas paralelas na BD: as cidades vividas (desde logo antecipadas pela Hogan's Alley de Richard F. Outcault, verdadeiro "ghetto" de imigrantes onde um miúdo, o Yellow Kid, era rei) e as cidades imaginadas (com a iniciática Slumberland de Winsor McCay, a cidade dos sonhos e dos pesadelos de Little Nemo). Essas duas histórias paralelas estão frente-a-frente até 28 de Novembro em "Archi & BD: La Ville Dessinée", na Cité de l'Architecture et du Patrimoine de Paris.

Mas mais do que se confrontarem uma com a outra, confrontam-se sobretudo, ao longo do labirinto incandescente projectado pelo atelier Projectiles, com as cidades (verdadeiras e imaginárias, aqui também) inventadas pela arquitectura. Em parte, descobriram os comissários Jean-Marc Thévenet, ex-director do Festival Internacional de Banda-Desenhada de Angoulême, e Francis Rambert, director do Instituto Francês de Arquitectura, a banda-desenhada e a arquitectura são siamesas: "Os arquitectos e os autores de BD são, fundamentalmente, visionários. Pessoas como Enki Bilal e François Schuiten têm o mesmo valor de Rem Koolhaas como sismógrafos de uma época. ABD colocou há muito a questão do mundo que há-de vir com uma pertinência espantosa. E, claro, os seus autores têm a liberdade de inventar utopias, enquanto os arquitectos têm urna obrigação em relação aos resultados", aponta Thévenet na entrevista incluída no catálogo da exposição.

Reunindo mais de 350 obras – incluindo pranchas originais, excertos de filmes, esboços e maquetas de projectos de arquitectura -, "Archi &BD: La Ville Dessinée" ilustra o vaivém constante entre as duas disciplinas.

Sublinhando o modo obsessivo como a BD se fixou na cidade (e sobretudo em certas cidades-fétiche: Nova Iorque, Paris, Tóquio) como cenário e como protagonista (nomeadamente em séries como "As Cidades Obscuras", de François Schuiten e Benoit Peeters), mas também a maneira como o seu vocabulário influenciou gerações sucessivas de arquitectos, de Mies van der Rohe, cujo mítico projecto para a Friedrichstrasse ocupa lugar de destaque, a Christian de Portzamparc, o autor do Museu Hergé de Louvain-La- Neuve, passando por Patrice Novarina e pelos suíços Herzog & DeMeuron, que executaram em banda-desenhada, com quadradinhos e balões, os seus projectos para, respectivamente, a reconversão dos estúdios Babelsberg, em Potsdam, e a expansão urbana de Basileia.

Euforia e desencanto

As visões fantásticas do espaço urbano, tanto na sua versão utópica como na sua versão distópica, são dominantes ao longo do corredor da exposição: muito depressa a Metropolis do Super Homem e a Gotham City do Batman, verdadeiro "walk on the wild side" onde parece ser sempre de noite (e que Dennis O' Neill, autor e editor mítico da série, descreveu como "Manhattan abaixo da rua 14, onze minutos depois da meia-noite, na noite mais fria de Novembro") se impuseram como ficções representativas do imaginário associado à grande cidade.

"A razão pela qual a grande cidade se presta à BD é que ela permanece um lugar rico em aventuras. Um teatro. Um drama atrás de cada janela. Milhões de janelas", dirá Will Eisner a Frank Miller, muitos anos depois do aparecimento do Super-Homem, em 1938. "A cidade é o lugar ideal para contar histórias. E é o cenário natural da BD. Graças às ruas, às paredes, às janelas, ela organiza o suspense: as personagens sabem que se podem esconder", contrapõe o holandês Joost Swaarte, figura fundamental do estilo "ligne claire" e autor do guião em que Christian de Portzamparc se baseou para projectar o Museu Hergé, "provavelmente o único exemplo de uma banda-desenhada que se transformou em arquitectura" (o inverso
aconteceu milhare de veze ).

A banda-desenhada acompanhará o entusiasmo do século XX pelos arranha-céus, nas décadas de 20 e 30, e depois, no pós-guerra, pelo conforto e pelo design, em que a BD franco-belga investe particularmente após a Exposição Universal de Bruxelas, em 1958 (e um óvni chamado Atomium). Mas o que veio a seguir, com a expansão desgovernada dos subúrbios e a degenerescência dos centros urbanos, também encontrou o seu caminho no desencanto das cidades-fantasma de Enki Bilal e da Suicide Alley da saga "O Incal", de Moebius e Alejandro Jodorowsky. E, chegada ao século XXl, a cidade da banda-desenhada também se globalizou, de Tóquio, camaleonicamente imortalizada pela manga japonesa, à Beijing "in progress" de Zoujian, que documentou a reconversão forçada pelos jogos Olímpicos, com a Torre CCTV de Rem Koolhaas em primeiro plano. Há coisas, como essa torre de duas pernas a que os chineses deram o nome de "grandes calças", o Atomium de Bruxelas ou o Museu de Arte Contemporânea de Niterói, que parecem mais da ordem da banda-desenhada do que da realidade. Por acaso existem. Mas se não existissem teriam de ser inventadas.







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Público, suplemento Ípsilon de 5 de Novembro 2010

É ASSIM O TINTIN DE SPIELBERG
(mais, só no Natal de 2011)

"The Adventures of Tintin: The Secret ofthe Unicom", de Steven Spielberg, vai ser muito provavelmente o grande sucesso de bilheteira do Natal de 2011. O filme deverá chegar às salas a 28 de Dezembro do próximo ano e será o primeiro de uma trilogia que está a ser cozinhada por Spielberg e Peter Jackson, o realizador de “O senhor dos Anéis". A revista inglesa "Empire" revelou no inicio desta semana, em exclusivo, as primeiras imagens reais do filme, que tomam mais palpável o que Spielberg quis dizer quando explicou que o seu objectivo era "alcançar uma espécie de hiperrealidade que integrasse a linha clara de Hergé". Não desfigurar o estilo do desenhador belga é, para Spielberg, um ponto de honra: "Assumo-me como garante de que a trilogia que estou a preparar com Peter Jackson será fiel à arte de Hergé".

Filmado em 3D e recorrendo à técnica utilizada por James Cameron em "Avatar", que permite transpor movimentos e expressões faciais de actores para personagens de animação, o "Tintin" de Spielberg vai custar 135 milhões de dólares (quase cem milhões de euros), numa produção que envolve, além da Dream Works de Spielberg, a Sony e a Paramount.

O realizador anunciou este projecto há dois anos, no festival de Cannes, mas a intenção vem de longe. "No funeral de Hergé, em 1983, lembro-me de ter dito à sua viúva, Fanny, que queria muito adaptar as aventuras de Tintin ao grande ecrã, mas que respeitaria a obra do seu marido". Embora a produção esteja a decorrer sob rigoroso segredo e se conheçam poucos detalhes do filme, boa parte do elenco foi já divulgada: o actor britânico Jamie Clegg será Tintin, Andy Serlds, o Gollum de "O Senhor dos Anéis", interpretará o irascível capitão Haddock, os polícias gémeos Dupond e Dupont ficam a cargo de Simon Pegg e Nick Frost, e Daniel Craig foi escolhido para o papel de Rackham o Vermelho. É certo que Spielberg já levantou um bocadinho o véu, mas o pouco que disse, soando bastante prometedor, dificilmente permitirá formar uma imagem aproximada do que o filme possa vir a ser: "Deve muito não apenas ao 'film noir', mas também a todo o teatro brechtiano", diz o realizador, acrescentando que, "ao mesmo tempo, é uma aventura infernal".

Para abrir esta trilogia, Spielberg e Jackson escolheram uma história que se estende por dois álbuns de Tintin (o 11º e o 12º) originalmente publicados na primeira metade dos anos 40: "O Segredo do Licome" e "O Tesouro de Rackham o Terrível". E Peter Jackson, que dirigirá o próximo filme, já adiantou que está a pensar adaptar "As Sete Bolas de Cristal". Mas não garante. "Também gosto muito dos que se passam nos Balcãs, como 'o Ceptro de Ottokar', que daria um óptimo thriller".

Luís Miguel Queirós

Peter Jackson e Steven Spielberg - Dupond e Dupont?

Ver AQUI o vídeo
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Imagens da responsabilidade do Kuentro.

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