segunda-feira, 23 de agosto de 2010

BDpress #167: UM GRANDE LIVRO - FOOTNOTES IN GAZA, de Joe Sacco, por Alexandra Lucas Coelho no suplemento Ípsilon do Público, de 20 de Agosto 2010.

Alexandra Lucas Coelho escreve sobre FOOTNOTES IN GAZA, de Joe Sacco, no suplemento Ípsilon do Público, complementada com uma grande entrevista que, pela sua extensão, só amanhã postaremos aqui no Kuentro. Entretanto, também Pedro Vieira Moura, no seu blogue LerBD escreveu sobre este livro, assim como Sara Figueiredo Costa no BecoDasImagens. Podem ler AQUI e AQUI, para comparar opiniões. No fim do post mostro algumas capas de livros de Joe Sacco, dos quais apenas PALESTINA, tem edição portuguesa, de 2003 pela Mundo Fantasma. Alguns outros livros têm edição em português, mas do Brasil.

 

Banda Desenhada

GAZA REENCONTRADA

Alexandra Lucas Coelho

Havia uma parte do futuro de Gaza que estava oculta até Joe Sacco desenterrar o que aconteceu em 1956. É uma revelação.

Footnotes ln Gaza
Joe Sacco
Ed. Jonathan Cape


Joe Sacco criou a sua própria categoria: faz reportagem de guerra em banda desenhada.
Em "Footnotes in Gaza", o seu trabalho mais recente, leva essa categoria mais longe: reportagem de guerra e jornalismo de investigação em banda desenhada.

Mas, além de extravasar categorias, há pelo menos mais sete razões, digamos sete, para considerar esta obra desmedida, e por isso mesmo falar dela sem haver tradução disponível em Portugal.

Primeira razão: o trabalho manual. "Footnotes in Gaza" são 400 páginas a preto-e-branco escritas e minuciosamente desenhadas à mão. Ou seja, paciência, dedicação, labor, artesanía, tudo o que está fora do nosso tempo. Ou à frente dele.

Segunda razão: a dinâmica das páginas. Há páginas de quadradinhos clássicos e páginas de "zoom in" progressivo. Há panorâmicas de página inteira e de dupla página. Há panorâmicas rectilíneas e panorâmicas convulsas. Há caras por cima de panorâmicas, panorâmicas ruidosas, silenciosas ou mudas. Há cacofonias, sobreposições, imagens entrelaçadas, quadrados negros, claro-escuro, penumbra, luz cega. Cada página procura a sua própria dinâmica narrativa.

Terceira razão: a reconstituição de um lugar. A Faixa de Gaza pode ter sido vista em milhares de fotografias ou na televisão, mas nunca foi vista assim. Quem conhece a Gaza dos anos 2000, saberá como este retrato das ruas, das casas, das pessoas, do horizonte é exacto nos pormenores e atmosférico em geral. Mas o que Sacco faz é uma reconstituição de Gaza ao longo de todo o conflito, os refugiados de 1948 ainda sem tendas, depois ainda sem casas, depois as primeiras construções, e todas essas Gazas vão acrescentando densidade ao retrato do presente.

Quarta razão: humor e rigor. Sacco é um brilhante "clown". A forma como se põe dentro da história permite ao leitor projectar-se nele, nos seus ridículos, nas suas impaciências, nas suas epifanias. Ele está lá para podermos descomprimir, esticar as pernas na cama depois de um longo dia a ouvir testemunhas, acender um cigarro, ir beber um copo, comer em frente à televisão, pasmar com a alegre carnificina que é a matança do touro, ou rir nervosamente depois de mais um tiroteio nos passar por cima da cabeça. Tudo, em suma, para vermos, ouvirmos e sentirmos o que, em última análise, importa: a revelação rigorosa de uma realidade.

Quinta razão: fazer História. Além de ser testemunha do presente ou passado recente (as demolições das casas coladas à fronteira com o Egipto ocupam várias páginas, mas também os "checkpoints", a falta de espaço, a claustrofobia, o desemprego, a morte), Sacco desenterra dois massacres em que centenas de palestinianos morreram e faz deles narrativas vivas, através de dezenas de testemunhas. Neste momento, não deve haver ninguém que saiba mais do que ele sobre o que se passou num certo dia de 1956 em Khan Yunis, e noutro certo dia em Rafah. A partir daqui, os historiadores poderão trabalhar, mas o que Sacco fez foi pôr dentro da História dois massacres apenas referidos num velho relatório da ONU. Sim, a História tende a ir largando as notas de rodapé, mas isso já não poderá acontecer com estas ex-notas de rodapé.

Sexta razão: exército vs civis. Esses dois massacres foram cometidos pelo exército israelita.
Uma das sensações mais "estranhas neste livro, para quem viu soldados israelitas actuar em conflito, é como o exército do livro, é irreconhecível. É verdade que as fardas e os capacetes que os soldados de 1956 usam não têm nada a ver com os actuais, mas, para além disso, parece haver no desenho de Sacco um apagamento voluntário de identidade. As caras dos homens que abrem a cabeça dos palestinianos com bastões de madeira são opacas, sem expressão, sem características. Podiam ser quaisquer soldados em qualquer lugar a violentarem civis. E o efeito é o leitor concentrar-se no horror inverosímil de todos aqueles bastões a abrirem cabeças, sistematicamente confirmado por muitos depoimentos. Em suma, há um plano recuado, racional, em que o leitor sabe quem são aqueles soldados, mas no momento da violência eles podem ser qualquer soldado. São o horror inverosímil da guerra.

Sétima razão: a memória. É o grande tema, aquele que contém passado, presente e futuro. 1948 moldou 1956, que moldou 1967, que moldou 1973, que moldou as intifadas, que moldou a última guerra de Gaza, e cada um destes acontecimentos, em cada morte, em cada luto, continua a trabalhar por dentro, a fabricar o que o futuro vai ser. Havia uma parte desse futuro que estava oculta, porque não tínhamos visto o que aconteceu em 1956. Mas agora está aqui, para quem quiser ver.


LIVROS DE JOE SACCO:





 

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