domingo, 21 de julho de 2013

A GAZETA DA BD (9) NA GAZETA DAS CALDAS - O CNBDI



A GAZETA DA BD (9) 
NA GAZETA DAS CALDAS

19 de Julho de 2013
Jorge Machado-Dias

O CNBDI 
Centro Nacional de Banda Desenhada e Imagem

O CNBDI – Centro Nacional de Banda Desenhada e Imagem foi criado na Amadora em 2000, pelo então director do Festival Internacional de Banda Desenhada. Em primeiro lugar, para se desenvolverem actividades afectas à banda desenhada entre os Festivais, criando uma continuidade durante todo o ano, que tornasse a cidade da Amadora numa espécie de Angoulême cá do burgo.

A própria designação CNBDI, é uma cópia do seu congénere francês da cidade de Angoulême, onde se organiza o maior Festival do mundo de banda desenhada. Mas vejamos, o Centre National de la Bande Dessinée et de l'Image, foi formado sob a égide do então presidente Mitterrand e a batuta do ministro da Cultura Jack Lang, possuindo uma bedeteca, a mediateca, e o museu de banda desenhada, tendo sido instalado num antigo edifício industrial, entretanto alvo de um projecto arquitectónico notável de recuperação, do arquitecto Roland Castro. Em 2008, o CNBDI de Angoulême foi extinto como tal associando-se ao Laboratoire d'Imagerie Numérique (L.I.N.) – Laboratório de Imagem [impressa] Digitalizada –, à Escola Superior Europeia da Imagem e ao Atelier-Museu do Papel. Deu assim lugar a uma entidade muito mais abrangente, a Cité Internationale de la Bande Dessinée et de l'Image. 

O CNBDI de Angoulême (foto não publicada na Gazeta da BD por falta de espaço)

Bom, nada disto tem a ver com o CNBDI português, como podemos perceber – começando logo pela sua instalação num espaço projectado para o comércio, uma loja. No entanto realizou-se neste o que é possível, e fazer-se alguma coisa neste campo, mesmo com alguns erros de casting à mistura, é algo de muito positivo. O que é preciso é perseverar, corrigir alguns desses erros e avançar. Um Centro deste género é fundamental para preservar o historial da BD portuguesa e também para incentivar as novas gerações à leitura e à prática desta disciplina. No entanto os sucessivos cortes orçamentais, por via dos problemas económico/financeiros que vivemos actualmente, tem vindo a fazer decair a actividade do CNBDI, dependente por inteiro da Câmara Municipal da Amadora, para níveis confrangedores. 

O CNBDI da Amadora - entrada, na Av. do Brasil

Um dos erros de que falamos acima, e que tem dado origem às maiores polémicas: a palavra Imagem, que integra a designação do Centro e, como explicou José Ruy no texto sobre o historial do CNBDI, que temos vindo a publicar no blogue Kuentro, refere-se à fixação da banda desenhada em suportes digitais ou mesmo o desenho animado. Este reparo tem a ver com a errada escolha de temas, por parte do CNBDI/Amadora, em pelo menos dois dos seus programas, que se pretendem tertulianos, intitulados “Às Quintas Falamos de BD”, primeiro aquele que se debruçou sobre “Imagens da Guerra Colonial”, com projecção do documentário de Diana Andringa, “As Duas Faces da Guerra” (31 de Maio de 2012) e o outro sobre “Abril na BD - O Canto de Intervenção em Portugal e no Mundo” (19 de Abril de 2013). Isto, como é lógico, não tem qualquer cabimento, mesmo que se queira falar nestas tertúlias da relação da banda desenhada com “outras coisas”. Por outro lado, a comemoração sistemática do “25 de Abril” pelo Centro, revela uma fixação ideológica que nos parece excessiva numa instituição deste género – a própria Câmara Municipal comemora oficialmente o dia, o que será suficiente.

Contudo, o Centro teve na sua génese desenvolvimentos muito positivos, como a construção do famoso “bunker” (à prova de fogo, inundações e ácaros) para preservar os já cerca de 13.000 originais doados por diversos autores, – não só os clássicos nacionais, como também os modernos –, ou a constituição da bedeteca, abarcando cerca de 30.000 livros de e sobre BD. Juntando-se a isto a actividade editorial e a concepção e montagem de exposições na Galeria do Centro, com a criação da colecção NonArte (sete títulos editados) e os Catálogos das vinte exposições realizadas até agora. Digamos também que a maioria das exposições são organizadas de modo a poderem ser itinerantes e algumas já circularam pelo país e pelo estrangeiro, requisitadas por diversas entidades. Refira-se, já agora, que actualmente está aberta ao público, na Galeria do CNBDI, a exposição “Peregrinação de Fernão Mendes Pinto”, que estará patente até dia 30 de Junho de 2014 – e não de 2013 como estava inicialmente previsto.

Outro dos “lapsos” de organização do Centro é o facto de não ter um site próprio na net – encontrando-se diluído (e sem qualquer informação significativa) na confusão que é o site da própria Câmara Municipal.

Mas a destruição da bedeteca do CNBDI por parte da Biblioteca Municipal da Amadora, com a “requisição” de cerca de vinte mil livros, para completar o acervo de leitura juvenil da biblioteca – que José Ruy relata no texto a que nos referimos acima (in Às Quintas Falamos do CNBDI no Kuentro) –, é completamente inconcebível. Refira-se que muitos desses livros são exemplares únicos, oferecidos pelos visitantes estrangeiros do Festival de BD da Amadora. Um acervo desta natureza, em quantidade e qualidade, não pode nunca ser diluído em salas de uma biblioteca generalista, estando até à disposição do público para ser requisitado e... levado para casa.

O “bunker” onde estão arquivados e conservados 30.000 originais, está instalado no centro da Galeria do CNBDI


Aspecto da exposição “Peregrinação de Fernão Mendes Pinto”

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