terça-feira, 16 de novembro de 2010

BDpress #196: João Ramalho Santos no JL sobre “O FILME DA MINHA VIDA”, da Associação Ao Norte e OS MENINOS KIN-DER, da LibriImpressi (de Manuel Caldas)

Antes de mais fotos sobre o Amadora BD, aqui ficam recortes do JL – Jornal de Letras, Artes e Ideias, onde João Ramalho Santos escreve habitualmente sobre BD.


JL – Jornal de Letras, Artes e Ideias, 20 de Outubro 2010


ESSÊNCIAS

João Ramalho Santos

Quando O filme da minha vida (projeto da Associação Ao Norte) se iniciou a ideia-base era, em simultâneo, a principal força e o maior motivo de desconfiança.

Pedir a autores que adaptassem em curtas bandas desenhadas (20 páginas, pequeno formato, preto e branco) um filme marcante permitiria um diálogo potencialmente interessante, garantindo ao mesmo tempo, e por associação, uma respeitabilidade e interesse mais latos do que o habitual. Mas o exercício depressa cairia no vazio, caso os resultados pouco dissessem (sobre o filme em particular, sobre qualquer coisa, no geral), ou, pior ainda, se limitassem a mimetizar fotogramas. Ou seja, como todos os projetos deste género o risco que se corre é a ideia ser muitíssimo melhor do que a sua concretização. E, de facto, tal era evidente nalguns números anteriores.

O sexto e o sétimo livro poderão ser um ponto de viragem, já que são duas visões muito bem sucedidas, e muito diferentes, publicadas consecutivamente. Ambos souberam retirar dos filmes a essência suficiente para, por um lado, tornar a relação com a BD convincente, e, por outro, criarem um objeto que vale em si mesmo.

Mas ambos transcendem o mero utilitarismo adaptativo por motivos totalmente distintos. Repulsa de Roman Polanski (1965) é, na origem, um série B de terror psicológico e baixo orçamento, que o talento obsessivo do realizador (e a prestação de Catherine Deneuve) transformaram num filme-culto.

Não só a espiral de dissolução da protagonista é sublimada de um modo brilhante, como, apesar de a componente sexual ser explícita em todo o seu esplendor de buraco negro (da frigidez à violência), o espectador nunca é presenteado com confortáveis explicações (uma evolução em relação, por exemplo, a Psycho). Alice Geirinhas resolve as perplexidades que o filme incuba com uma narrativa inteligente em que a obra é "explicada" por uma jovem de 15 anos (presumivelmente a própria autora), fascinada ao descobri-la no cinema pela primeira vez. Estão lá os elementos gráficos essenciais à Odisseia de Carol (as rachas e mãos nas paredes, os olhos do senhorio através da porta, o coelho podre, a banheira... ), mas o estilo de Geirinhas cria um ambiente próprio de BD-dentro-do-tllme, com um uso verdadeiramente notável da letragem.

Já O Dragão ataca (realizado por Robert Clouse, mas sobretudo de Bruce Lee) é outro filme-culto, até pela morte do protagonista no mesmo ano em que saiu (1973).

Mas, ao contrário de Repulsa, a sua vibração nada tem de inteletualizante em termos de estrutura narrativa e ritmo. Uma boa escolha de Tiago Albuquerque, que usa uma sensibilidade pop-oriental e um traço claro e aberto para recriar os simbolismos básicos e a fluidez coreográfica do filme. Fá-lo com o excelente achado de utilizar apenas falas em carateres chineses (supostamente corretos, mas podiam muito bem ser inventados ou tirados da lista telefónica de Hong-Kong...). E o filme está lá, intacto, mesmo para quem nunca o tenha visto, ou dele mal se lembre (e não perceba mandarim).

Um pormenor que falhou foi a creditação. Na capa e introdução fala-se apenas de Tiago Albuquerque, no interior refere-se a co-autoria de Adriano Lameira. Em que moldes? Partes iguais? Mais no desenho ou no argumento? Arte final? Era útil saber, mas apenas porque esta coleção-ideia vai ganhando qualidade e estatuto, impondo-se no panorama nacional de BD mesmo para quem duvidava do seu alcance. Aguardo com expetativa pessoal (por motivos diferentes) pela seleção de um documentário, de um filme experimental, de um musical, de filmograflas menos óbvias (incluindo a portuguesa). E, já agora, por um filme pornográfico.

Tiago Albuquerque e Adriano Lameira
O DRAGÃO ATACA
Associação Ao Norte, 20 pp, 3 euros

Alice Geirinhas
REPULSA
Associação Ao Norte, 20 pp, 3 euros



Tiago Albuquerque e Adriano Lameira



Alice Geirinhas

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JL – Jornal de Letras, Artes e Ideias, 3 de Novembro 2010

PINTURA

João Ramalho Santos

Quem se interessa por Museologia e tem a possibilidade de ir visitando Museus ao longo dos ano rapidamente se apercebe de padrões. Por exemplo, que parecem existir regras para mostras de Arte Moderna, no sentido em que (assim colabore o acervo) há associações de pintores e temas que e repetem, de Los Angeles a Copenhaga. De tal modo que o que começa a chamar a atenção são as exeções , autores que surgem suficientes vezes para serem notados, mas não as suficiente para o considerarmos membros efetivos.

Um deles é Lyonel Feininger, pintor norte-americano de ascendência alemã e que, de resto, trabalhou regularmente na Alemanha, ligado ao Expressionismo e sobretudo à Bauhaus, até à ascenção do nazismo. Há nisto uma ligeira batota: Feininger chama a atenção de quem já o conhece enquanto um dos mais museologicamente representados autores de banda desenhada que poucas vezes é referido enquanto tal. E acrescenta-se outra batota: o trabalho de Feininger em BD foi de muito curta duração, as séries de grande formato para jornais americanos Wee Willie Winkie's World (1906) e sobretudo The Kin-der-Kids (1906).

Que este trabalho seja continuamente citado como um marco da banda desenhada clássica, e que Os Meninos Kin-der mereçam por isso a excelente restauração e edição em grande (enorme) formato de Manuel Caldas (Libri lmpressi), é o maior testemunho à qualidade que Feininger trouxe para a BD. Não esteve sózinho, claro. Na época havia espaço (quer em número, quer em tamanho das páginas) , os autores tinham experiências prévias diversificadas, a linguagem não estava ainda consolidada ou o mercado massificado. Um tempo ideal para experiências, de Winsor McCay a George Herriman, passando por Cliff Sterrett ou Gustave Verbeek. No entanto, talvez a inspiração mais directa para The Kin-der-Kids passe mais por uma tira também protagonizada por miúdos aventureiros, The Katzenjammer Kids do germano-americano Rudolph Dirks (iniciada em 1897), e, por sua vez, inspirada na clássica história ilustrada alemã Max und Moritz de Wilhelm Busch (1865).

Não que Os Meninos Kin-der chamem logo a atenção pelas personagens e situações ,que o tempo curto da série mal deixou estabelecer, e sobretudo vaguear das premissas iniciais (ou mesmo explicar por completo). O que fascina no trabalho de Feininger é a alternância de soluções ,o jogo de formas e cores, o uso do surreal e do absurdo mesclado com o elemento não-tipificado da narrativa (como a oposição entre o mecânico Japansky e o espectral e clarividente Misterioso Pete) para criar algo que, um pouco como o trabalho de Tiago Manuel em Sai do Meu Filme, usa (conscientemente ou não) os códigos e a aparência de uma história infantil para melhor perturbar.

E não apenas com elementos narrativos óbvios , como a caça à baleia (p. 11), já que a crueldade não estava ausente deste tipo de BD (à semelhança das histórias "infantis" que a antecederam). Feininger também perturba graficamente com um hipnótico trabalho de composição. Se há caso de páginas equilibradas numa busca de simetrismo que se viria a tornar "clássico" (como exemplificado com a torre do campanário da p. 18) noutras instancias Feininger cria claros desequilíbrios que nem sempre desfaz, deixando vinhetas com largas manchas "vazias" (por exemplo nas p. 21, 24, 27, 33), por vezes aumentando a espetacularidade da cena, por vezes fazendo pensar não "falta nada" no desenho. Noutra perspectiva, se há muitas páginas "protagonizadas" por manchas planas monocromáticas (ou com tramas ligeiras), surgem noutros locais sombras e arestas a sugerir o Expressionismo (p. 23, 27), ou ainda o enovelar de uma miríade de traços, como nas magnificas páginas-turbilhão de tempestade (sobretudo a p. 28).

Por outras palavras: Os Meninos Kin-der estava ainda à procura de uma certa coerência/identidade quando acabou, tornando-a por isso mesmo num manancial de surpresas e experiências que têm a obrigação de interessar (também) novos autores demasiado presos a códigos, sejam eles "clássicos" ou (pior ainda, pela atitude intolerante que costumam gerar) "alternativos". Os Meninos Kin-der é uma edição romântica, numa altura em que é lícito desconfiar se ainda há suficientes leitores para a BD em papel. Uma loucura que se admira e agradece.

Lyonel Feininger
(Argumento e desenho)
OS MENINOS KIN -DER
Libri Impressi, 40 pp,22 euros

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