quinta-feira, 18 de julho de 2013

ÀS QUINTAS FALAMOS DO CNBDI NO KUENTRO (16) – AS EXPOSIÇÕES (8) NEIL GAIMAN – E O TEXTO DE JOSÉ RUY “AMIGOS DO CNBDI” (13)

ÀS QUINTAS FALAMOS DO CNBDI (16)
AS EXPOSIÇÕES (8) 
NEIL GAIMAN 
23 de Outubro a 3 de Dezembro de 2004

O CATÁLOGO

Neil Gaiman - Sonhos, Palavras e Imagens
Formato 24 x 26,5 cm - 72 págs. a cores

Comissariado da Exposição
João Miguel Lameiras e Pedro Mota

Textos de
José de Freitas (Introdução), David Soares, João Miguel Lameiras, Leandro Luigi Del Manto e Pedro Mota


Merece a pena transcrever este texto de introdução ao Catálogo, escrito por José de Freitas, embora quase dez anos depois, o texto já não seja tão “actual” como naquela altura, uma vez que o próprio José de Freitas e a “sua” Devir, foram habituando os leitores portugueses de BD a... outras leituras de BD – devo confessar que me incluo neste lote.

Aqui fica:

Em Portugal, a banda desenhada de origem anglo-saxónica continua a ser desconhecida da maioria dos leitores ditos "sérios", e isto porque além de desconhecida, continua a ser atirada, todos autores, géneros e séries confundidos, para a categoria dos "quadradinhos infantis" ou "daquela coisa dos super-heróis". Pessoalmente, não acho que exista nada de mal em editar histórias aos quadradinhos infantis, ou em ler histórias de super-heróis. Se forem boas... e se calhar, os leitores precisam de se formar na escola da BD popular antes de passar à leitura "séria". Mas para além disso, este "meter no mesmo saco" todo um universo de banda desenhada é também profundamente injusto para com o género.

Neil Gaiman é sem dúvida um exemplo dessa injustiça potencial de que o nosso mercado é afligido – embora felizmente as coisas pareçam estar a mudar. Ele é provavelmente um dos mais representativos autores da BD anglo-saxónica, e um daqueles que mais confusão causa na cabeça dos conhecedores portugueses. Por um lado, escreveu muitas histórias de super-heróis, ou para séries de BD popular (como o seu trabalho para os super-heróis da DC ou para o universo de Spawn, ou mais recentemente a sua criação de um universo alternativo para os heróis da Marvel com 1602). Por outro, não só é o criador de uma das mais famosas, complexas e literárias séries de sempre, a série Sandman, como foi o autor de BD que conseguiu apagar as fronteiras entre os vários tipos de literatura, tendo obtido também um sucesso tremendo com romances de fantasia moderna e ficção-científica, ou com livros para crianças ou literatura juvenil.

Neil Gaiman é portanto uma das referências incontornáveis da BD mundial – mas a Devir tem muitos outros motivos para sentir uma ligação especial a este verdadeiro Rei do Mundo dos Sonhos bedéfilo. Desde a criação da Devir, no Brasil, há já mais de quinze anos, que Gaiman se encontra ligado de modo misterioso à vida da empresa, mas também à vida pessoal de muitos dos seus sócios. Por estranhas coincidências, ou não, parece que ele está presente sempre que algo importante acontece. Quando esteve no Brasil em 1994 a nossa empresa passou por uma das suas maiores convulsões. Quando esteve em Portugal em 2003, muitos dos sócios da Devir viveram horas de profunda transformação. Além disso, Sandman foi o primeiro projecto de BD em que a Devir se envolveu – em colaboração com a Globo – e é portanto com grande prazer que regressamos ao seu universo com a edição desta série em Portugal, e com esta magnífica exposição que o CNBDI tão bem organizou. A história do "efeito Gaiman" na Devir fica para outra altura, e terá que ser contada por outras pessoas, mas como diz o meu amigo e sócio Mauro dos Prazeres "Gaiman mexe com coisa séria, portanto, leia com cuidado"!

José de Freitas 
Edições Devir
ALGUMAS PÁGINAS...

As duas primeiras páginas de Troll Bridge, um conto de Neil Gaiman adaptado a BD por Colleen Doran, que foi publicado originalmente na revista "A Distant Soil" #25. 
Encontram-se reproduzidas no Catálogo as 12 páginas deste conto.

Última página (antes da Ficha Técnica) - Sandman: The Wake, ilustração de Michael Zulli

AS FOTOS
do arquivo de Dâmaso Afonso

 Osvaldo de Sousa e Ricardo Liniers

Ricardo Liniers Siri, autor argentino de banda desenhada ...

 Bryan Talbot, autor inglês que desenhou o "Sandman" de Neil Gaiman, entre 1991 e 1993...

 Bryan Talbot com João Miguel Lameiras e José de Freitas...

Idem, com Ricardo Liniers a espreitar, à esquerda...

Nelson Dona, José de Freitas, Cristina Gouveia, João Miguel Lameiras e Pedro Mota

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AMIGOS DO CNBDI (13)
José Ruy

Mas em face dos originais do Teixeira Coelho que fomos encontrar, desenhados a lápis vigoroso tendo apenas uma ou outra vinheta coberta a nanquim, por vezes incompleta, tive então a ideia de se poder reunir em livro esses últimos traços de E. T. Coelho acompanhados de um texto escrito por um especialista na matéria, como o Arquiteto Leonardo De Sá ou o Jorge Magalhães. Não era preciso criar legendas nem procurar descobrir a história que dera origem aos desenhos, pois o que se via falava por si e já justificava a edição com êxito garantido, quanto a mim.

Seriam os últimos traços de um fabuloso Artista no final de uma carreira espetacular ao longo de muitas décadas.

Esta edição seria realizada por uma editora italiana ou de outro país, mas por iniciativa da herdeira. Até poderia ser em várias línguas em simultâneo.

Mas a ideia dos resultados da exposição planeada e levada a cabo pelo CNBDI não coincidia com a da considerada herdeira do grande Artista. A Câmara da Amadora promoveria a deslocação dos originais através de Portugal e do resto da Europa garantindo as ligações e dando oportunidade a que em cada país, editores publicassem livros a partir desse espólio, pagando direitos à família; mas a herdeira queria que a Câmara da Amadora publicasse um grande livro sobre E. T. Coelho para ser vendido nesses países, sendo o produto da venda aplicado num prémio a atribuir a jovens. Era uma ideia fora da realidade, pois a Autarquia não pode fazer esse tipo de negócio, por ser contrário às leis em vigor.

Também pôs entraves ao empréstimo de pequenos objetos pessoais e das próprias pranchas para a exposição. Colocou o lucro visível e imediato acima da homenagem e divulgação da obra do Mestre.
Durante o levantamento que estávamos a fazer das obras, para simplificar e agilizar o seu registo, a Dr.ª Cristina Gouveia usou uma pequena máquina digital para identificar cada original, evitando ter de escrever as referências, o que se tornaria moroso, pois dispúnhamos de poucos dias. Assim, a par dessas fotos tiradas sem condições de luz e com enormes erros de paralax, adicionava-se ao seu número de sequência, uma pequena referência alusiva ao conteúdo. Essas fotos, de baixa resolução e distorcidas nunca poderiam servir para utilizar numa possível reprodução gráfica. Eram apenas documentos. Mas a herdeira «receou» que pudessem ser utilizadas e opôs-se.

Fez gorar essa oportunidade única de se realizar a maior homenagem alguma vez pensada a este grande Artista. Há descendentes de grandes seres humanos, artistas, cientistas de várias áreas, que dignificam os seus progenitores. Outros, pelo contrário, envergonham-nos.

O meu amigo Jorge Machado-Dias ao saber da nossa partida para Florença, pediu-me que fizesse um artigo sobre o que íamos encontrar nesse último reduto do nosso maior artista da ilustração. Cumprindo o pedido, elaborei uns escritos que até deram para dois números do «BDJornal» (BDjornal #22 e #23) impresso em papel, e que foram ilustrados com fotos da sua última banca de trabalho e a emblemática janela do seu quarto aberta sobre Florença espraiando-se aos pés da colina de «Bagno a Ripoli». Também alguns desenhos e pinturas da sua última fase, cheios de vigor e movimento.

(continua...)

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