sexta-feira, 20 de agosto de 2010

BDpress #164: ALAN MOORE QUER AFASTAR-SE DA BD – NO JORNAL “i” + ASTERIX E MCDONALD’S IRRITAM OS GAULESES! – NO JORNAL “i” e PÚBLICO + IRON MAN FAZ MAL ÀS CRIANÇAS - NO CORREIO DA MANHÃ

Não esquecendo que começa hoje o 7º Luanda Cartoon’2010 (mostro aqui um cartaz com todos os autores participantes), os recortes de hoje referem-se especialmente a Alan Moore, que quer afastar-se dos comics e a campanha da McDonald’s em França, a usar Asterix como chamariz, o que não agrada nada aos irredutíveis…


Os autores apresentados no 7º Luanda Cartoon'2010
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Jornal “i”, 18 Agosto 2010-08-20

Banda Desenhada

ALAN MOORE. "VOU ACABAR COMO UMA ESPÉCIE DE BURACO NEGRO CRIATIVO"
por Dave Itzkoff - Exclusivo i/ The New York Times

O autor de "V de Vingança" e "Watchmen" quer afastar-se da BD. No seu novo livro não há super-heróis, está a escrever um filme e já tem 26 capítulos de um romance que vai provar que "a morte é uma ilusão"

Normalmente, a assinatura de Alan Moore num livro de banda desenhada é sinónimo de escrita emocionante e difícil: uma promessa de poderosos campeões com métodos místicos ou supercientíficos e cujos conflitos desafiam as percepções de heroísmo e humanidade do leitor.

Talvez por isso, a primeira indicação de que "Unearthing", o novo trabalho de Moore, não é igual às suas novelas gráficas, como "Watchmen" e "V de Vingança", é que o seu sujeito não é um aventureiro num fato de super-herói mas sim um amigo e também argumentista de BD chamado Steve Moore, que o inspirou a entrar no ramo. O segundo sinal é que "Unearthing" não é um livro de BD mas sim uma longa gravação de "spoken word" acompanhada por uma banda sonora atmosférica e um livro de fotografias.

Apesar da mudança radical de formato, o projecto "Unearthing" é também uma narração da história da BD britânica - uma nostálgica viagem ao passado, através do olhar de um amigo. As sementes de "Unearthing" foram plantadas em 2006, quando Moore publicou um ensaio numa antologia chamada "London: City of Disappearances", editada pelo escritor Iain Sinclair. Desafiado a imortalizar uma parte de Londres que estivesse em perigo de desaparecer, Alan Moore não escolheu um local mas sim Steve Moore, amigo que conhece desde a adolescência (não existe, no entanto, qualquer ligação familiar). Depois de ter publicado alguns dos primeiros fanzines de BD do Reino Unido e de ter ajudado a organizar algumas das primeiras convenções de BD do país, Steve Moore começou a colaborar em bandas desenhadas de fantasia e de super- -heróis como "Warrior" ou "2000 AD".

Quando escreveu o ensaio, Alan Moore estava envolvido numa guerra de palavras com a sua editora americana, a DC Comics, por causa dos direitos de autor da sua obra e da frustração com as adaptações cinematográficas produzidas pela empresa irmã da DC, a Warner Brothers.

Porém, nenhuma desta hostilidade está reflectida no texto poético e densamente alusivo de "Unearthing". Em parte, a peça presta homenagem a Shooter''s Hill, o bairro do Sul de Londres onde Steve Moore vive, já referido na literatura por escritores como Dickens ou Wordsworth e cuja história geológica ajudou a criar o vale do Tamisa. "É quase como se toda a cidade de Londres e a sua história seja um sonho de Shooter''s Hill", diz Alan Moore.

BD Psicadélica

O ensaio relata também o nascimento da BD britânica, quando ainda estava obcecada pela ficção científica e o terror americano dos anos 1950 e invejava profundamente as histórias americanas de super-heróis dos anos 60.

Em "Unearthing", Moore recorda a "fórmula, que a todos agrada, do perdedor omnipotente" que teve Stan Lee, o argumentista e editor da Marvel Comics, como pioneiro e o "estilo rápido mas suave" do artista da DC Carmine Infantino.

Alan Moore glorifica também Steve Moore por incorporar a mentalidade "radical e progressista" do adepto ideal da BD britânica. "Éramos todos proto-hippies", afirma Alan Moore. "Todos pensávamos que a BD só teria a ganhar se fosse tudo um pouco psicadélico, como Jim Steranko [autor que inovou a BD nos anos 60, introduzindo nas histórias elementos como o surrealismo]."

Steve Moore diz-nos, numa entrevista por telefone, que reagiu à sua imortalização em "Unearthing" com um "misto de espanto e divertimento".

"Obviamente que é um pouco estranho ver todos os detalhes íntimos da minha vida expostos ao público", revela, acrescentando: "Estou descontraído, a ver o processo e pensar até onde isto chegará."

Desde a sua publicação inicial, "Unearthing" tem continuado a evoluir para caminhos inesperados. Alan Moore deu autorização ao fotógrafo Mitch Jenkins, mais um amigo de longa data, para fazer uma série de fotografias baseadas na sua narrativa. Jenkins trouxe também para o projecto a editora independente britânica Lex Records, que produziu leitura sinistra do ensaio juntando-lhe uma banda sonora interpretada por músicos como Adam Drucker e Andrew Broder (dupla conhecida pelo nome de palco de Crook and Flail), Mike Patton, dos Faith No More, e Stuart Braithwaite, dos Mogwai. Uma caixa com as gravações e fotografias está à venda no site da editora, lexrecords.com.

Jenkins diz que este processo é típico da forma como se desenrolam as explorações criativas de Moore.

"Ele recusa-se, terminantemente, a fazer qualquer coisa a não ser que acredite verdadeiramente nela, enquanto eu já vendi tantas vezes a alma ao Diabo", confessa Jenkins. "Para mim, é uma nova experiência, espreitar um mundo onde fazemos coisas apenas porque queremos fazê-las."

O romancista

Se "Unearthing" reflecte o desejo de uma era mais simples na edição de BD, o seu autor diz que tal era inevitável. "Há talvez uma nostalgia que tentei invocar em benefício de Steve", afirma. "Existem ali coisas pelas quais não sinto, pessoalmente, qualquer nostalgia. Algumas delas eu nunca li, nem sequer vi."

Moore diz que está a deixar esse mundo para trás, preferindo saborear o seu novo papel de empresário: "Todos os novos projectos parecem brotar como cogumelos desde que decidi sair da arena da banda desenhada."

Afirma estar ainda empenhado na sua série de aventuras "A Liga de Cavalheiros Extraordinários", que é ilustrada por Kevin O''Neill e cujo último número foi lançado em Maio de 2009. Entretanto, está também a trabalhar na Dodgem Logic, uma revista underground que começou a publicar no último Outono; num "grimoire" - ou livro de feitiços - com Steve Moore; e num projecto de filme para o qual escreverá o argumento e que será realizado por Jenkins.

Alan Moore revela também que já tem feitos 26 capítulos de um romance que está a escrever há já algum tempo, chamado "Jerusalém", em que, diz, pode "provar de maneira conclusiva que a morte é uma ilusão da terceira dimensão e ninguém se deve preocupar".

Moore admite que a pressão para se exceder a si próprio, em grande parte auto-imposta, é algo que enfrenta desde que ele e o ilustrador Dave Gibbons terminaram o trabalho de "Watchmen", a sua altamente influente e popular série de super-heróis, em 1987.

"Estou constantemente a subir as minhas expectativas, até ao ponto em que, inevitavelmente, irei com certeza desmoronar-me sob a minha própria massa e tornar-me numa espécie de buraco negro criativo."

Acrescenta: "Felizmente, ainda falta muito para isso acontecer."





Alan Moore e Melinda Gebbie

(imagens relativas a Unearthing e Alan Moore são da responsabilidade do Kuentro)

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Jornal “i”, 18 de Agosto de 2010

por Mariana de Araújo Barbosa

Publicidade

ASTERIX EM CAMPANHA DA MCDONALD'S IRRITA FRANCESES

"Há ketchup no bigode do Asterix", escreveu o "Le Figaro" a propósito da campanha do gigante de fast-food McDonald's, que usou o herói da banda desenhada para a nova campanha publicitária da marca.
A ideia não tem colhido grande simpatia da parte dos franceses e a imprensa não poupa nas críticas. "A nova campanha do McDonald's mostra o lendário defensor da tradição francesa a comer num restaurante da marca. Nada mais é considerado razoável hoje em dia?", questiona o jornal francês.

O anúncio da McDonald's faz parte de um conjunto de três outdoors criados pela agência de publicidade Euro RSCG para a campanha "Você como você é".
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Público online – Economia, 19.08.2010

Nova campanha da McDonald’s usa aldeia gaulesa

FRANÇA IRRITADA COM A "TRAIÇÃO" DE ASTÉRIX AOS “ROMANOS”

As batalhas actuais travam-se nas transferências bancárias. O herói da banda desenhada que já é um símbolo independência francesa vai passar a estar associado à firma vendedora de hambúrgueres e saladas.

Não é pelo sabor do javali nem por causa do canto do bardo Assurancétorix. Mas os franceses estão com os cabelos em pé. É que vão passar a ver Asterix e Obelix e os seus companheiros da aldeia mais inexpugnável da Gália face ao poder monumental dos romanos, a banquetearem-se com hambúrgueres no restaurante de uma das mais conhecidas firmas multinacionais.

Caso a campanha vá para a frente, a cena do festim tem uma filatera de banda desenhada por cima da cabeça dos gauleses em que se pode ler uma frase que, em francês, tem um duplo sentido: “Venha como está”, ou “venha tal como é”.

Os primeiros protestos vieram dos blogs. O desgosto é o de verem a figura pensada por Uderzo e Goscinny “sacrificada às hordas dos romanos” “Muito obrigado, senhor Uderzo”, afirma-se noutro blog.

"Astérix, o último dos nossos heróis nacionais, irredutível gaulês resistente ao opressor graças à poção mágica e ao humor, deixar-se-ia seduzir pelo Big Mac e pela Coca-cola, abandonando por vontade própria a cerveja e o javali?", pergunta o Olivier Delcroix, no artigo do Le Fígaro, citado no site do Expresso.

Não é caso para menos. Foram mais de 325 milhões de exemplares vendidos das várias aventuras desses heróis, traduzidos em 107 línguas do planeta, que ganharam o público pela mensagem de não interessa se estás sós; temos uma poção mágica que nos faz invencíveis. Nem a firma editora pretende entrar na polémica.

“Esta campanha existe em parceria com a McDonald’s porque a mensagem convém e porque ela não acarreta nada aos valores das personagens”, refere um comentário da editora.que apela a que não “superinterprete” uma campanha publicitária. “A mensagem fala por si só” e os gauleses são como são.

A notícia está já a correr mundo, pelo menos a fazer fé nos textos das agências noticiosas. Mas na verdade, a "traição" de Astérix nem é uma novidade, embora não deixe de ser chocante. Em 2001, Astérix fez a vez de Ronald McDonald - o palhaço símbolo da marca - no lançamento do filme "Astérix & Obelix: Missão Cleópatra".



Imagem da campanha
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Correio da Manhã, 18 Agosto 2010


Por:R.P.V.

Estudo defende que super-heróis dão maus exemplos

‘HOMEM DE FERRO’ FAZ MAL ÀS CRIANÇAS

Maus exemplos. É assim que um estudo, apresentado na 118ª Convenção Anual da Associação Americana de Psicologia, classifica os super-heróis do cinema para as crianças, em particular o ‘Homem de Ferro’, vivido na sétima arte por Robert Downey Jr.

Ao contrário dos tempos áureos da banda desenhada, a professora da Universidade de Massachusetts-Boston, Sharon Lamb, explicou que os super-heróis já não surgem como pessoas reais, com vulnerabilidades. Citada pela 'BBC', a especialista esclareceu que a imagem do super-herói que bate em vilões não é boa quando se quer promover modelos masculinos mais gentis.

“Esses homens, como o ‘Homem de Ferro’, exploram as mulheres, exibem jóias e demonstram a masculinidade com armas poderosas”, referiu.

Após uma pesquisa junto de 674 crianças, entre os quatro e os 18 anos, a responsável concluiu que é disponibilizada aos mais jovens “uma versão limitada de masculinidade”.

“Os heróis de hoje participam de acções ininterruptas de violência”, concluiu Sharon Lamb. Por isso, a especialista defende que a solução está em ensinar os jovens a distanciarem-se dessas imagens e a encorajá-los a tentarem descobrir o que está errado na sua composição.


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