segunda-feira, 8 de julho de 2013

JOBAT NO LOULETANO (122-123) – UM MAGO CHAMADO FERNANDO BENTO – por Jorge Magalhães (1 e 2)


NONA ARTE
MEMÓRIAS DA BANDA DESENHADA
(CXXII - CXXIII)

FERNANDO BENTO (7-8)

O Louletano, 28 de Janeiro de 2008

UM MAGO CHAMADO FERNANDO BENTO – 1
Jorge Magalhães 

Não é fácil fazer um balanço da carreira artística de Fer­nando Bento.

Ilustrador, figurinista, desenhador de histórias aos qua­dradinhos, caricaturista, cenógrafo, pintor, publicitário, em todas essas facetas sobressaiu a sua extraordinária capacidade criativa. No domínio da banda desenhada, a obra que reali­zou entre 1938 e 1993 é uma das mais extensas e notáveis, embora tivesse optado por uma profissão mais segura que a de desenhador, ficando o labor artístico limitado aos serões e a outros tempos livres.

Nascido em 26 de Outubro de 1910, em Lisboa, teve a sorte de assistir, desde tenra idade, aos espectáculos do Coliseu dos Recreios, onde seu pai era funcionário. O feérico mundo do circo e do music-hall, cheio de luz, cor, alegria e movimento, impressionou profundamente o seu espírito, moldando os sonhos a que a sua mão predestinada iria, futuramente, dar expressão gráfica.

Artista sem escola e sem currículo – apenas um curso por correspondência, tirado aos 19 anos na École ABC de Dessin, de Paris, em que aprendeu a desenhar de memória, sem utilizar modelos – o seu talento não tardou a abrir-lhe as portas dos jornais e do teatro de revista, onde impôs um estilo novo, caracterizado pelo arrojo, a fantasia e a liberdade criativa, granjeando o apreço unânime do público e da crítica.

Mas nenhum palco era suficientemente grande para conter o seu talento. Só o encontro com o mundo dos quadradinhos iria proporcionar-lhe a verdadeira plenitude artística. Foi em 1938 que Fernando Bento se estreou como desenhador de BD, na secção infantil do jornal República, em que já anteriormente colaborara.

Estreia auspiciosa, pois ao traço claro e puro e à técnica quase instin­tiva das suas primeiras ilustrações, acresciam agora outros predicados: a larga veia cómica, a fluência narrativa, o dinamismo esfusiante, o domínio das formas e da compo­sição. Além disso, já mostrava uma concepção moderna e estrutural das pranchas, sem a clássica disposição em tiras, como frequentemente ocorria noutras criações portuguesas. A linguagem dos "balões" também lhe era familiar, embora não a tivesse usado logo de início.

As suas posteriores HQ, pu­blicadas no Pim Pam Pum! e no Diabrete, viriam a desenvolver essas qualidades, sobretudo a partir de 1942, quando começou a apurar o estilo realista, de que são exemplo as admiráveis adaptações de alguns clássicos juvenis (Júlio Verne, Robert Louis Stevenson, Mark Twain, Rider Haggard e outros).

A actividade de Fernando Bento no Diabrete foi intensa, não só como desenhador de BD, mas também como director artístico, pois tinha a seu cargo todo o trabalho gráfico, desde a primeira à última página: cabeçalhos, ilustrações, vinhetas decorativas, capas, cerca­duras, jogos, etc. Assim como, na parte literária, era nítida a influência de Adolfo Simões Müller (coadju­vado por Maria Amélia Bárcia), na parte artística a invenção e a fantasia davam-se as mãos, imprimindo à revista um ar jovial e atraente, a começar pelo cabeçalho, constan­temente renovado. »»



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O Louletano, 18 de Fevereiro de 2008

UM MAGO CHAMADO FERNANDO BENTO – 2
Jorge Magalhães 

Bento criou, efectivamente, no campo do design – como hoje se diz – uma escola que não teve paralelo em nenhuma outra revista infantil do seu tempo. Nem mesmo O Mosquito, quando começou a exibir os magníficos desenhos de E. T. Coelho, logrou alcançar o mesmo nível de versatilidade, humor e encanto estético que o Diabrete, graças a Fernando Bento, manteve durante longos anos. Foi no Diabrete que Bento exteriorizou todo o seu talento; é lá que se encontram algumas das suas maiores criações – incluindo as duas precio­sidades que são A Ilha do Tesouro e As Mil e Uma Noites, verdadeiras obras-primas da BD portuguesa, reeditadas em álbum, pela primeira vez a cores, já no final dos anos 80.

Em nenhum outro momento o Artista atingiu tal exube­rância criativa.

Foi o seu período áureo, compreendido entre 1943 e 1953, do apogeu do Diabrete aos primeiros anos do Cavaleiro Andante. O seu traço dinâmico e expressivo, ora diáfano, ora compacto, de uma elegância de linhas que lembrava o estilismo de um coreógrafo e a graça de um poeta, corria livremente pelo papel, descrevendo elipses fulgurantes, fil­trando os planos num refinado jogo de luz e sombras, como um consumado realizador de cinema.

Ainda hoje essas imagens desfilam na retina dos seus leitores de outros tempos, impregnadas do poético encanto d'O Anão Muck, O Soldadinho de Chumbo, O Patinho Feio e O Príncipe Feliz, do "suspense" d'A Ilha Misteriosa, do romantismo d'O Pajem do Rei, do sortilégio d'As Minas de Salomão, da solitária beleza do deserto em Beau Geste e O Anel da Rainha de Sabá, e do heroísmo de Quentin Durward.

E o seu poder evocador transporta-os de novo à infân­cia, àquela época repleta de fantasias em que, com o Diabrete e o Cavaleiro Andante, aprenderam a conhecer e a amar a Arte de um mágico chamado Fernando Bento - "o grande mago do so­nho", como lhe chamou J. Montesdeoca (José Padinha), num artigo publicado em 1953 pela revista Flama.

Bento formou-se na escola da Arte e da Banda Desenhada com um triplo dom: o de visionário, poeta e cenógrafo. As suas personagens têm vida própria, não são apenas “bonecos”, títeres desenhados no papel.

Parece até que materializam de forma perfeita as ideias dos seus criadores – como no caso das adaptações de contos e romances célebres, género em que merece ser considerado um dos maiores mestres.





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O PRÍNCIPE FELIZ
Baseado num conto de Oscar Wilde - desenhos de Fernando Bento 



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