segunda-feira, 10 de setembro de 2012

JOBAT NO LOULETANO – 9ª ARTE – MEMÓRIAS DA BANDA DESENHADA (LXIX e LXX) – ROUSSADO PINTO – NOTAS DE 30 ANOS DE BANDA DESENHADA E A PAIXÃO DE ROUSSADO PINTO (1) – TEXTO DE MANUEL CALDAS




NONA ARTE
MEMÓRIAS DA BANDA DESENHADA
(LXIX – LXX)

O Louletano, 23, Agosto, 2005

NOTAS DE 30 ANOS DE BANDA DESENHADA

Por Roussado Pinto

Inicialmente, antes de pensar no Vítor Peon para desenhar o «Pluto», pensei no António Barata, que assinava e assina ainda (felizmen­te!) A. Barata. Por essa altura o Peon traba­lhava para o «Mosquito», e o Barata que tinha desenhado uns guiões de Varatojo e Orlando Marques para o «Faísca», estava como que «liberto». Procurei-o na casa onde morava — ali para a Rua do Salitre — e falei com ele. Claro que disse que sim. O Barata raramente diz que não a um trabalho. O pior é o resto...

O resto... quer dizer... ele fazer! Bem, co­meçou aquilo a que chamei a minha odisseia. A partir daí quase fiquei dia e noite em sua casa, para que desenhasse a capa e algumas ilustrações. Ao fim de três semanas de traba­lho, de facto, apenas íamos ainda na capa e nas três ilustrações. Não que demorasse mui­to tempo a criar. Nada disso. Pelo contrário: O Barata realiza com extrema facilidade. O pior, bem, o pior é ele agarrar na caneta ou no pincel. Precisamos estar junto dele, quase em «cima» dele, quase a empurrar-lhe o braço, quase a obrigar a mão a desenhar. O que ele gosta, verdadeiramente, é de fazer toda a es­pécie de modelos, seja de aviões, seja do que for. Isso sim. Desenhar... bem, desenhar (re­petimos, é uma espécie de «trabalhos força­dos» para ele!

Com a capa na mão e as três ilustrações, tive de mudar de «ares». Voltei-me então para o Vítor Peon, que aceitou a tarefa.

Quando trabalhava no «Mosquito», era eu quem procedia aos sorteios do concurso «Que Horas São?», uma iniciativa muito bem rece­bida pelos rapazes de então. Os sorteios reali­zavam-se aos sábados, e nesse dia a «malta» caía toda na redacção, e enquanto não vinha um sub-chefe do Governo Civil para fiscalizar o sorteio, a «malta» andava comigo pelas ofi­cinas, metendo, o nariz em tudo, numa tagare­lice que findava quando chegavam à casa da máquina. Ali, perante a saída do «Mosquito» impresso, havia silêncio, e todos ficavam cala­dos, quietos, silenciosos, como que atingidos por uma estranha magia.

Essa magia existia: era a máquina a traba­lhar, era o papel impresso. Nessa altura, eu puxava por uma folha e passava-a para a «mal­ta», que a agarrava com reverência, e contem­plava-a como se fora qualquer coisa de muito transcendente. As visitas, regra geral, acaba­vam ali. Todos encostados a uma das paredes, hipnotizados, e quando o sorteio do concurso principiava, quase era preciso arrancá-los à força do «encantamento» em que mergulha­vam.

Isto só não acontecia com um garoto cujo nome não recordo, mas que por sinal até ga­nhou um dos concursos. Ao vê-lo desinteres­sado, alheado do «sortilégio» geral, perguntei-Ihe:

— Então que dizes a isto?
— Nunca pensei que fosse assim.
— Então como pensavas que era?
— Bem, julgava que era feito um «Mosqui­to» de cada vez.
— E é feito um de cada vez. Não viste?
— Sim, mas pela máquina. Eu julgava que era feito um de cada vez, mas pelos senhores.

E a desilusão era tão grande, que senti como se tivesse praticado uma fraude em re­lação ao garoto.



Texto publicado no "Jornal do Cuto" n° 115 (15/10/1975)

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O Louletano, 30, Agosto, 2005

Manuel Caldas
Algumas palavras apenas

Dando seguimento a textos dedicados a Roussado Pinto, prosseguimos hoje com uma nova série, de um novo colaborador, Manuel Caldas. O tema, ainda não ventilado nestas colunas, é o "Jornal do Cuto". Boa leitura.

Considerado pelos estudiosos de BD como autor dos melhores fanzines editados em Portugal, em meados dos anos 80 - "Nemo" e "Zero" - quer pela criteriosa pesquisa, lúcida análise e impecável apresentação -, temos o grato prazer de publicar um original de Manuel Caldas (MC), da Póvoa do Varzim, no qual escalpeliza a trajectória da última criação de fôlego de Roussado Pinto, em BD, o "Jornal do Cuto", seu início, alterações, percurso e características.

Fazem parte do currículo editorial de MC, - além dos fanzines acima referidos-, a publicação das brochuras de "Moira, A Escrava de Roma" (material saído no Jornal do Cuto); "Sunday" (Mundo de Aventuras, Modernos da Banda Desenhada, etc); histórias de Fernando Bento (Diabrete); Príncipe Valente, - o melhor estudo sobre este personagem editado em Portugal; "Lance", e as capas de "O Mosquito".

Referia-se, também, a estupenda recuperação de “Os Guerrei­ros do Lago Verde" (O Mosquito), dadas à estampa em "Zero", n.° 23 (Março de 1999), e "Trilogia das Mouras", com introduções de A. Dias de Deus, (em Setembro 1997).

PS. Um caloroso agradecimento a Jorge Magalhães pela medi­ação, e outro, igualmente, ao autor, Manuel Caldas, pela simpática deferência.

J.B.
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A PAIXÃO DE ROUSSADO PINTO (1)

Manuel Caldas

Não me recordo se foi exac­tamente no dia da data inscrita na capa, 7 de Julho de 1971, que vi à venda o primeiro número do Jornal do Cutto, mas tenho a cer­teza de que se não foi nesse dia, uma quarta-feira, foi num dos dias seguintes da mesma sema­na. Na capa anunciava ser "para maiores de 12 anos", idade que eu só faria no mês seguinte, mas o senhor Raul da livraria não me pediu o bilhete de identidade e eu pude comprá-lo.

Depois, até ao fim da revista, nun­ca deixei de esperar a sa­ída de cada número com grande ansi­edade, com uma ansie­dade enorme na sua pri­meira fase, que foi sem­pre marcada por uma capacidade que nenhu­ma outra revista de banda dese­nhada de então possuía: a capa­cidade para surpreender.

No ini­cio dos anos 70 publica­vam-se em Portugal nu­merosas re­vistas de banda dese­nhada. To­das as sema­nas as mon­tras dos quiosques ou das tabacarias se renovavam quase por completo com novas capas. Na sua arrasadora maioria eram publicações baratas e sem quaisquer luxos, revistas com que se podia gastar dinheiro sem ficar com remorsos pela quantia despendida quando, depois de lidas, as perdíamos. A mais cara era o Tintin, o semanário não só mais luxuoso mas também o que se podia considerar o melhor exemplo do que devia ser um jornal para a gente nova, ou para quem o quisesse comprar: mantinha um contacto directo com os seus leitores, preo­cupava-se com conhecer as suas opiniões sobre o que publicava e sobre o que gostariam que publicasse e respondia às cartas que lhe escreviam. Em nenhuma outra publicação do género havia tais pre­ocupações, apesar de lhe faltar a capacidade para surpreender: era sempre muito boa, mas também sempre sem surpresas. Até que surgiu o Jornal do Cuto.

COMEÇO MODESTO

O primeiro número do Jornal do Cuto — título que evocava uma personagem que nos anos 40 fora ídolo dos milhares de leitores d'O Mosquito e havia sido criada pelo espanhol* Jesus Blasco (na revista sempre grafado em português, sem o acento) — era modesto: vinte páginas, das quais a primeira — a capa — e a última a cores, mais quatro destacáveis com a fotografia de um futebolista e um quadro a cores da História de Portugal com ilustrações de Carlos Alberto e texto no verso. O preço era de 5$00, num tempo em que um jornal diário custava 1$50, um pão $40 e um selo para uma carta normal 1$00; e em que as crianças e os jovens não ti­nham o poder de compra que têm hoje.




(*) Nota do Kuentro: Catalão – Nasceu e morreu em Barcelona — 1919/1995.

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PERRO NEGRO em TIPHAINE
(4)
Benoit Despas (arg), José Pires (des)


PERRO NEGRO em A MORTE DA ÁGUIA
(1)
Benoit Despas (arg), José Pires (des)



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