sábado, 1 de setembro de 2012

BDpress #368: RUI LACAS A BANDA DESENHAR DESDE 1983 – NO JORNAL i



HÄN SOLO
RUI LACAS 
CRÓNICA AOS QUADRADINHOS 
DE UM CORAÇÃO PARTIDO 


 Jornal i, 25 Agosto 2012

Por Diana Garrido

É um dos mais importantes autores de banda desenhada em Portugal. Começou a editar aos 19 anos, já ganhou vários prémios e este ano editou "Hän Solo", uma BD autobiográfica. Diana Garrido leu, falou com o autor e este conta-lhe tudo.

Hän é um rapaz holandês a viver em Lisboa. Conta-nos, entre qua­dradinhos de banda desenhada, que é na solidão que se encon­tra verdadeiramente. Sandra é a namo­rada, de quem gosta muito e que acaba por lhe partir o coração. O desgosto leva-o para Madrid, com pouco dinheiro no bolso. Hän é Rui Lacas e "Hän Solo", o novo livro do autor por­tugués, uma banda desenhada (quase) autobiográfica. O facto de a personagem ser holandesa prende-se com o nome: "Queria que ele se chamasse Hän para fazer o trocadilho com Solo, numa homenagem ao Han Solo da “Guerra das Estre­las” e, não sei porquê, o nome Han soa­va-me a holandês", conta Lacas.

Trinta foi o número de vezes que Lacas viu cada episódio da "Guerra das Estre­las". Dos antigos, claro. "Durante um Verão, era eu miúdo, via dois episódios por dia. Um de manhã, outro á tarde. No dia seguinte via o terceiro de manhã e à tarde voltava ao inicio. Foi assim que aprendi a falar inglês. " Dai a merecida homenagem do título do novo livro. Ao contrário da sua personagem. Rui não é bipolar, mais uma escolha estéti­ca para que houvesse uma justificação para os constantes pensamentos melan­cólicos de Hän. Mas, tal como o holan­dês, também Lacas teve um desgosto amoroso que o levou a fugir para Espa­nha. "Estive lá um mês. Aqueles amigos que aparecem no livro existem mesmo, conheci-os numa loja de comics. Mos­trei-lhes os meus desenhos e eles que­riam que eu editasse lá, só que fiquei sem dinheiro e vim-me embora. A ideia era ficar lá a viver... mas as coisas com essa relação andaram para trás e para a frente e voltei a correr para Lisboa. Acabou por não dar em nada", confes­sa Rui, que assume viver "muito dos amores".

"Hän Solo", editado em Junho pela Pol­vo, era um projecto abandonado, esquecido entre muitos outros trabalhos de Lacas, recuperado por Rui Brito, editor. "Comecei o livro há uns anos, porque aquilo passou-se em 2004, mas depois estava a ficar muito autobiográfico, umbi­lical, e fartei-me um bocado da história. Mas o Rui viu e perguntou se eu não queria voltar a pegar nisto. Olhei outra vez para as pranchas que já tinha feito, achei que estava giro e acabei a história." 




VINTE ANOS DE HISTÓRIAS

Rui Lacas linha 19 anos quando editou o primeiro álbum de banda desenliada. "Foi uma loucura, ainda por cima nesse ano só saíram dois livros de banda desenhada." Era uma adaptação livre de "Maldita Cocaína", de Filipe La Féria, com argumento de Jor­ge Magalhães, "argumentista transver­sal que já trabalhou com todos os dinos­sauros da BD do pais", explica Lacas.

Mas a primeira prancha de BD que Rui fez foi aos 9 anos: "Parece que nunca fiz outra coisa. Já desenhava antes, mas no 5º ano conheci um amigo que fazia BD e começámos os dois a criar histórias. "Ao mesmo tempo, tentava imitar o que já havia: "Inventava histórias do Tio Pati­nhas e aprendi a desenhar o Donald e os sobrinhos."

Nessa altura lia também "Lucky Luke", do belga Maurice De Severe, conhecido por Morris, e "Asterix", da dupla france­sa Goscinny e Uderzo, mas sem tentar copiar. "Gostava muito, mas não via os livros como uma coisa que eu pudesse vir a fazer. Parecia-me perfeitinho, que não estava no meu horizonte, como se fosse um filme, não como uma coisa onde pudesse chegar."

Mas a primeira banda desenhada que o deixou de queixo caído, ao contrário do que se poderia esperar de um amante da banda desenhada europeia de autor, foi "Batman - O Cavaleiro das Trevas" de Frank Miller. E o gosto comercial não se fica por aqui: "Se tivesse oportunidade de ir para o Brasil fazer uma “Turma da Môni­ca” à minha maneira, tipo no espaço, ou mesmo no campo, o que fosse, não pen­sava duas vezes. Acho muito giro uma pessoa chegar àquela simplicidade de bonequinhos. E também gostava de fazer “Conan, o Bárbaro”, que é o oposto, só mús­culos e espadeirada a torto e a direito."

O jeito para o desenho não passou des­percebido nem à família (que gostava que Lacas tivesse ido para "uma profis­são mais rentável, como arquitectura"), nem aos professores e o caminho mais lógico a seguir foi a faculdade de Belas-Artes, em Lisboa, onde andou oito anos e não tirou nenhum curso. "Apanhei aque­la boa fase das Belas-Artes em que as aulas práticas eram giras, as teóricas nem por isso, e frequentar o pátio e o Bairro Alto era mais fixe!"


ÁLBUNS

Rui Lacas já editou dez álbuns de banda desenhada e tem planos para muitos mais. Mas a esses já lá vamos.

Desses dez, onde se incluem os dois tomos das aventuras dos super-heróis "Asteroid Fighters", publicados pela ASA, está "Obri­gada, Patrão", uma trágica história pas­sada em 1980, na Zambujeira do Mar, sobre uma rapariga que vai trabalhar para casa do patrão da sua mãe. Este álbum, editado primeiro em França em 2005 pela Paquet, como "Merci, patrón", ganhou o prémio de Melhor Argumen­to e levou-o numa digressão por França e China. Cá foi editado pela Asa em 2007 e ganhou no ano seguinte o prémio de Melhor Álbum de Banda Desenhada Portuguesa e Melhor Álbum Português Edi­tado no Estrangeiro no Festival de BD da Amadora. Além disso, foi vencedor do prémio do melhor álbum português da Central Comics, no Porto. E não foi considerado o melhor só por outros: "Acho que é o meu melhor álbum e gostava de transformar este argumento num filme. Sim, também tenho daquelas ambi­ções de ser realizador de cinema."

"A Cauda do Tigre", de 1998, "A Filha do Caranguejo", de 2001 ou "Que é feito do meu Natal?", de 2002, são outros dos títulos mais conhecidos de Lacas.

VIVER DA BD E PARA A BD

Banda dese­nhada é o que estou sempre a fazer, mas não é o que me paga as contas", explica. A renda da casa é paga com os trabalhos de freelancer que faz, seja para ilustração seja para storyboards de publicida­de. "Mesmo lé fora são poucos os auto­res de banda desenhada que vivem só disso. A maioria tem de fazer outras coi­sas, como eu, não é só cá", garante.

Ao contrário da maioria dos autores de banda desenhada, que trabalham em parceria, com um a escrever o argumento e o outro a desenhar, Lacas costuma escrever e desenhar as próprias histó­rias. Para isso recorre com frequência a histórias pessoais, cheias de amores e desamores, “histórias de fôlego”, como lhes chamo. "Gosto de me sentar a dese­nhar a lápis e imaginar. Os diálogos nor­malmente vêm depois, mas muitas vezes as ideias para uma história vêm com uma ou duas frases. Funciono de uma forma muito livre e não tenho um condutor fixo", explica.

Neste momento, aos 38 anos, em que se diz "mais crescido", tem vontade de partir à aventura, de mala às costas, como Hugo Pratt (criador de “Corto Maltese"), mas de uma forma "mais freakalhota". "Se tivesse uma caravana, metia la um estirador e ia. Apetece-me muito mas, para já, viagens curtinhas. Estive três anos fechado em Lisboa e este Verão tenho andado por aí. No fundo estou sem­pre de férias e sempre a trabalhar. E depois leio muito Kerouac, goslo muito dessa coisa das viagens. E preciso de ir à procura de coisas novas."

Projectos novos. Com a Polvo prepara­-se para editar um livro "de 300 ou 400 páginas de material de 22 anos que nun­ca foi editado em álbum". “Vai ser assim como uma bíblia onde vou mesmo pôr uma cruz na capa com o meu nome e a data 1990 - 2012." A ideia era sair já em Outubro para o Festival de BD da Ama­dora, "mas já não deve dar". “Mas sairá de certeza no final do ano", garante.

Para a Asa, tem já pensado o terceiro tomo das aventuras dos "Asteroid Fighters", que por enquanto ainda mora apenas na sua cabeça. "Tenho tantos projectos que gostava de concretizar que gostava de me poder desdobrar cm dez!" 




POLVO, HÁ 15 ANOS A EDITAR BD PORTUGUESA 

A Polvo surgiu em 1997 e dedica a maior parte da sua edição à banda desenhada de auto­res poriugueses. Rui Lucas e, segundo Rui Brito, editor da Pol­vo, "um dos autores mais impor­tantes de Portugal e o quarto que editamos".

A Polvo surgiu numa altura em que "havia poucas editoras a apostar em novos autores por­tugueses de BD", explica Rui Bri­to. Do seu catálogo de autores, além de Rui laicas, fazem par­te nomes como Miguel Rocha, Paulo Monteiro, João Fazenda, Pedro Brito ou Filipe Abranches, o único autor português a ser mencionado no livro "1001 Obras de BD que Deve Ler Antes de Morrer", de Paul Gravett e com prefádo de Terry Gilliam. O livro de Abranches chama-se "O Diá­rio de K", uma adaptação de "A Morte do Palhaço", de Raul Bran­dão, e que foi editado em 2001 pela Polvo.

O livro que conheceu mais edi­ções na história da Polvo pertence a João Fazenda (desenhos) e Pedro Brito (argumento). Cha­ma-se “Tu és a Mulher da Minha Vida, Ela é a Mulher dos Meus Sonhos", vai na terceira edição e já foi traduzido em França e na Polónia. Itália deverá ser o próximo pais.

"O Amor Infinito que te tenho e outras histórias" - de Paulo Monteiro, director do Festival de BD de Beja -, cuja segunda edição saiu este ano e ganhou o prémio de Melhor Álbum Nacio­nal no Festival de BD da Ama­dora brevemente será edita­do no Brasil e no Reino Unido.


O editor Rui Brito e Rui Lacas, Festival de BD de Beja, 2012

HÄNS SOLO
e
O AMOR INTINITO QUE TE TENHO

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